por José Casado O Globo
Uma certeza prevalece sobre a torrente de dúvidas lançada nas últimas 48 horas na cena brasileira: como está, não vai ficar.
Dissipam-se as possibilidades de Dilma Rousseff se manter ilesa até o
fim do mandato. O depoimento do ex-líder do governo no Senado Delcídio
Amaral (PT-MS) expôs a presidente a novas e múltiplas iniciativas
jurídicas por crime de responsabilidade.
A consequência imediata, previsível, é uma decisão mais rápida do
Supremo Tribunal Federal na liberação do rito do processo de impeachment
na Câmara dos Deputados.
Dilma tem pela frente, além da ação para impedimento, um processo de
cassação do mandato no Tribunal Superior Eleitoral. A previsão dos
juízes é que o desfecho ocorra, no máximo, até setembro.
A corrosão do governo ocorre sob as piores condições. Perdeu a base e a
principal frente oposicionista se consolida dentro do próprio partido,
capitaneada por Lula, que há tempos deixou-se seduzir pelo jogo simulado
de conduzir a própria oposição, e governar na divisão. São de Lula as
digitais na derrubada dos ministros da Fazenda (Guido Mantega e Joaquim
Levy) e da Justiça (José Eduardo Cardozo).
Com o seu aval, também, o PT atravessou os últimos 14 meses sabotando
todas as iniciativas do governo Dilma na economia, cujas dificuldades
estruturais mais evidentes são herança da era Lula, agravadas pela
soberba da presidente na condução da político-econômica. Resultou em
recordes como o declínio de 14% nos investimentos em 2015 — o mais
significativo em um quarto de século, desde o impeachment de Collor.
Astuto, Lula viu ontem uma chance na ordem assinada pelo juiz Sérgio
Moro na última segunda-feira, 29, recheada de cautelas: “NÃO deve ser
utilizada algema e NÃO deve, em hipótese alguma, ser filmado... O
mandado SÓ DEVE SER UTILIZADO E CUMPRIDO, caso o ex-Presidente,
convidado a acompanhar a autoridade policial para depoimento, recuse-se a
fazê-lo”.
O ex-presidente anunciou que vai viajar pelo país fazendo aquilo que
mais gosta: subir em palanques para demonstrar a certeza granítica de
que todo o mal deve ser atribuído aos outros.
Dilma, ao contrário, mostrou-se nervosa. Em reuniões, xingava seu
ex-líder no Senado. Nem teve o privilégio da primazia: em abril de 2006,
no governo Lula, o então deputado Jorge Bittar (PT-RJ) chamou-o de
“Judas”, no mais suave dos impropérios. A CPI dos Correios terminava com
um acordo de Delcídio com o presidente: o relatório final isentava Lula
e omitia o nome de um de seus filhos, Fábio.
Quando inconformados, como Bittar, Aloizio Mercadante e José Eduardo
Cardozo, ameaçaram expulsá-lo do PT, ele anunciou um livro: “Registrei
tudo, com parlamentares, executivos, empresários e pessoas do governo”,
repetia pelos corredores do Senado.
Se livro e gravações existem, não se sabe, mas desde então Delcídio
ascendeu no partido, com o apoio de Lula e Dilma. As poucas páginas já
divulgadas da sua delação contêm detalhes suficientes para sugerir que o
senador andou espanando a poeira dos arquivos.
extraídaderota2014blogspot





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