Editorial do Estado de São Paulo que recebi via e-mail e que transmito na integra
- Lá vêm os bolivarianos
Aberta a porteira do Mercosul aos bolivarianos, com o ingresso da Venezuela, agora é a vez de Equador e Bolívia negociarem sua entrada plena no bloco que é cada vez mais ideológico e menos econômico. O timing do processo é perfeito: primeiro, como se sabe, Brasil e Argentina urdiram o isolamento do Paraguai, último obstáculo à adesão da Venezuela, e atropelaram as normas do Mercosul para receber Hugo Chávez de braços abertos, com direito a uma lépida subida do autocrata venezuelano na rampa do Planalto; ato contínuo, os outros dois mais importantes governos chavistas da América Latina iniciam tratativas para engrossar o Mercosul.
Como diz o diplomata José Botafogo Gonçalves em artigo no
Estado (2/8), trata-se de um "novo Mercosul", isto é, não se pode
mais falar de uma zona de livre comércio e de união aduaneira, que está no
espírito da fundação do bloco, mas, sim, de "um novo clube com objetivos
políticos e econômicos que não valoriza o mercado, a livre circulação de
mercadorias e serviços, a internacionalização das economias e a
competitividade".
Como a comprovar essa tendência, a Bolívia, seguindo a
cartilha chavista de estatizar até o ar que se respira, nacionalizou nos
últimos dois meses duas minas de prata e estanho exploradas por empresas estrangeiras,
depois que grupos indígenas pressionaram o presidente Evo Morales. Segundo o
governo, os investidores afetados serão indenizados de acordo com uma avaliação
"independente", eufemismo para empurrar-lhes o prejuízo. O padrão de
Morales não é novidade - basta lembrar a estrepitosa invasão de refinarias da
Petrobrás em 2006 e a consequente indenização por valor inferior ao investido
pela empresa brasileira. Essa constante ameaça ao investimento externo e aos
contratos desautoriza mesmo os mais ingênuos entusiastas do "novo
Mercosul" a supor que a Bolívia irá submeter-se alegremente aos princípios
de livre mercado.
O mesmo acontece com o Equador, embora este país seja
diferente de Venezuela e Bolívia por um importante aspecto: o país vai bem. Os
venezuelanos enfrentam a maior inflação da América Latina, que ronda os 25%
anuais, apesar do contínuo controle de preços exercido pelo governo - cuja
política brucutu tem desidratado sistematicamente a produção interna. O PIB
venezuelano depende cada vez mais, portanto, da vontade de Chávez de investir o
dinheiro estatal. A Bolívia, por sua vez, segue sendo um dos países mais pobres
do continente, e o desestímulo de Morales ao investimento externo, por conta
das seguidas intervenções estatais, não prenuncia futuro melhor.
Já o Equador cresceu 8% em 2011 e tem uma das menores
taxas de desemprego da região, por volta de 5%. Pode-se dizer que, ao menos por
ora, o "capitalismo de Estado" está funcionando por lá, e o país tem
reservas de gás e petróleo que interessam ao Mercosul. No entanto, seguindo o
figurino chavista, o presidente Rafael Correa não gosta de jornalistas e de
opositores, contrariando frontalmente as cláusulas democráticas do Mercosul -
aquelas que foram invocadas para suspender o Paraguai.
Na última manifestação da truculência de Correa,
autoridades do Estado apreenderam os computadores da revista Vanguardia, que é
crítica ao presidente e noticiou vários casos de corrupção no governo. O motivo
da ação oficial é de um cinismo exemplar: o Ministério do Trabalho local alega
que a revista foi punida porque não cumpre a cota de funcionários com
deficiência. O diretor da publicação, Juan Carlos Calderón, já havia sido
condenado em fevereiro a pagar US$ 1 milhão de indenização a Correa por ter
publicado um livro em que denunciava um caso de corrupção envolvendo um irmão
do presidente. Mais tarde, o magnânimo Correa "perdoou" a dívida do
jornalista.
No entanto, nada disso importa mais, porque os valores da
democracia e do livre mercado já não fazem mais parte do Mercosul. Com seu novo
DNA, e em nome da expansão de oportunidades para as indústrias brasileiras e
argentinas, o bloco mandou às favas os escrúpulos, instrumentalizando-se cada
vez mais como contraponto bolivariano ao "império" americano.




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