VINICIUS TORRES FREIRE FOLHA DE SP -
Não se espera de
senadores que façam discursos de graça a favor de corte de despesas, em
particular naquelas de saúde e educação. Ainda assim, deu para sentir o
cheiro de queimado do Plano Temer nesta terça (16) em um mero debate com
economistas sobre o teto de gastos na Comissão de Assuntos Econômicos
do Senado, em tese casa mais ponderada e razoável do Parlamento, diz a
lenda.
Vários senadores da coalizão temerista em suma diziam que o
projeto de limitar por 20 anos o crescimento dos gastos do governo
federal à taxa de inflação não passa, do jeito que está. Essa emenda
constitucional mal começou a tramitar na Câmara dos Deputados.
Trata-se
do único esteio do programa de Temer para a economia. Parece a última
tentativa restante de arrumação da casa econômica antes do próximo
governo, a última barreira que separa o país de alguma variante de
sarneyzação modorrenta pelos próximos dois anos e meio, na melhor das
hipóteses.
A sarneyzação é uma espécie de pasmaceira crônica e
uma aparência de governo que ocultam a piora de uma doença econômica
crônica e disfarçam um bloqueio político crucial. Resulta de um pacto
social tácito e louco pelo suicídio lento. Grupos de interesse diversos
entrincheiram-se nas suas posições (ou privilégios estatais), a casta
política se amolda a esse empate autodestrutivo e o país definha (na
verdade, os privilegiados maiores quase sempre se safam, quando não
engordam).
Foi o que se viu no fim dos anos de José Sarney, entre 1987 e 1989.
Senadores governistas diziam nesta terça o seguinte, em resumo.
Recusam
a redução da despesa em saúde e educação, embora a emenda do teto não
prescreva ou implique tal coisa (se pode até aumentar tais gastos, desde
que se corte em outra rubrica, dado o limite do crescimento de
despesa).
Recusam o fim das vinculações (a obrigação de gastar certo porcentual dos impostos recolhidos em saúde e educação).
Pregam
que se gaste parte do dinheiro "economizado" com o teto com
investimentos "em obras". Mas não haverá "economia" alguma de despesa
até 2020 ou 2021.
É muito provável que o governo ainda tenha
deficit primários até o começo da próxima década (a despesa será maior
que a receita, mesmo desconsiderados gastos com juros da dívida
pública). Levará outro tanto de anos até que o governo tenha superavit
primário suficiente. Isto é, até que reserve dinheiro bastante para
evitar o crescimento ora sem limite da dívida pública.
Essa
dívida que cresce sem limite é o motivo imediato da encrenca atual,
opinião que não é compartilhada por uma minoria de economistas para quem
é possível financiar (quaisquer?) deficit à taxa de juros que se
desejar, sonho feérico de endividados.
Como se não bastasse,
governadores do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste passeavam ontem por
Brasília, pelo Senado e pelo Planalto, a pedir mais repasses
obrigatórios da União para os Estados e autorização para tomar
empréstimos.
Como vai se sair deste estado de espírito (de
porco)? O país parece alheado ou cansado, tomando ar depois de anos de
convulsão contínua, mas também um tanto enamorado da ideia de que "as
coisas vão se ajeitar, aos poucos".
Não, jeitinho não vai dar.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Senadores discordam do teto de gastos ou preveem que emenda será desfigurada -
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