por Rogério Furquim Werneck O Globo
A longa celeuma em torno da apreciação das contas da presidente Dilma,
pelo TCU e pelo Congresso, vem deixando claro que parte importante da
elite política e social do país ainda não tem mentalidade compatível com
a de uma sociedade que leva de fato a sério a ideia de responsabilidade
fiscal.
Desde a promulgação da Magna
Carta, há 800 anos, a questão central da relação entre governantes e
governados tem sido, mundo afora, o conjunto de regras que regulam a
extração e o uso de recursos fiscais pelo Estado. Regras que, em países
minimamente civilizados, hoje, exigem que a atuação dos governantes seja
pautada por princípios rígidos de responsabilidade fiscal. É triste
constatar, contudo, quão primitiva ainda é, entre nós, a visão dominante
sobre a importância de assegurar que tais princípios sejam
rigorosamente respeitados.
Como pôde a presidente Dilma perpetrar tamanha devastação das contas
públicas para garantir sua reeleição? Não é indagação que tenha resposta
simples. Mas, entre as muitas explicações a considerar, merece destaque
a aposta feita pela presidente na possibilidade de se fiar na atávica
complacência com a irresponsabilidade fiscal de que o país ainda não se
livrou, apesar dos inegáveis avanços que, num momento muito especial,
puderam ser introduzidos na legislação pertinente, lá se vão 15 anos.
Desnecessário rememorar aqui os detalhes da acintosa operação de
dissimulação, cuidadosamente concertada pelo governo, em 2014, para
esconder do eleitorado, a qualquer custo, a verdadeira extensão da
deterioração das contas públicas. Já tive oportunidade de tratar desses
detalhes em dois artigos publicados, em julho, neste mesmo espaço,
disponíveis na internet: “Risco de rejeição”, em 3/7, e “Dilma, no final
das contas”, em 31/7.
Mas, apesar do selvagem vale-tudo fiscal que se viu no ano passado, não
tem faltado, da esquerda à direita do espectro político, quem esteja
pronto a relevar a gravidade das transgressões da Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF) cometidas pela presidente Dilma.
Desde banqueiros, que alegam que tais transgressões não foram tão graves
assim, a intelectuais do PT, que sequer conseguem perceber a mera
existência do problema. Houve quem arguisse, há poucos dias, que a
presidente estaria sendo inexplicavelmente acusada por se ter
desdobrado, em 2014, para mobilizar o apoio de instituições financeiras
federais e evitar que os beneficiários de programas sociais fossem
prejudicados.
Irresponsabilidade fiscal continua a ser vista, por muitos, como uma
falta menor. Tivesse um lobista comprado uma Fiat Elba em nome da
presidente, aí sim. Estaria, afinal, caracterizado fato inequívoco que
poderia justificar o impeachment. Já não teriam a mesma gravidade,
contudo, as “simples” transgressões da LRF cometidas pela presidente, ao
permitir que o Tesouro entrasse de forma ilegal e reiterada “no cheque
especial” em instituições financeiras federais, para deliberadamente
evitar que dezenas de bilhões de reais de gastos, assim financiados,
fossem contabilizados no déficit público e que o eleitorado percebesse a
real extensão da deterioração do quadro fiscal.
Tampouco seria tão grave que, durante a campanha eleitoral, a presidente
tenha assinado decretos claramente ilegais, autorizando expansão
suplementar de dispêndio quando, pelo contrário, o agravamento das
contas públicas já exigia a imposição de contingenciamento de gastos.
Tendo em vista essa inegável complacência com a irresponsabilidade
fiscal que ainda permeia boa parte da opinião pública bem informada do
país, é alvissareiro que o Tribunal de Contas da União, em decisão
histórica, por unanimidade, tenha dado parecer contrário à aprovação das
contas da presidente Dilma em 2014. Independentemente de outros
desdobramentos que possa vir a ter, tal decisão deverá ensejar saudável e
oportuna reflexão coletiva sobre a necessidade de levar a sério a ideia
de responsabilidade fiscal no país.
Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio
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