Artis Shepherd /misesbrasil
m meio a uma fraqueza significativa no mercado de trabalho, a problemas de liquidez nos mercados monetários e a um escrutínio crescente de determinadas bolhas nos mercados de capitais, tornou-se evidente para todos que existe uma crise do custo de vida.
À medida que a “Bolha de Tudo” recua temporariamente, ela já não consegue mais distrair completamente dos danos econômicos criados pelo dinheiro fácil e pela inflação. Impulsionados por uma impressão monetária maníaca desde 2008 — mais notavelmente após a crise do subprime e o pânico da covid — os preços dispararam à medida que o dólar foi desvalorizado.
Os preços das casas, conforme medidos pelo índice Case-Shiller, estão subindo a uma taxa anual de quase 7% desde suas mínimas no início de 2012.
O índice S&P 500 está quase dez vezes mais alto do que seus níveis mínimos de 2009, com qualquer queda relevante sendo sustentada por injeções de liquidez promovidas por um Federal Reserve inflador de bolhas.
Os gastos com cuidados médicos e os prêmios de seguro de saúde estão aumentando a um ritmo muito mais rápido do que a maioria das outras categorias, um sinal perturbador para uma população cada vez mais obesa e pouco saudável.
Mesmo o CPI — um indicador governamental que afirma medir o nível geral de preços na economia dos EUA — indica que os salários nominais mal conseguiram acompanhar essa medida de inflação de preços, o que significa que o crescimento real dos salários tem sido anêmico já há algum tempo.
Os americanos agora estão obcecados com especulação e jogos de azar, com muitos se endividando para perseguir ganhos descontrolados nos mercados de capitais. Como evidência disso, os saldos de empréstimos de margem e a dívida das famílias recentemente atingiram níveis recordes, ao mesmo tempo em que a frequência a cassinos também alcançou máximas históricas.
Um quadro mais claro de delinquência moral e estagnação econômica — particularmente entre os assalariados da classe média — dificilmente poderia ser imaginado, mas essa realidade vem sendo ofuscada há algum tempo pela persistente mania especulativa nos mercados de ativos, incentivada por administrações sucessivas e por um banco central submisso.
Com um mínimo de capacidade de percepção, é possível enxergar as relações de causa e efeito em funcionamento. A interferência do governo na economia — ainda que, possivelmente, após um aumento artificial de curto prazo na atividade — leva a distorções de natureza inflacionária. Essas distorções acabam atingindo um nível tal que a ação política “passa a ser” considerada necessária. A ação política, por sua vez, conduz a distorções ainda maiores, o que repete o ciclo intervenção–distorção segundo o padrão de uma função em degraus, de modo que o envolvimento cumulativo do governo na economia sempre aumenta em surtos discretos, levando a um entrincheiramento quase total e ao gradual eclipse das funções do livre mercado.
Atacando o problema pelo lado errado
H.L. Mencken disse que o povo comum sabe o que quer e merece recebê-lo, bem e dolorosamente. Nessa linha, comentaristas agora opinam com vigor sobre o que o governo “deve” fazer para resolver a crise de acessibilidade.
Uma dessas sugestões vem do American Enterprise Institute. A instituição defende que um tipo de “Plano Marshall” seria necessário para tornar as moradias novamente mais acessíveis e recolocar o Sonho Americano nos trilhos. “Ações ousadas e visionárias são necessárias”, ou algo nesse sentido. É o tipo de discurso vazio que a classe política adora.
O rechonchudo imbecil Bill Pulte — diretor da Federal Housing Administration no governo Trump — sugeriu uma hipoteca de 50 anos para melhorar o mercado imobiliário. As desvantagens óbvias dessa ideia já foram corretamente apontadas, portanto não as repetirei aqui. Mas a premissa subjacente equivocada deveria ser evidente: a imposição governamental sob o disfarce de inovação jamais pode se equiparar ao livre mercado quando se trata de criar prosperidade real.
Em uma tentativa mais discreta voltada ao setor habitacional, Pulte também está propondo hipotecas “portáteis”. Inicialmente confundidas com a assumibilidade — a característica de manter o empréstimo e a garantia inalterados enquanto se troca o tomador do crédito — a portabilidade implica manter o empréstimo e o tomador do crédito inalterados, alterando-se a garantia. Em outras palavras, ela permite que proprietários transfiram suas hipotecas para uma nova casa que venham a adquirir. Esse tipo de malabarismo burocrático vem sendo ignorado pelos mercados até agora porque mina um dos princípios fundamentais do crédito: a vinculação entre um empréstimo e a qualidade de sua garantia subjacente.
