por Artur Xexéo O Globo
Através da porta de madeira e do vidro da sala onde ficava a turma do
quarto ano primário do Mallet Soares, pude ver o rosto da Lecy. Que fim
levaram as mulheres que se chamavam Lecy? Esta Lecy era a empregada lá
de casa. Eu sei que não se fala mais assim. Não são mais empregadas.
Também não sei como se chamam. Até porque não há mais empregadas como as
daqueles tempos, que dormiam num quartinho nos fundos do apartamento,
que já estavam de pé quando a gente acordava para nos servir o café da
manhã, que só iam dormir depois de servir o jantar. Quase escravas. Não
existem mais.
Mas esta é uma coluna de época. Falo como se falava na época em que eu
estava no quarto ano primário. E o rosto da Lecy apareceu na porta.
Imaginei que algo errado tinha acontecido. Ainda faltavam duas horas
para as aulas acabarem. Eu costumava ir sozinho para casa, que ficava a
dois quarteirões do colégio. O que é que a Lecy estava fazendo ali?
Dona Lúcia — só podia ser a dona Lúcia, já que ela era a minha
professora — recebeu um bilhete de Lecy, me chamou e me dispensou do
resto das aulas. O bilhete era da minha mãe, solicitando que eu fosse
liberado mais cedo. Já na rua, perguntei para Lecy o que estava
acontecendo. Ela foi sucinta: “O Jânio renunciou!”. Para mim, até aquele
momento, o Jânio era um presidente identificado com uma vassoura e que,
no poder, tinha proibido o uso de biquínis nos concursos de miss, o uso
de lança-perfume nos bailes de carnaval e as brigas de galo em qualquer
lugar do país. Eu sabia muito bem o que significava renunciar.
Alguns meses antes, Stael Abelha tinha renunciado ao título de Miss
Brasil. Jânio, como a miss, desistia da faixa, do cetro e da coroa. Para
a minha mãe, isso era um perigo. O povo iria para as ruas. Se a
situação era tão grave e perigosa, por que a minha mãe não foi me buscar
no colégio em vez de mandar a Lecy? Nunca entendi. Mas fomos para casa,
eu e Lecy, nos esgueirando pelas esquinas, atentos a qualquer
movimento, certos de que, a qualquer momento, um tanque de guerra
interromperia nosso caminho. Não aconteceu nada. Cheguei são e salvo.
Na deposição de Jango, tudo foi mais complicado. A Dinda, uma tia
querida, era secretária particular da primeira-dama, Maria Tereza
Goulart. De alguma maneira, eu considerava que o golpe militar tinha
sido contra a minha tia. Ao mesmo tempo, meu pai era oficial do
Exército. Ele exercia uma função burocrática, não tinha nada a ver com o
golpe. Mas, de alguma maneira, eu achava que o golpe tinha surgido lá
em casa. Na escola, eu brigava com todo mundo. Se alguém falasse mal do
Jango, eu me sentia ofendido, por causa da Dinda. Se alguém falasse mal
dos militares, eu me sentia ofendido, por causa do meu pai.
E a minha mãe? Bem, minha mãe passava as tardes em casa ouvindo pelo
rádio a “Cadeia da legalidade” e escrevendo cartas para o jornal, cartas
que ela nunca enviava. Nelas, desancava os militares. Coitado do meu
pai!
Quando Collor renunciou, eu já era adulto e jornalista. Lembro-me de um
chefe caminhando preocupado pela redação e repetindo: “Temos que
preservar as instituições”.
Nunca entendi direito o que isso queria dizer. Deveríamos evitar as
notícias? Mas a maioria da chefia apoiava o “Fora, Collor!” E as
notícias saíam com destaque. Minha mãe? Ela dizia que o Exército estava
revoltado, que os militares estavam se organizando e que um novo golpe
aconteceria. Nunca tive certeza se ela achava isso bom ou ruim.
Na sexta-feira acordei com as mesmas sensações que tive quando Jânio,
Jango e Collor caíram. Criança, pré-adolescente, adulto... o que sentia
não era diferente do que vinha agora na terceira idade. Desta vez, não
era um presidente ameaçado. Era um ex-presidente. Mas ainda com a força
de quem se mantém no poder. Acordei e Lula estava preso. Bem
tecnicamente não se pode dizer isso. Lula não foi nem detido. Mas, vem
cá, se você é acordado às 6 horas da manhã pela Polícia Federal que te
obriga a ir para uma delegacia para prestar depoimento, isso não é ser
preso? Os vizinhos não vão dizer que você foi preso? Lula preso! Alguém
poderia imaginar isso? Minha mãe já não está por aqui.
Ela não viu a humilhação de Lula e do PT.
Já não tenho mais a estrelinha vermelha que me acompanhou em muitas
eleições, Faz tempo que não canto com entusiasmo o “Lulalá”. Quando vejo
na televisão o próprio Lula, ou Dilma ou o ex-ministro da Justiça
mostrando como tiveram a dignidade ofendida por uma delação premiada ou
por uma condução coercitiva, eu me pergunto: que dignidade?
Não há dignidade no Poder Executivo e não é de hoje. E eu relembro do
medo que se seguiu à renúncia de Jânio, à queda de Jango, ao impeachment
de Collor, penso na prisão de Lula, nas acusações contra Dilma... Uma
vida é pouco para ter um país em paz? Para a minha mãe, foi. Eu ainda
tenho esperança de que um dia vai dar certo.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário