DANIELA LIMA - Folha de São Paulo
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso passou a defender abertamente
que o país encontre meios legais para garantir a sobrevivência de
empresas investigadas pela Lava Jato, sem que isso tenha qualquer efeito
de "anistia" para os seus "delitos ou donos", ele ressalta.
O tucano falou sobre o assunto com a reportagem por email. Ele é citado
por parlamentares, ministros, ex-ministros e advogados como uma peça
chave na romaria de pesos pesados do PIB que –como revelou a Folha no
último domingo (6)–, assustados com o avanço da Lava Jato, pressionam o
Congresso a aprovar projetos como o novo marco legal da leniência e uma
espécie de anistia para o caixa dois eleitoral.
Procurado pela reportagem, FHC negou ter conversado com políticos ou
empresários sobre o assunto, disse ser contra qualquer "anistia" a
delitos e defendeu a Lava Jato, mas reconheceu que o cenário de
"quebradeira generalizada" alardeado pelo empresariado o consterna.
"Quanto a mim, a preocupação maior é com os efeitos da crise econômica,
pela qual obviamente a Lava Jato não é responsável. Não endosso manobras
que a atinjam", escreveu FHC.
"Cabe à Justiça separar o joio do trigo e dosar que tipo de crime foi
praticado e se foi mesmo. Isso não é tarefa para o Congresso",
continuou, numa referência à tentativa de um grupo de parlamentares de
estabelecer uma linha temporal para o crime de caixa dois, punindo só o
que for praticado daqui para frente.
"Outra coisa, como escrevi, são as necessárias medidas que preservem as
empresas, mas não os delitos de seus donos e funcionários", afirmou FHC.
"A estagnação em que estamos é grande e tem efeitos sociais e econômicos
devastadores. É para resolvê-la que precisamos do que chamei de 'trégua
nacional', não para anistiar culpados", concluiu.
A última fala do ex-presidente é uma referência a artigo publicado por
ele no último domingo (6) nos jornais "O Globo" e "O Estado de S.Paulo".
No texto, FHC pregou uma espécie de "trégua nacional" que desse espaço
para o governo encaminhar "soluções jurídicas que mantenham as empresas
ativas, salvaguardando os empregos e nossa capacidade produtiva".
"Não estaremos à altura dos desafios se não afirmarmos que precisamos de
uma trégua nacional, não para conciliar elites, mas para pactuar o
futuro e pensar sobre ele", escreveu FHC no artigo.
"Será preciso coragem para o STF [Supremo Tribunal Federal] deixar a
Lava Jato cumprir seu papel de restaurador da moral pública, mas também
manter vivo o respeito aos direitos individuais."
"E o governo federal [...] precisa encaminhar soluções jurídicas que
mantenham as empresas ativas, salvaguardando empregos e capacidade
produtiva, sem prejuízo da punição dos dirigentes que a Justiça julgar
cabível", pregou. "Caso contrário, não faltam capitais globais dispostos
a adquirir na bacia das almas o que caro custou construir", concluiu.
extraídaderota2014blogspot





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