Sérgio Roxo, O Globo
O primeiro tema que terá que ser resolvido é o tom a ser adotado em
relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Uma ala, que tem como
expoentes a presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), e o senador
Lindbergh Farias (RJ), é favorável a elevar os ataques para que sejam
colocadas em julgamento as Ações Declaratórias de Constitucionalidade
(ADCs) sobre o cumprimento de pena dos réus condenados em segunda
instância. Se o entendimento de 2016 for revisto em algum momento pelo
Supremo, Lula poderia ser solto.
Outro grupo, em que estão parlamentares como o senador Jorge Vianna (AC)
e o deputado Vicente Cândido (SP), aponta que a postura de ataques à
Corte trará ainda mais prejuízos para Lula. Ministros do STF têm
afirmado que julgam casos conforme o seu entendimento e que não serão
influenciados por manifestações políticas.
PLANO B EM DEBATE
Ao discursar no acampamento montado pelos Movimento dos Sem Terra (MST)
ao lado do prédio da PF, onde Lula está preso, ontem, Gleisi deu mostras
da sua posição ao se dirigir à ministra Rosa Weber. Em 2016, Rosa foi
voto vencido ao se posicionar a favor de esperar o fim dos recursos para
iniciar o cumprimento da pena, mas desde então tem seguido o
entendimento da maioria do Supremo e votado a favor da prisão após a
decisão da segunda instância. No julgamento do habeas corpus de Lula,
quarta-feira, ela negou o pedido do ex-presidente:
— Espero que o STF cumpra o seu papel, a ministra Rosa Weber cumpra com a
palavra e o STF bote pra votar a questão da decisão da condenação em
segunda instância — disse a senadora. A esperança do PT é que, na
análise do caso teórico, o Supremo reveja sua posição, com um voto de
Rosa, e Lula possa ser solto. A ministra, no entanto, já deu mostras de
estar incomodada com a mudança constante de posição da Corte, o que
causaria insegurança jurídica e prejudicaria a imagem da Justiça. Seu
voto, em um eventual reexame da questão no STF, é tido como incerto.
A questão de como o PT se portará na eleição presidencial também gera
discordância. O governador da Bahia, Rui Costa, e o presidente do PT do
Rio, Washington Quaquá, já defenderam que o partido discuta um
substituto para Lula. Gleisi, porém, mantém o discurso de que o
candidato será o ex-presidente, mesmo preso em Curitiba.
Desde que deixou a Presidência da República, em 2011, Lula exerce uma
influência direta nas discussões internas do PT. Essa participação
aumentou ainda mais, a partir da metade do ano passado, quando Gleisi
assumiu a presidência do partido.
A ideia do próprio Lula é manter interlocução com lideranças do partido
durante as visitas na cadeia. Há dúvidas, porém, sobre como e a partir
de quando as visitas serão permitidas. Um dos nomes escalados para fazer
essa interlocução com o mundo político é o ex-prefeito de São Paulo
Fernando Haddad, que pretende ir a Curitiba uma vez por semana.
Haddad se consolidou nos últimos dias como plano B do PT para a disputa
presidencial deste ano, apesar de ainda enfrentar resistência em setores
do partido. O ex-prefeito foi um dos aliados mais presentes ao lado de
Lula nos dois dias em que o ex-presidente se entrincheirou no Sindicato
dos Metalúrgicos do ABC. Já o ex-ministro Jaques Wagner, que também era
cotado para substituir Lula, submergiu desde que foi alvo, no final de
fevereiro, de uma operação da Polícia Federal sobre irregularidades nas
obras do Estádio da Fonte Nova. Wagner fez uma visita rápida e discreta a
Lula no sindicato e não chegou nem a subir no carro de som onde o líder
petista fez o seu último discurso antes de se entregar à Polícia
Federal. O ex-governador da Bahia deve disputar o Senado este ano.
Haddad esteve no Sindicato dos Metalúrgicos ao lado de seu padrinho
político, mas foi tratado de uma forma mais discreta do que os dois
pré-candidatos a presidente presentes: Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela
d´Ávila (PCdoB), que foram muito elogiados pelo líder petista:
— Aquilo foi um gesto de agradecimento ao fato de dois candidatos terem
ido lá prestar solidariedade. Não tinham obrigação nenhuma de ir. O
Boulos ainda foi muito importante na mobilização do MTST (Movimento dos
Trabalhadores Sem Teto) nos últimos dias. Nada mais do que isso —
afirmou um dirigente petista.
A fala do ex-presidente também tinha o objetivo de tentar plantar
sementes para uma união do PT com os dois partidos de esquerda. Mesmo
que a chance de aliança no primeiro turno seja remota, fica aberta a
porta para um acordo no segundo turno e também para uma aliança em torno
de sua defesa diante dos processos da Lava-Jato.
De acordo com aliados, Lula também avaliou que qualquer fala mais
entusiasmada em favor de Haddad ganharia as manchetes como uma indicação
de passagem de bastão, o que não era considerado estratégico pelo
ex-presidente no momento.
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