por Demétrio Magnoli Folha de São Paulo
"A violência praticada contra o ex-presidente Lula é uma agressão ao
Estado de Direito que atinge toda sociedade brasileira. A ação da
chamada força-tarefa da Lava Jato é arbitrária, ilegal, e
injustificável, além de constituir grave afronta ao Supremo Tribunal
Federal." A nota do Instituto Lula acusa o juiz Sergio Moro, os
procuradores e policiais federais de promoverem uma conspiração
política. Uma nota divulgada pelo PT denuncia a suposta implantação de
um "regime de exceção" pela força-tarefa da Lava Jato. A alegação é um
escárnio, pois cada uma das iniciativas judiciais e policiais submete-se
ao controle das instâncias superiores do Judiciário. Mas, de fato, num
sinal agourento, o timing da condução coercitiva de Lula foi ditado pela
política.
Aqui, inexistem coincidências. A Operação Aletheia eclodiu na sequência
da troca de guarda no Ministério da Justiça. Dilma Rousseff é
responsável pela politização da polícia: segundo o próprio ex-ministro
José Eduardo Cardozo, sua demissão derivou de pressões oriundas do PT
pelo "controle da Polícia Federal", eufemismo para a interferência do
Executivo nas investigações da Lava Jato. Cedendo às pressões e nomeando
o indicado por Jaques Wagner, um "soldado de Lula", a presidente
anunciou um confronto institucional. No fundo, passou a agir em
obediência à providencial tese lulista do "regime de exceção".
"Isso não é justiça, é uma violência", declarou o ministro Miguel
Rossetto, acrescentando que a Aletheia "é um claro ataque ao que Lula
representa, como liderança política e social". Rossetto emitiu a nota
oficial adiantando-se a qualquer pronunciamento da presidente, com a
finalidade de oferecer uma resposta à militância petista ou de
precipitar um protesto formal do governo. Mas ele não é um Rui Falcão,
pois está subordinado a Dilma. Sua permanência no cargo, após a nota,
tem significado inequívoco: na vez de Lula, o Planalto insurge-se
abertamente contra a Lava Jato.
"É um exagero", reagiu o ministro Edinho Silva. Dilma, "inconformada",
concluiu o raciocínio classificando como "desnecessária" a condução
coercitiva de Lula. A crítica pública do Planalto a uma decisão judicial
abre perigoso precedente: se vale no caso de Lula, valerá nos de João,
Maria, José ou um tal de Cunha, o que nos conduziria até a ruptura do
princípio da separação de poderes. Sob o lulopetismo, politizou-se a
economia, a Petrobras, a identificação de quilombos, a demarcação de
terras indígenas, o currículo escolar e até o Aedes egypti. A introdução
da política no âmbito do sistema de justiça, esse passo nascido do
desespero, assinala o outono de um projeto de poder.
De qualquer modo, o argumento da "desnecessidade" merece exame. Há um
mês, quando o Ministério Público de São Paulo intimou Lula a prestar
esclarecimentos, os "movimentos sociais" petistas convocaram uma
manifestação diante do Fórum Criminal da Barra Funda, no horário do
depoimento. O cerco de um fórum pela militância partidária configura
tentativa de intimidação de policiais, procuradores e juízes.
Decidindo-se pela condução coercitiva sem aviso prévio, Moro jogou
segundo as regras políticas impostas pelo PT –e acabou derrapando no
barro da arbitrariedade.
O Brasil não é a Venezuela. Por aqui, o "Estado de Direito" é definido
pelo Judiciário, não pelo Instituto Lula, o PT ou mesmo o Planalto. A
Aletheia sustenta-se sobre uma representação do Ministério Público
Federal que aponta indícios de prova contra o ex-presidente. O fogo de
artilharia disparado por Lula e pelos seus na direção da "imprensa
golpista" pretende o que já não é possível:
iludir um país inteiro. Se Lula crê que seus direitos constitucionais
foram violados, resta-lhe procurar amparo nos tribunais superiores. Ou,
como José Dirceu, erguer o braço e fechar o punho em desafio à
democracia.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário