por Felippe Hermes
A decisão do Supremo [de libertar José Dirceu] muda a situação do direito penal de terror no Brasil”
Em um país
com cerca de 250 mil presos provisórios (aqueles que ainda aguardam
julgamento), a frase acima pode parecer uma piada de mau gosto. Na
narrativa do advogado José Roberto Batochio, responsável pela defesa de
Lula e Palocci, esta é a síntese dos fatos de ontem: Moro é um juiz
tirano, cujo poder chegar ao fim graças ao STF, e Dirceu, o mártir da
vez.
Para o
ministro Gilmar Mendes, um dos três responsáveis por conceder o habeas
corpus (junto dos ministros Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski), a
atitude do Supremo é uma lição ao Brasil! Segundo ele, uma prova
de que a corte não se renderia ao clamor das ruas. Para Gilmar, o fato
de o Ministério Público, em especial o procurador Deltan Dallagnol, ter
denunciado José Dirceu por receber R$ 2,4 milhões da empreiteira OAS não
passa de uma brincadeira juvenil.
Com um
Congresso e um Executivo que disputam para saber quem protagonizará o
escândalo da semana, não é difícil perceber por que raramente damos
atenção a casos envolvendo o Judiciário. Desde que a Operação Lava Jato
ganhou tamanho, a confiança no Poder Judicial como única instituição
capaz de nos livrar deste mar de lama cresceu vertiginosamente. O
resultado, porém, foi um clima de vista grossa quase generalizado.
Apenas no
último biênio, o Judiciário viu aprovado um pacote que lhe garantirá
aumentos pelos próximos quatro anos, resultando em despesas da ordem de
R$ 60 bilhões, ou 41% de aumento salarial. Um valor considerável para um
poder que viu seus gastos com salários crescerem 1348% nas últimas duas
décadas, contra 880% de aumento do salário mínimo.
No mesmo
período, permaneceu sem votação no plenário do Supremo a decisão de
conceder auxílio-moradia aos mais de 15 mil magistrados brasileiros.
Decisão que se arrasta há quase três anos e que custa aos cofres
públicos quase R$ 200 milhões mensais.
Ao
contrário da corrupção praticada por políticos, cujo estrago pode ser
medido e quantificado, as perdas causadas ao país pelo marasmo da
justiça dificilmente poderão ser calculadas. Algumas outras questões,
porém, dão uma idéia de como precisamos encarar este problema. Abaixo,
selecionamos seis fatos que nos ajudam a entender o tamanho do buraco.
1. Nenhum país do mundo gasta tanto em justiça quanto o Brasil.

Se você é
daqueles que, corretamente, se indigna com os privilégios absurdos de
políticos brasileiros e não vê sentido em boa parte dos gastos com
parlamentares (os segundos mais caros do mundo, segundo a ONU), talvez
seja interessante ampliar um pouco o seu horizonte. Para manter toda a
estrutura de câmaras municipais, assembleias estaduais, Congresso
Nacional e Senado, incluindo aí mais de 62 mil políticos profissionais,
gastamos cerca de R$ 20,6 bilhões. Para manter o Judiciário, o custo não sai por menos do que R$ 61 bilhões.
Em termos
do PIB, a riqueza produzida pelo país, gastamos 1,3% de tudo o que
produzimos apenas com justiça. O número é quatro vezes o que gasta a
Alemanha ( 0,32%), oito vezes o que gasta o Chile (0,22%) e dez vezes o
que gasta a Argentina (0,13%).
Some neste montante o gasto com o Ministério Público e chegamos a incríveis 1,8% do PIB. Gastamos com justiça um valor equivalente ao gasto federal em educação, R$ 95 bilhões, ou Saúde, R$ 97 bilhões. O retorno? Um dos judiciários mais lentos do mundo, segundo o Banco Mundial. O 30º mais lento entre 133 países.
2. Nosso Judiciário é composto de muitos burocratas e poucos juízes.

Com cinco
tribunais superiores, 27 tribunais de justiça estaduais, três tribunais
militares estaduais, 27 justiças eleitorais nos Estados, cinco regiões
da Justiça Federal e 24 regiões da justiça do trabalho, empregamos ao
todo 390 mil funcionários e 16,2 mil juízes.
Nenhum
outro país do mundo emprega tantos funcionários na área como o Brasil.
São, em média, 205 para cada 100 mil habitantes, contra 150 na
Argentina, 66,9 na Alemanha e 42,1 no Chile.
Por outro lado, a média de juízes no país ainda é baixa comparada aos demais países do ocidente. Mantemos 8,2 magistrados para
cada 100 mil habitantes, comparados aos 24,7 da Alemanha e 11,4 da
Argentina. O Chile neste caso, possui uma média de cinco para 100 mil.
Com isso, sobra para cada juiz uma carga total de 6.531 processos.
Para dar conta em tempo hábil, considerando que cada juiz brasileiro
trabalha apenas dez meses por ano, seria necessário que cada juiz
julgasse 32,7 processos diariamente.
A
impossibilidade de julgar tantos processos é uma das razões para a
acumulação e demora em decisões judiciais. Na média, cada processo leva cinco anos para ser julgado em primeira instância.
O
resultado é aquém do esperado pelo Conselho Nacional de Justiça, segundo
o qual as justiças estadual e federal deveriam contar com 611 mil
funcionários para ‘funcionar de forma adequada’.
3. Manter a Justiça do Trabalho custa mais caro do que todos os benefícios que ela paga.

