por Carlos Alberto Di Franco O Globo
Depois de várias semanas de tensão, discussões pouco edificantes
transmitidas ao vivo e declarações impróprias de alguns dos seus
integrantes, o Supremo Tribunal Federal (STF) fez o que se esperava:
confirmou que ninguém está acima da lei e que o combate à corrupção não
admite acordões. A decisão do plenário não poderia ter sido outra. Caso
contrário, a Corte assinaria um atestado de leniência com o crime e
estaria na contramão dos valores éticos de uma sociedade cansada e
decepcionada. Geraria instabilidade, acirraria o clima de radicalização,
abriria de par em par as portas da impunidade para os criminosos do
colarinho branco e pavimentaria uma avenida para os aventureiros que
transitam nas sombras da desesperança. Além disso, o STF confrontaria o
próprio Judiciário.
Lula foi condenado a nove anos e meio, num primeiro julgamento, pelo
juiz Sergio Moro. Foi uma sentença de 218 páginas. Foram ouvidas 91
testemunhas, das quais 73 apresentadas pela defesa. Tudo dentro da lei e
das garantias devidas ao réu.
A defesa de Lula apelou da sentença para TRF-4, de Porto Alegre. Ali foi
julgado em 24 de janeiro deste ano por três desembargadores, condenado
por 3 a 0, e sua pena foi aumentada para 12 anos. Recorreu em seguida
para a instância superior, o STJ de Brasília, onde seu pedido foi
julgado por cinco ministros. Outra derrota, agora por 5 a 0.
Voltou, enfim, ao mesmo TFR-4. Perdeu mais uma. Resumo da ópera: três
instâncias e nove juízes se manifestaram num mesmo sentido em relação a
Lula. Escrevo este artigo antes da prisão do ex-presidente decreta pelo
juiz Sergio Moro.
Dizer que seria preciso respeitar a “presunção de inocência” até “prova
em contrário”, como frisaram alguns ministros, é fazer piada com a
inteligência dos brasileiros. Feita a prova, o réu deixa de ser
inocente. Passa a ser culpado. No caso de Lula, a prova foi feita quando
a segunda instância decidiu que sua condenação estava fundamentada em
fatos.
Venceu o bom senso. Agora, precisamos virar a página e olhar
estrategicamente para o futuro. Podemos e devemos mudar o quadro. Como?
Votando bem, com voto comprometido. Teremos eleições gerais. Executivo e
Legislativo serão renovados. Você, leitor e eleitor, não pode encarar a
próxima eleição como ordinária administração. Não é.
Pode ser transformadora. O seu candidato, ao Executivo e ao Legislativo,
deve estar claramente comprometido com reformas constitucionais que
sejam capazes de devolver o Brasil aos brasileiros. Prisão após
condenação em segunda instância é medida indispensável na luta contra a
impunidade. Seu candidato deve estar comprometido com projeto de reforma
constitucional que faça da medida saneadora princípio intocável.
Reforma da Previdência. Reforma tributária. Revisão do tamanho do Estado e do seu papel.
Chegou a hora de a sociedade civil mostrar a sua cara e a sua força. É
preciso, finalmente, cobrar a reforma política. Todos sabem disso. Há
décadas. O atual modelo de governança, a perversa fórmula da coalizão, é
a principal causa da corrupção. O Brasil pode sair deste pântano para
um patamar civilizado. Mas para que isso aconteça com a urgência que se
impõe, é preciso votar bem.
Carlos Alberto Di Franco é jornalista
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