por José Nêumanne
O que aconteceu no fim da tarde de quinta-feira 6 de setembro em Juiz de
Fora (MG) foi a terceira ocorrência criminal grave na política
brasileira neste ano de sangue, ódio e medo. O primeiro teve lugar em 14
de março no centro do Rio de Janeiro e nele foram vitimados a vereadora
do PSOL Marielle Franco e o motorista, Anderson Gomes, executados a
balaços de um fuzil automático usado por atiradores até agora não
identificados, que passavam num carro ao lado do ocupado pelos baleados.
Em 27 de março, 13 dias depois, um atirador até agora não identificado
pela autoridade policial – Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia
Civil do Paraná ou Polícia Federal (PF) – alvejou com um revólver um
ônibus da caravana que seguia o pretendente à Presidência da República
Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). E Jair
Bolsonaro, deputado federal pelo Partido Social Liberal (PSL) disputando
idêntico posto, foi esfaqueado, sobreviveu e está internado em estado
gravena Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Albert Einstein,
em São Paulo, depois de ter sido submetido a uma laraparoscopia na Santa
Casa de Misericórdia na cidade onde foi ferido.
Tudo o que se conhece sobre autorias ou motivação dos três crimes, todos
graves, embora cada um com sua natureza específica, é o que tem sido
dito em evidentes platitudes ou em desinformação declarada, de forma
leviana e sem base em nada de concreto, pelo ministro extra extra
ordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann. Nada do que foi
“informado” pela autoridade máxima responsável pela “insegurança”
nacional serve para uma nota de pé de página num compêndio de História
do Brasil. Ele revelou detalhes vagos sobre suspeitas dos assassinos até
hoje desconhecidos do massacre no Rio. Considerou “inaceitável” o tiro
que acertou a lataria do ônibus de devotos de Lula e não feriu ninguém.
Agora, enquanto seus subordinados da PF ainda investigavam a
participação de eventuais cúmplices do agressor do candidato que
concorre de verdade em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto e
também em rejeição, o chamou de “lobo solitário”. Como rezava o
samba-canção, “e daí, e daí?”.
Da execução do Rio, do tiro disparado na estrada entre Quedas do Iguaçu e
Laranjeiras do Sul, no Paraná, e da punhalada na democracia no interior
de Minas, por enquanto, o público interessado só conhece o que a
incompetência proverbial das Polícias Civis e Federal em matéria de
investigação de crimes contra a vida autoriza: a autoria desconhecida
nos dois primeiros casos e questões não respondidas no outro. A execução
de Marielle e Anderson abriu a temporada das conjecturas oportunistas
da guerra política em ano de campanha. A esquerda mendaz preferiu
elegê-la mártir da revolução, em vez de mobilizar sua artilharia contra a
incompetência das polícias do Rio e da intervenção militar na Segurança
do Estado, todos incapazes de resolver um crime cujos autores deixaram
óbvios vestígios. A direita infame preferiu satanizar a vítima, como se
ela tivesse disparado os projéteis, e não sido o alvo deles. E recorreu a
crimes similares contra cidadãos anônimos, como se uns justificassem o
outro, critério estúpido, desumano e inócuo. Enquanto Jungmann anunciava
à Nação que milicianos suspeitos estavam sendo investigados e seu
chefe, o presidente Temer, comemorava o êxito da operação incapaz de
resolver um crime de repercussão internacional, os brasileiros com um
mínimo de inteligência e pundonor choravam a própria sorte, entregue a
essa gente incapaz e mentirosa. A viúva de Marielle, Mônica Benício,
contou, pasme, que só neste fim de semana a polícia lhe pediu a senha do
telefone da vítima para investigar suas chamadas. Cinco meses depois do
crime…
Assim como na chacina do Estácio, berço das estripulias dos sambistas de
antanho fugindo de chefes da polícia, o tiro no ônibus da caravana de
Lula continua sem explicação das autoridades policial e judicial que
esclareça mais do que os exames periciais divagando sobre o ângulo
geométrico do cano da arma que disparou ou a solução do enigma da
velocidade com que o ônibus se movia (ou não) quando foi alvejado.