Quase uma
excentricidade brasileira, a Justiça do Trabalho é uma das explicações
para o excesso de processos em andamento no país. Nada menos do que
39,8% das ações que ingressam na justiça brasileira todos os anos são
consequência direta de questões trabalhistas.
No total,
são 7,6 milhões de processos anuais envolvendo rescisões, dano moral ou
remunerações diversas do trabalho. Na Justiça do Trabalho,
especificamente, chegam em média 2,5 milhões de processos anuais. O
número é 70 vezes aquele registrado na justiça americana, e quase mil
vezes o número de processos meramente trabalhistas registrados no Japão.
A disparidade é tamanha que o Japão sequer possui uma justiça do
trabalho.
Manter
toda a estrutura da Justiça do Trabalho custa em média R$ 61,24 para
cada brasileiro todos os anos. No total, R$ 11,68 bilhões. Considerando
que o custo recaia apenas sobre os brasileiros que trabalham, são R$ 125
anuais para garantir apenas as questões trabalhistas.
O resultado? Segundo o Conselho Nacional de Justiça, em 2013 a mesma Justiça do Trabalho gerou ganhos de R$ 11,287 bilhões a todos os reclamantes.
4. O maior custo na justiça é para resolver processos gerados pelo próprio governo.

Para
resolver cada processo, os tribunais de justiça estaduais dispõem, em
média, de R$ 458,00, contra R$ 675,00 da Justiça Federal. Quando
separada apenas a Justiça do Trabalho, o custo médio por questão
processual pode chegar a R$ 1.700,00.
No entanto, uma característica marca os mais de 95 milhões de processos em tramitação no Brasil: 89% deles são feitos por dois litigantes apenas: bancos e o governo.
Na soma,
os setores públicos municipais, estaduais e federal respondem por 51%
dos processos em andamento no país. São processos de origem
previdenciária, trabalhista e, especialmente, de execuções fiscais.
O caso é
tão grave que, determinadas vezes, mais vale “desistir” de uma ação do
que levá-la adiante. Sai “mais barato” para o governo aceitar e pagar a
ação do que obrigar seu bem remunerado defensor público a se ocupar
dela.
Em estados
como Rio de Janeiro e São Paulo, ações de execução fiscal, perpetradas
por governos estaduais e municipais, chegam a ser maioria. Cerca de 62%
das ações no RJ e 52% das ações em São Paulo se concentram nesta área.
5. 100% dos magistrados brasileiros estão entre os 0,5% mais ricos da população.

Imagine a situação: você é um dos cerca de 16 mil magistrados brasileiros e recebe um salário cujo valor médio é de R$ 25 mil.
O valor é aproximadamente 14 vezes a média da renda nacional para um
trabalhador comum, uma remuneração que lhe coloca entre os 0,5% mais
ricos da população brasileira. Não é difícil supor que, para a maioria
dos brasileiros, este seja um salário mais do que razoável. Para você,
entretanto, o valor é “degradante”. É necessário que você receba uma
certa ajuda para fechar as contas do mês, um… Auxílio Moradia!
A idéia
genial de ajudar os magistrados brasileiros a bancarem o aluguel nos
levou a uma situação curiosa. Gastamos atualmente R$ 200 milhões mensais
com esta prática, ainda que ela nunca tenha sido julgada em plenário,
pois o ministro do STF, Luiz Fux, jamais levou a medida para julgamento
(algo que lhe rendeu um pedido de impeachment).
Em 20
meses de vigência, o auxílio-moradia custou R$ 2,4 bilhões. Cerca de 10%
do gasto com os 47 milhões de beneficiários do Bolsa-Família.
Para
determinados magistrados, o valor é uma questão de “dignidade”. Segundo o
desembargador José Roberto Nalini, presidente do Tribunal de Justiça de
São Paulo, o auxílio disfarça um aumento no subsídio, uma vez que no
básico estão inclusos os 27% de desconto do imposto de renda e gastos
como plano de saúde. Para o desembargador, o salário de um juiz “apenas
parece razoável”, mas na prática “não dá pra ir toda hora a Miami comprar terno”. O auxílio funciona para que o juiz fique um pouco mais “animado”, não tenha tanta depressão e possa trabalhar melhor.
Colocados
em situações degradantes como estas, alguns juízes brasileiros defendem
certas extravagâncias. Ricardo Lewandowski, presidente do STF, defende,
por exemplo: auxílio-alimentação, creche, educação (para filhos de seis a
24 anos), plano de saúde e extra de até 20% no salário para juízes
pós-graduados.
6. Dentre 500 políticos julgados no Supremo Tribunal Federal nos últimos 20 anos, apenas 16 foram condenados.

Realizada pela associação de juízes federais, a estimativa é que existam no Brasil hoje 45,3 mil pessoas
com alguma espécie de foro privilegiado, nada menos do que o dobro do
estimado pelos responsáveis pela operação Lava Jato meros dois anos
atrás.
O número
assusta, ainda mais quando comparado a outros países. Na ditadura
chinesa, a regalia se resume a 2.987 integrantes do Congresso, que, por
lei, só podem ser investigados com a concordância dos 178 membros da
cúpula do partido.
Em países
como Estados Unidos e o Reino Unido, nem mesmo a mais alta autoridade do
país, o presidente Donald Trump ou a primeira-ministra Theresa May,
possuem tal regalia.
Por aqui, o foro é amplo e garante que cada um dos seus beneficiários só poderá ser julgado pela mais alta corte do país.
O que
deveria ser positivo – afinal, a Suprema Corte possui recursos muito
maiores que as demais -, na prática se tornou um refúgio.
Nomear
envolvidos na Lava Jato, como ministros, por exemplo, tornou-se prática
comum por parte da ex-presidente e do atual presidente da república.
No fundo, o
que conta mesmo é o histórico. De 1998 para cá, o STF julgou nada menos
do que 500 políticos, condenando apenas 16 deles.
Se serve de consolo, todos eles foram condenados após o julgamento do mensalão.





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