por Paulo Delgado O Estado de São Paulo
Não há defesa para quem viola leis da admiração. A frustração é a
desrealização de um desejo. Com insinceridade a história não será
interpretada de forma apropriada a nenhum roteiro. Comparando sua vida
com o destino do País, imaginou-se um escoteiro autoglorificado. E
avançou no erro de querer a alma da Nação.
Quando um líder popular se dispõe a errar, supõe ser invisível. Só ele
sabe da súplica secreta que dirige a Deus. Sedutor seduzido acusa o
alfaiate de o vestir com o pano que o revela.
Ele não foi bem um líder novo. Desenvolveu com habilidade temas velhos,
mas, por não querer ir além do “mundo do seu eu”, não formou uma
estrutura cultural sólida, diversificada, que o afastasse de praticar o
pecado que imitou. E agora, tentando uma saída para o grande narcisismo
com que se conduziu no poder, mais se enrosca, na proporção e nos
detalhes, para explicar a dessublimação que marcou o seu governo.
A cada dia nos oferece uma atitude puramente imatura, visão aduladora e
insegura de quem flutua em realidade que não existe mais. Como
personagem à procura de um autor, ocupa advogado com a bazófia de pedir
ao juiz para fazer da audiência filme de um martírio, souvenir da súmula
delirante em que vive.
A dificuldade que encontra para conseguir apoio para sua história é que
ela não está mais ancorada no seu tempo. Estão esgotadas, por culpa
dele, as forças da mudança que o escolheram. E sem se renovar, escravo
de fraquezas, quer convencer o País de que não é dele o que ele usa. Sem
autocrítica, não vê que modos privados, valores, são mais universais do
que normas públicas.
A maldade fabrica o tormento contra si mesmo. Pesquisas de opinião mudam
humores, mas não temperamento. Não há como esquecer alguém que foi
eleito por dizer não aceitar “tudo isso que está aí”, mas desfrute dos
expedientes próprios do uso do poder, como criticava. Como não foi
perguntado sobre suas atitudes, na época certa, por graus mais elevados
da hierarquia dos juízes, não aceita que agora, que não tem mais
influência para determinar o que quer ouvir, um juiz de fora da capital
federal, rompa a tradição e anuncie a morte de um período histórico com
seu principal personagem ainda vivo. Para ele, perseguição a um herói;
para o Brasil não é o destino final: o barco do mito não tem mais a
simpatia do vento!
Freud não gostava muito de aplicar a psicanálise ao entendimento da
personalidade de um líder. Lacan justificou-o: muitos são canalhas e, se
analisados, pioram. William Bullit, um diplomata, convenceu Freud a
analisar Woodrow Wilson, presidente dos Estados Unidos, e o mal que fez à
Europa. O estudo que saiu dali mostra que os processos psíquicos
vividos pelo presidente durante sua vida suplantaram os processos
sociais vividos pelo mundo. Como benfeitor “desinformado, superficial e
manipulador”, Wilson neurotizou a América e levou ao colapso da
democracia na Europa.
Presidentes da República não gostam de ser ouvidos por juízes. Luiz, o
Verde, não gosta de ouvir a sua consciência. Prefere acusar os outros
por suas dores. Mas gosta de deixar todos esperando, sempre aplaudindo,
como se um microfone perdoasse todas as ofensas. Usa a entrega e o
silêncio do interlocutor, essa autoanulação coletiva que o cerca, para
dar os comandos sem explicitar as ordens. Assim, emocionalmente
protegido, alimenta o processo inconsciente que o remete à vantagem de
chefiar. Não adianta querer descobrir se não quiser entender. Wilson
enfrentou zombarias na sua formação, e zombarias incitam à falsidade e à
violência.
Tire do homem a autodeterminação e leve dele a majestade. Isso o torna
incapaz de repelir gestos de consolo e manipulação. Luiz, como idealista
imaturo, protege sua personalidade com o silêncio dos outros e sofre
porque não pede ajuda para saber por que não aceita dizer que errou.
Nunca ouviu falar em Wilson, que embrulhou sua admiração pelas pessoas
no esconderijo em que a motivação para o poder foi a forma de se livrar
da opressão que o cercava.
Ajustou o Estado à sua maneira de ver a vida e, confundindo carências
pessoais com programa de governo, modos de rua com popularidade,
improvisação com criatividade, transparência com burocracia, direito à
diferença com diferença de direitos, fez da indolência de maneiras uma
ginga. Com ela enfiou ideologia na cobiça: as exigências ao rico eram
desejos do pobre.
Superestimado, alimenta-se da reputação dos que o apoiam. Importunado,
apela aos auditórios indulgentes como a doença procura pelo remédio. Não
terá paz enquanto continuar a crer que discurso tem poder de forjar a
realidade. Tomando tempo do País com suas desculpas, quer convencê-lo de
que a amizade que usufruía, para fazer aumentar sua influência, deve
ser considerada inimizade. E sofismando sobre sua responsabilidade,
desdenha dos encarcerados, culpando o rio pela inundação do mar.
Supondo fazer o bem, transformou o Estado numa instituição de sacrifício
para a Nação. Assim, dar o que não lhe pertencia passou a ser a mais
magistral compreensão da arte de governar. Desse modo, só mapeando a
planura de críticos em que acomoda o território ao seu redor é possível
entender como um líder leva para casa bens ofertados ao chefe de Estado
do País.
120 anos antes, de tão magro, “o jagunço degolado não verte uma xícara de sangue e morto não pesa mais do que uma criança”.
Não pode ser engano de toda uma geração um líder popular envergonhar
Antônio Conselheiro por peripécias nas mansões da encosta de Salvador.
Euclides da Cunha não escreveria Os Sertões se, na Bahia de Todos os Santos, o “oprimido” passeasse de short na canoa do “opressor.
*Sociólogo é ex-deputado do PT (MG)
extraídaderota2014blogspot





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