Jungmann decretou-o “inaceitável”. Mas até agora a evidência que salta
do episódio, que pelo menos não deixou vítimas, é que a chefia dos
policiais encarregados da investigação, passando pelo autor do truísmo,
“aceita”, sem exigir explicação nenhuma, a inépcia de seus subordinados.
Enquanto isso, os ditos “pescadores em águas turvas” põem a imaginação
para funcionar apontando para os inimigos que teriam atirado, no mínimo,
para assustar os peregrinos do lulismo. Ou para devotos do padim,
que teriam atirado para adicionar cheiro de pólvora à teoria da
perseguição imaginária com que vendem a militantes crédulos do Brasil e
do mundo a fancaria hagiológica de que, além de carismático, seu líder é
mártir dos exploradores de sempre, só por ser bom para pobres e
desvalidos.
A vítima da tentativa de assassinato em Juiz de Fora correu risco de
morte, está viva, grave, em estado grave, mas bem na UTI em São Paulo.
Em princípio, ele foi beneficiado pela multiplicação automática de horas
em copiosa cobertura no noticiário da campanha. Sua cota no horário no
rádio e na televisão é de 9 segundos e ele passou a ocupar o noticiário
(e não os comerciais) em minutos que superam muito os dos campeões do
PSDB e do PT. Mesmo quando tiver saído do hospital e continuado a
campanha, a audiência da grade da programação e a leitura das páginas
nobres dos meios da comunicação produzirão em seu favor mais efeitos do
que a soma do tempo no horário da propaganda de todos os seus
adversários. Se prevalecer a experiência de que a comiseração é um
elemento forte de simpatia e até apoio na política, é provável que o
atentado possa beneficiá-lo na disputa. A retirada da propaganda
agressiva do campeão do tempo e das iniciativas estúpidas, Geraldo
Alckmin, do PSDB, já poderá favorecê-lo duplamente: por ter sido
insultado na propaganda do adversário, ao mesmo tempo que era ferido de
morte por um inimigo ideológico, teve reduzida sua altíssima rejeição.
A PF teria muito a explicar ao chefe Jungmann, se este estivesse
interessado em explicações. A facada é uma imperdoável falha de
segurança. A oportunidade para se redimir dela será dada por uma
investigação completa, isenta e transparente do crime. Há dúvidas que
estão aí para ser dirimidas. Quem pagou as aulas de Adélio numa academia
de tiro onde praticavam os filhos da vítima, na distante Santa
Catarina? Que generoso cliente paga a um quarteto de advogados grã-finos
para defender a tese oportuna de que ele é doido, agiu sozinho e
obedeceu a uma ordem divina? Por que o advogado mentiu de forma tão
abjeta quando lhe atribuiu o desejo de ferir, mas não matar, com uma
facada no abdômen?
Não dá para imaginar que Bolsonaro tenha ficado feliz com a exposição na
mídia depois de ter corrido o risco que correu. Mas o que menos
interessa agora são eventuais vantagens do candidato ferido. O Estado de
Direito no Brasil depende de informações precisas, isentas e lógicas da
autoridade policial que investiga o caso. O resto é lana caprina. Ao
contrário do que faz crer a nota venenosa do PT contra a entrevista do
comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, ao Estado,
este tem razão e fala a verdade. Os riscos para a sobrevivência e a
higidez de nossa democracia aumentarão se nada for esclarecido tintim
por tintim. E isso vale para os três atentados deste ano: a execução de
Marielle e Anderson, o tiro no ônibus da caravana de Lula e a facada em
Bolsonaro.
- Jornalista, poeta e escritor
O Estado de São Paulo
extraídaderota2014blogspot





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