Concessões vão mudar expectativas, diz Mantega - CLAUDIA SAFATLE
VALOR ECONÔMICO -
Faz um ano que o governo
anunciou o programa de concessões de rodovias e ferrovias com o
propósito de chegar em junho com todas as licitações já realizadas. Da
modelagem inicial praticamente nada vingou. Tudo foi refeito e
renegociado mais recentemente pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. As pessoas originalmente envolvidas no processo não permaneceram até o fim.
O programa de concessões
que começou a ser divulgado no dia 15 de agosto de 2012 é, hoje, a
principal - senão a única - arma que do governo para dar impulso aos
investimentos. Junto com o leilão de petróleo do campo de Libra, formam
um evento que o governo quer ver muito bem sucedido para mudar as
expectativas. Estas, pessimistas, contaminaram os indicadores de
confiança de consumidores e empresários. A queda da confiança é, em
geral, a antessala da desaceleração econômica.
Não há dados mais
objetivos sobre o desempenho da economia em julho, exceto do setor
automotivo. É, portanto, cedo para dizer se houve uma inflexão da
produção e do consumo. Mas economistas do setor privado, que acompanham
minuciosamente os indicadores, identificaram possível retração da
produção industrial, na comparação com junho. Seria uma queda de cerca
de 1%.
O índice de confiança do
setor de serviços da Fundação Getulio Vargas (FGV) é, segundo um desses
economistas, bastante aderente ao PIB de serviços e estaria apontando
para uma perda de fôlego importante também nessa área. Há, no setor
privado, quem estime crescimento de 1,5% para a indústria de serviços
neste ano, o menor desde 2003.
Nos próximos dez dias
serão divulgados diversos indicadores relativos ao segundo trimestre e
as informações serão positivas. O PIB pode ter crescido mais de 1% sobre
o primeiro trimestre. Já o terceiro trimestre, sem um bom resultado em
julho, tende a ser ruim, avaliam.
Assessores graduados da
área econômica já perceberam que houve uma queda relevante no ritmo de
crescimento em julho e que o padrão do segundo trimestre é de difícil
sustentação no restante do ano. O ministro da Fazenda avalia que julho,
apesar de ter tido 23 dias úteis, é sempre mais fraco por causa das
férias, mas não crê que isso comprometa a performance da economia daqui
por diante.
Num curto espaço de
tempo teria havido, assim, uma mudança não desprezível na performance da
economia. Uma sequência de motivos explicariam o esfriamento do
"espírito animal". Os bancos, à exceção das instituições públicas,
fecharam as torneiras do crédito; as condições financeiras externas e
internas do país mudaram drasticamente entre o primeiro e o segundo
trimestres - com a elevação da taxa Selic, o
anúncio do fim dos estímulos monetários pelo Fed e a depreciação do
câmbio. As manifestações de protesto popular nas ruas das principais
cidades do país adicionaram uma nuvem de fumaça no cenário,
intensificando a desconfiança dos agentes econômicos.
A reação do governo às
manifestações mostrou fragilidade. Os cinco pactos propostos como
tentativa de dar vazão à insatisfação popular tiveram vida curta.
A antecipação do debate
eleitoral foi uma péssima iniciativa que só agregou mais incertezas,
segundo um empresário. Se há pouco mais de dois meses Dilma Rousseff
estava reeleita, agora o jogo sucessório embaralhou. Não há um candidato
óbvio. Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) não foram os
catalizadores dos eleitores descontentes. Marina Silva foi, mas há
dúvidas sobre se ela, conseguindo criar o partido (Rede), tenha fôlego
para vencer. A última vez que apareceu um candidato novo, desconhecido,
que conquistou o eleitorado foi Fernando Collor de Mello, lembrou esse
empresário.
Esses são fatores que,
somados, formam um quadro de incógnitas e recomendam cautela ao setor
privado. A tendência é esperar as eleições, ver quem vence, qual será a
política econômica a partir de 2015 para, então, retomar os
investimentos.
Assim como no início do
ano se esperava, no governo e fora dele, que os investimentos fossem a
vedete do crescimento neste ano, os prognósticos de agora para o
terceiro trimestre podem estar errados.
"Vamos ter as
concessões, os investidores estrangeiros virão porque falta no mundo
oportunidade de rentabilidade. Se os leilões forem um sucesso, vai bater
nas expectativas", diz Mantega. As fichas do governo estão na mesa.





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