editorial de O Globo
Fidel Castro chega aos 90 anos como a principal figura de uma das mais
longevas ditaduras do mundo. Dos fuzilamentos de dissidentes no paredón à
prisão de opositores. Em mais de meio século, desde a tomada de Havana
pelos guerrilheiros, o governo cubano cometeu e comete uma série de
crimes contra os direitos humanos, como é de praxe em regimes
totalitários. E mesmo afastado da presidência por razões de saúde, “el
comandante”, como Fidel é chamado na Ilha, continua uma sombra a
influenciar o irmão e atual presidente, Raúl Castro.
Como muitos países comunistas, que desmoronaram a partir dos anos 80, a
falência do stalinismo tropical é questão de tempo, e Raúl Castro vem
implementando reformas que sinalizam uma abertura, não por espírito
democrático, mas para tentar preservar algum controle sobre um processo
incontornável. Afinal, os avanços em alguns indicadores sociais, como
saúde e educação, não justificam a repressão e a total falta de
liberdade dos cidadãos cubanos. A evidência disso é o crescente
descontentamento perceptível nas gerações mais novas, menos
influenciadas pelas narrativas heroicas da revolução.
Por outro lado, após décadas tentando derrubar o regime castrista
mediante uma política de embargo econômico, os EUA apenas conseguiram
endurecer o regime da Ilha, justificar uma retórica anti-imperialista e
piorar as condições de vida da população cubana. Por isso, representou
um passo correto a política de reaproximação do governo de Barack Obama,
com a abertura ao turismo e o estreitamento dos laços entre famílias
cubanas e parentes de Miami. Há, porém, riscos. A iniciativa tem sido
criticada por republicanos, saudosos da velha diplomacia beligerante que
ajudou a manter Cuba isolada.
Seja como for, a retomada de relações diplomáticas entre Washington e
Havana é um sinal auspicioso, que poderá acelerar a abertura política da
Ilha, oxigenando um sistema asfixiado pelo autoritarismo. Mais do que
os ganhos comerciais e a multiplicação de oportunidades de negócios, a
própria lógica de prosperidade incentivará renovações no campo político e
econômico. Para isso, Cuba terá que passar por reformas importantes,
inclusive urbana e institucional, para restaurar o tecido social,
rompido por anos de autoritarismo.
Para isso, os EUA precisarão manter a importante exigência de contrapartida cubana em termos de abertura política do país.
Cuba, por sua vez, tem a oportunidade de se reinventar como regime
democrático e próspero, podendo inclusive aproveitar, como uma vantagem
especial, o legado que representa o alto nível educacional de sua
população. Espera-se que Raúl Castro consolide esse caminho, mesmo
porque, a alternativa será uma crise de características venezuelanas.
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