Carlos Newton
AJUSTE FISCAL ILUSÓRIO – O governo federal também enfrenta problemas gravíssimos, porque o tal ajuste fiscal ainda não se concretizou, é apenas mais uma promessa a ser cumprida no final do ano que vem. A grande diferença é que o Ministério da Fazenda e o Tesouro podem rodar a guitarra, como se dizia antigamente, e fabricar dinheiro, inflação e dívida, através da emissão de moeda e títulos públicos. Mas os Estados e municípios não dispõem desse privilégio, terão de se adaptar à nova situação.
Como no filme “Casablanca”, quem vai pagar a despesa são os suspeitos de sempre. Ou seja, a classe média e o povão. Mas desta vez a conta será muito alta e demorará bastante até ser paga, se é que isso vá realmente acontecer.
DE QUEM É A CULPA? – A chamada opinião pública não está entendendo nada. Afinal, o país vinha tão bem… Como diz um dos principais culpados, o ex-presidente Lula da Silva, os pobres tinham até conquistado o direito de comprar carro e viajar de avião… Então, o que aconteceu?
O primeiro fato concreto é que houve uma explosão demográfica descontrolada no país. Em 1970, o grande publicitário e compositor Miguel Gustavo, nosso vizinho no Edifício Zacatecas, registrou que éramos “90 milhões em ação”. Menos de 50 anos depois, passamos a ser mais de 206 milhões, e isso tem um preço alto, muito alto.
Foi assim que o país se urbanizou, devido à massiva migração do campo para a cidade, com as favelas se expandindo adoidadamente. Hoje, o Grande Rio tem mais de mil favelas e São Paulo está pior ainda. De repente, tornou-se preciso construir conjuntos habitacionais, escolas, postos de saúde, hospitais, delegacias, quartéis, repartições, tribunais – um nunca-acabar de investimentos públicos, sem retorno financeiro. Mesmo assim, passando a ter a quinta maior população mundial, o Brasil foi em frente.
DEPOIS DO ITAMAR – Apesar da moratória decretada nos anos 80 pelo então presidente José Sarney no pagamento da dívida externa, o país ia se segurando até o final do governo Itamar Franco, o melhor presidente desde Juscelino Kubitschek, que dera segmento à política desenvolvimentista de Getúlio Vargas. Aliás, em termos econômicos, os governos militares da fase pós-64 se saíram muito bem, consolidando o que na época se chamou de “milagre brasileiro”, pois até os anos 80 o Brasil era o país que mais tinha se desenvolvido no Século XX, superando até o crescimento pós-guerra da Alemanha e do Japão, vejam bem a que ponto estávamos chegando.
Depois de Itamar, o dilúvio… O presidente Fernando Henrique Cardoso deu início à multiplicação da dívida interna, ao instituir o capitalismo à brasileira, em que mais vale a pena aplicar em títulos de governo do que criar empresas, gerar riquezas, abrir empregos e pagar impostos. Esse capitalismo sem risco foi – e ainda é – o grande responsável pela crise que só agora eclodiu.
NINGUÉM SE INTERESSA – FHC nunca foi responsabilizado pela invenção do capitalismo sem risco. Muito pelo contrário, continua sendo assediado para dar entrevistas, escreve portentosos artigos em jornais, parece uma sumidade econômica e está até se oferecendo para voltar ao poder, era só o que faltava.
Seu sucessor, o ignorante Lula da Silva, chamou o ex-banqueiro internacional Henrique Meirelles para tomar conta do Banco Central, e a farra financeira continuou por mais oito anos, com a dívida aumentando progressivamente para garantir um ilusório crescimento do PIB. Depois, veio a consagração do absurdo, com o governo da gerentona Dilma Rousseff, falsamente doutorada em Economia, que julgava merecer o Prêmio Nobel por comandar a criação da contabilidade criativa, maquiando as contas públicas, enquanto o PIB brasileiro mergulhava nas profundezas do buraco negro.
Dilma é despachada, o vice Michel Temer assume e convida justamente o mesmo ex-banqueiro para comandar as contas públicas, agora na condição de ministro da Fazenda e com carta-branca total. Como se dizia nos idos de Napoleão, tudo como dantes no quartel de Abrantes, porque Temer chamou a raposa para tomar conta do galinheiro.
MEIRELLES NO COMANDO – Nos dias de hoje, a realidade mudou. Quem comanda a economia é que faz o papel principal, o político virou apenas coadjuvante. Com Meirelles conduzindo o barco, os banqueiros e investidores podem dormir tranquilos, o capitalismo sem risco estará preservado.
No meio da derrocada do país, a mídia vive sua pior crise, que já devastou a imprensa tradicional (jornais e revistas) e agora começa a atingir as emissoras de TV. E não adianta colocar a culpa na internet, que é apenas um detalhe, como dizia a então ministra Zélia Cardoso de Mello, que inventou o confisco da poupança popular, na crise dos anos 90. Sem dinheiro em caixa, a mídia está hoje amordaçada, nada comenta sobre o capitalismo à brasileira, só nos resta a internet.
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PS – Nesta terça-feira, a invasão da Assembleia do Rio de Janeiro por policiais e servidores mostra que a crise é gravíssima e ameaça as instituições, que na verdade pouco valem. O Judiciário, por exemplo, que deveria ser o último bastião da cidadania, é um poder apodrecido, que jogou por terra a padronização salarial do serviço público criada pela Constituinte, pois o Supremo decidiu que privilégios abusivos deviam ser considerados como “direitos adquiridos”. E assim foi institucionalizada a esculhambação institucional à brasileira, que hoje faz parte de nosso singular modelo político-administrativo. (C.N.)
EXTRAÍDADEATRIBUNADAINTERNET





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