Assim como a hipoteca de 50 anos, a portabilidade não é uma tentativa de melhorar a acessibilidade à moradia, mas sim de aumentar o volume de vendas de imóveis, pressionando os preços para cima.Outra manobra cínica que a atual administração pretende adotar é o envio de cheques para pessoas abaixo de determinado limite de renda. Ainda assim, o dinheiro necessário precisa ser impresso ou tomado emprestado, agravando a dinâmica inflacionária já existente. Pior ainda, isso torna as pessoas dependentes do governo por mais uma esmola, corroendo ainda mais sua independência já em declínio.
Intenção de Retirada
Ironicamente, a equipe de Trump recentemente reduziu tarifas sobre café, bananas e outros alimentos na tentativa de combater os preços mais altos causados por essas próprias tarifas. Aqui, a administração acabou tropeçando em uma solução real para a crise de acessibilidade — desfazer toda a bobagem que havia sido feita anteriormente sob o pretexto de estímulo econômico.
A remoção de regulações no setor habitacional, por exemplo, reduziria imediatamente os custos de construção, diminuindo diretamente, tudo o mais constante, o custo base para potenciais compradores. Essas eliminações poderiam começar no nível federal, com estados e municípios seguindo o exemplo.
Além disso, desmontar a Fannie Mae e a Freddie Mac — começando pela interrupção de quaisquer novas garantias hipotecárias, da emissão de títulos lastreados em hipotecas e do apoio federal correlato à compra de imóveis — permitiria que a habitação voltasse a ser um mercado genuíno, em vez de um esquema dominado pelo governo, com o contribuinte como o responsável final pelo prejuízo.
De forma mais ampla, uma redução massiva — avançando em direção à eliminação — do estado assistencial-militar melhoraria a acessibilidade de tudo ao eliminar a necessidade de endividamento governamental excessivo, tributação e impressão de dinheiro. Assim, o dólar norte-americano deixaria de sofrer sua interminável desvalorização.
Taxas de juros artificialmente baixas — intimamente ligadas à inflação monetária e à desvalorização da moeda — deixariam de existir se o banco central saísse de cena e permitisse que os mercados decidissem o que emprestar, a quem, quanto e a que taxa de juros.
Apesar da clareza das relações de causa e efeito das sugestões apresentadas anteriormente, as chances de que sequer uma delas venha a se concretizar são próximas de zero. A classe política e sua rede de habilidosos rentistas simplesmente se beneficiam demais do status quo. Os americanos não podem esperar sair dessa situação por meio do voto.
As soluções reais estão nos níveis individual, familiar, comunitário e até estadual, contornando de forma efetiva a autoridade federal.
Compreender, por exemplo, o impacto negativo que a inflação monetária exerce sobre a integridade pessoal é o primeiro passo para combater esse efeito, buscando valores mais elevados — e contrários — àqueles inculcados pelo estado.
Ampliar, ao longo do tempo, o conjunto de habilidades produtivas e a empregabilidade de cada indivíduo significaria que ganhar dinheiro passaria a ser uma função de acúmen técnico, e não da capacidade de rent-seeking (busca de renda por meio de privilégios estatais).
Abandonar o sistema escolar público em favor de opções alternativas — como a educação domiciliar (homeschooling) — garantiria que as crianças vivenciassem uma infância naturalmente gratificante e produtiva, e não fossem prejudicadas por anos de propaganda sem sentido.
Evitar indulgências vazias e esquivar-se de dívidas pessoais não apenas eliminaria a necessidade de esmolas do governo — ou de qualquer terceiro —, como também garantiria um salutar desprezo por elas.
Enxergar a política com clareza — como um exercício de obtenção de poder por meio do uso de uma linguagem colorida, porém vazia — criaria um senso de urgência quanto a contornar qualquer entidade política que aja pela força e a nos movermos em direção a relações exclusivamente voluntárias.
Esses esforços são sutis, mas podem ser a única fuga prática de uma autoridade que, de maneira manifesta, despreza aqueles que governa.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/17578/as-solucoes-para-a-crise-do-custo-de-vida-nao-virao-do-governo/





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