por Zuenir Ventura O Globo
Brasileiros que estavam ou que moram em Istambul contaram que, no dia
seguinte à tragédia que matou 43 pessoas no aeroporto, os habitantes
voltaram à vida normal como se nada demais tivesse acontecido. Depois de
14 atos terroristas nos últimos 12 meses, “virou rotina para eles”,
explicaram. Lá, a violência é por atacado: matam logo 40 ou 50 de uma
vez. Aqui, é no varejo: mata-se um pouco a cada dia. Os turcos se
espantam quando sabem que se cometem quase 60 mil assassinatos por ano
no país. Não entendem por que não nos escandalizamos.
De fato, aqueles atentados causaram um total de 246 vítimas fatais,
enquanto os assaltos no Rio produzem em média 16 assassinatos
diariamente e assim, em pouco tempo, superamos as estatísticas deles.
Ontem mesmo ficamos sabendo, oficialmente, que em maio houve
recrudescimento. Os casos de vítimas em confronto com a polícia, por
exemplo, aumentaram mais de 90%. Triste mundo esse em que a disputa é
para ver onde há mais insegurança. Nesse ranking, que é organizado com
os piores índices, o Brasil é o 11º país com a maior taxa de homicídios
do mundo.
Pode-se alegar que os terroristas não discriminam vítimas, atingem até
crianças. Mas o Rio consagrou a instituição das “balas perdidas”, que só
em 2015 fizeram 52 mortos e 86 feridos, aleatoriamente, com inocentes
como alvos preferenciais. Contra a acusação da ONU de que a polícia
brasileira é responsável por cinco mortes a cada dia no país, o
presidente da Associação Nacional dos Praças afirma que aqui há “um
número seis vezes maior de mortes de policiais do que nos EUA, que
comumente é utilizado como exemplo”.
Às vésperas da Olimpíada, preocupa o fato de que, enquanto em cidades
como Istambul, segundo os depoimentos, é possível andar tranquilamente
pelas ruas, no Rio é difícil recomendar aos visitantes um lugar
absolutamente seguro. Esta semana fui entrevistado por dois jornalistas
franceses encarregados pelo site da Fundação Cognacq-Jay, de Paris, de
escrever sobre iniciativas inovadoras de solidariedade social no Rio.
Impressionados com os projetos socioculturais que visitaram em várias
comunidades, como o Redes da Maré, a Orquestra de Cordas da Grota, de
Niterói, o Nós do Morro, do Vidigal, entre outros, eles não entendem por
que o programa de pacificação teria fracassado até em favelas com UPPs,
onde os traficantes voltaram a infernizar a vida dos moradores. É
possível que não tenha fracassado, apenas não se completou, pois
continua faltando o que o secretário Beltrame sempre cobrou: invasão de
cidadania, mais do que policial. É pelo menos a esperança, que essa a
violência não consegue matar.
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