Igor Gielow: Folha de São Paulo
Uma das dificuldades da Operação Lava Jato sempre foi a de transmitir
como palpável ao cidadão suas descobertas. As cifras assombrosas e o
assalto institucional sem precedentes pareciam um prêmio da Mega Sena:
uma coisa impressionante, mas algo intangível.
Os desenvolvimentos recentes, dentro e fora do escopo original da
operação, têm mudado isso. Quando o pessoal abusa do crédito consignado,
ideia bacana e inclusiva que, como tudo no Brasil, virou bagunça, o
patamar é alterado.
A etapa desta sexta (1º) foi ainda mais explícita. Está sendo apurado um roubo contra o proverbial "dinheiro do trabalhador", aquele entulho legal que retira dinheiro seu, meu, nosso e entrega para a gestão deficitária do governo.
O impacto potencial é enorme. O PT quebrou a Petrobras e o país, isso é
um fato de fácil absorção eleitoral. O esquema, com o PMDB que herdou a
desgraça de Dilma à frente, comeu o dinheiro que sai da conta de todos
os empregados de carteira assinada: é algo além.
Com todos os seus problemas de ordem formal, enfrentando uma reação cada
vez mais crescente do establishment político e empresarial, a Lava Jato
e o "template" por ela estabelecido avançam. Não há volta, ainda que o
paroxismo futuro seja evidente: a erosão de classes dominantes como as
conhecemos, sem sombra de substitutos no mercado.
Aqui e ali há sinais de que a reação pode ganhar algum oxigênio para os
envolvidos, mas parece tudo ilusório. O risco maior pode estar no do que
já chamei aqui de "morolização": a personificação do saudável movimento
de limpeza em poucas figuras; o ser humano, imperfeito por essência, só
deveria encarnar ideais em momentos excepcionais da história.
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