O pedófilo mora ao lado
Um amigo tem um filho de 13 anos. Para respeitar a privacidade do
garoto, não monitora suas redes sociais. Um dia, entrou em seu Facebook.
Não nas mensagens privadas, mas na página inicial. Surpreendeu-se com
mensagens de um homem, do tipo: “Meu muleke, depois que você entrou na
minha vida não pode sair mais...”. Surpreso, meu amigo buscou o perfil
do sujeito. Boa parte de seus amigos era de meninos, meninas e
adolescentes. ...
Inicialmente, o pai resolveu investigar. “Contato pessoal certamente
eles não mantiveram ainda”, pensou. Tinha bons motivos para essa
certeza. O garoto passava a maior parte do dia na escola e, quando saía,
era quase sempre acompanhado pelo motorista. Imaginou tratar-se de uma
abordagem via internet. Perigosa, sem dúvida. Ainda assim, menos
próxima. Separado, cria os filhos sozinho. Que fazer? A adolescência é
uma fase difícil. Temia o enfrentamento pessoal. Finalmente, o garoto
pediu para, na sexta-feira, jogar futebol com “uns amigos”.
– Que amigos? – quis saber o pai.
– Ahhh... amigos! – respondeu o menino.
Meu amigo proibiu. O garoto ficou furioso. E se recusou a dizer o nome do autor do convite.
Chamou o motorista. Mostrou a foto.
– Hummm... acho que conheço.
Era o manobrista do estacionamento VIP do shopping. O motorista lembrou
que, quando esperavam o carro, o sujeito sempre conversava com o
garoto. E que havia falado, sim, em jogar futebol algum dia.
Foi um choque. Alguém tão perto, tão dentro do cotidiano. Num shopping luxuoso...
Foi uma difícil conversa entre pai e filho. No final, o pedófilo foi
excluído do Facebook. Meu amigo está tomando as providências para a
denúncia legal. Nesse caso, o pai teve até sorte. Talvez, devido à pouca
familiaridade com as redes sociais, o sedutor deixava mensagens na
página inicial, abertas a quem entrasse. Nem sempre é assim.
Com frequência, ele participa de nossa intimidade. É preciso ficar de olho – e certa paranoia não faz mal
A internet tornou-se um playground para pedófilos. A abordagem, os
passos para a sedução tornaram-se mais fáceis, porque é possível
preservar a identidade. Mas é ingenuidade acreditar que nela está o
maior perigo. Muitas vezes, as redes sociais ajudam a sedimentar um
contato já estabelecido pessoalmente. A proximidade de um pedófilo é
maior do que se pensa. Há algum tempo, sugeri a seguidores do Twitter
que me contassem, em mensagens particulares, se haviam passado por algum
tipo de abuso sexual.
Surpreendi-me com o número de respostas. Nunca vou esquecer do caso de
uma senhora do interior de Minas Gerais. Segundo me contou, foi
violentada pelo irmão, já adulto, quando entrava na adolescência. Os
pais viajaram e tinham, justamente, deixado a garota aos cuidados do
mais velho. Assustada, ela guardou segredo por anos. Mesmo porque o
irmão a ameaçava. Quando revelou tudo, ninguém tomou nenhuma atitude.
– Não pareciam acreditar – disse ela.
Fica a dúvida. Duvidavam de fato ou era mais fácil não acreditar?
Casos parecidos foram muitos. Houve a garota abusada pelo vizinho
casado, em São Paulo. O rapaz abordado pelo padre, em Mato Grosso do
Sul. Outro, em Santa Catarina, foi continuamente estuprado pelo irmão,
da infância à adolescência, e ameaçado de todas as formas para manter o
silêncio. O abusado vive uma dupla violência: o ato em si e o medo em
pedir socorro.
Histórias de famosos confirmam essa realidade. A apresentadora Xuxa, num depoimento comovente ao programa Fantástico,
neste ano, contou sobre os vários abusos sexuais que sofreu até os 13
anos. Todos de homens próximos: um amigo do pai, o professor, o namorado
de sua avó. A empresária Lucília Diniz também revelou ter sofrido
abusos na infância, por alguém ligado à família. Em sã consciência, quem
desconfiaria de pessoas tão íntimas?
Nos Estados Unidos, há uma paranoia a respeito de contatos físicos. Embora não seja o tema central do livro, em Assédio sexual,
de Michael Crichton, o personagem central reflete, em certo momento,
sobre a dificuldade em ter um gesto espontâneo de carinho. Abraçar ou
beijar uma criança estranha pode redundar numa acusação. É paranoia,
sim: aconselha-se, nos EUA, a nunca pegar o elevador sozinho com uma
mulher. Se ela se rasgar e gritar, vem processo e cadeia. Mas certa dose
de paranoia não faz mal a ninguém. Vivemos numa época, vantajosamente,
em que situações nem sequer mencionadas no passado vêm à tona. O
pedófilo mora ao lado e com frequência participa de nossa intimidade. É
preciso ficar de olho.
Fonte: Revista Época - Walcyr Carrasco





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