Não,
o cenário não é produto da imaginação fílmica de Hollywood. Em artigo
para a "Slate", Harriet Washington levanta o véu sobre esse admirável
mundo novo: pesquisadores americanos desenvolveram uma técnica pré-natal
que permite isolar o DNA do feto a partir do sangue da mãe.
Depois,
com essa preciosa informação genética, será possível compor uma lista
generosa com os todos os genes "problemáticos" da futura criança.
Em
teoria, será possível saber se aquela vida será longa e saudável; ou,
pelo contrário, se terá uma tendência genética pronunciada para
desenvolver certos tipos de câncer ou outras doenças igualmente graves.
No
artigo, a autora levanta alguns problemas que a descoberta pode trazer.
Problemas práticos, médicos, sociais, parentais, que se resumem na
pergunta: o que fazer com essa informação genética? Devem os médicos
fornecê-la aos pais?
E,
em caso afirmativo, como proceder ante a possibilidade de uma criança
nascer com maior tendência genética para desenvolver uma doença
incapacitante, dolorosa ou fatal? Será o aborto uma hipótese? Melhor
ainda: será o aborto uma hipótese com base apenas numa hipótese?
Boas
perguntas. Infelizmente, todas elas esquecem um pormenor: a existência
de um feto. Ou, dito de outra forma, a existência de uma vida em
potência que não pertence aos médicos ou aos pais.
Essa
vida pertence a um ser humano único, com um trajecto singular pela
frente, e que transporta apenas nos genes um risco maior de desenvolver
doenças que sempre fizeram parte da nossa paisagem comum.
Saber
que um filho pode ter Alzheimer na velhice é um pensamento angustiante,
sem dúvida. Mas é também permitir que um futuro fantasmagórico possa
destruir retrospectivamente todas as idades anteriores desse filho.
Ceder
a esse fantasma é ceder a uma tirania sobre a infância, sobre a
adolescência, sobre a maturidade. É ceder a uma tirania sobre as
alegrias e tristezas, as vitórias e derrotas, os amores e desamores que
fazem parte de qualquer experiência humana.
No
fundo, é como se pudessemos afirmar, do alto da nossa arrogância
científica, que nenhuma vida pode ter valor apenas porque existe a
possibilidade séria de uma doença séria se intrometer no caminho de quem
a vive.
Um
pensamento desses não é apenas uma forma extrema e quase delirante de
eugenia - a visão aterradora de que a Terra deve ser apenas herdada por
seres perfeitos e, de preferência, imortais.
É também uma desistência covarde antes mesmo dessa vida começar.
Publicado na Folha de São Paulo.





0 comments:
Postar um comentário