| Marco Antonio Esteves Balbi Com este pomposo título a Globonews deu início na noite de ontem a uma série de programas que, suponho eu, vise retratar o que representou para o Brasil, a reação democrática de 31 de março de 1964 e os 21 anos do regime de exceção que se seguiu ao evento histórico. A previsão é de apresentar o programa Dossiê Globonews todos os sábados do mês, até 29 de março e, a partir de 19 de março, mais outros tantos programas, incluindo um só com mulheres guerrilheiras, terroristas etc. Não sei se a Dilma vai participar deste último. O programa que assisti ontem, apresentado pelo jornalista Geneton Moraes Neto, é uma edição bem feita de várias entrevistas conduzidas por este entrevistador. A mais antiga foi feita em 1991, com o piloto de Jango, e a mais recente feita em 2013, com o Senador Pedro Simon. Com raras exceções, Geneton chega a ser agressivo para com o entrevistado, atropela muita das vezes o mesmo, colocando a resposta que espera do entrevistador. A primeira personagem que apareceu no programa foi o ex-embaixador Lincoln Gordon, requentando a história do apoio dos EUA à reação democrática, apoio financeiro aos políticos de oposição e a famosa disponibilidade da frota americana pronta para intervir, em caso de necessidade. Sobre o assunto valho-me do Embaixador Pio Correa que cita em seu excelente livro de memórias O Mundo em que vivi: "o curioso é que os janguistas, filocomunistas, et caterva, julgavam-se seguros, não só do apoio do Presidente da República, mas também dos Estados Unidos da América. Ao contrário da lenda espalhada pelos vencidos de 31 de março, a Revolução Libertadora não teve o apoio dos Estados Unidos, nem sequer suas simpatias. Muito pelo contrário. Chegando eu ao Rio de Janeiro pouco depois da viagem de João Goulart ao México, recebi um recado do Embaixador Lincoln Gordon, que eu conhecera em Chicago até onde ele acompanhara desde Washington o Presidente brasileiro, pedindo que fosse vê-lo. Fui. O Embaixador norte-americano perguntou-me o que eu pensava da situação política no Brasil. Não lhe ocultei a apreensão que me causava a crescente influência das esquerdas no Governo, e a agitação que promoviam entre as massas populares. Lincoln Gordon, que me ouvia com um sorriso irônico, tirando baforadas do seu inseparável cachimbo, respondeu-me com ar zombeteiro que não partilhava as minhas apreensões, tanto assim que o seu Governo resolvera apoiar no Brasil the Democratic Left. Observei-lhe, irônico por minha vez, que ele estava desde muito pouco tempo no Brasil; ficando um pouco mais tempo, descobriria que no Brasil a esquerda não era democrática, nem os democratas estavam à esquerda. Isso concluiu a nossa palestra, e nunca mais interessou-me encontrar aquele Professor universitário lambuzado das convicções “liberais” no mau sentido da palavra, que era o sentido dos meios universitários americanos, isto é, da tolerância com as idéias inimigas da Democracia liberal autêntica. No que ele, aliás, ele comungava com o bestalhão do seu Presidente." Depois do Lincoln Gordon, não poderia deixar de aparecer o coronel americano Vernon Walters, adido dos EUA no Brasil e com ligações históricas com o Exército Brasileiro, posto que fora oficial de ligação junto à Força Expedicionária Brasileira na Itália, durante a 2ª Guerra Mundial. Ali, tornara-se amigo de Castello Branco, razão pela qual insistem em lhe conceder um protagonismo na reação democrática que o mesmo não teve. Como nada mais havia a perguntar, Geneton arguiu se era verdade que ele mandara celebrar uma missa pela alma do Castello Branco, quando este falecera. Non sense absoluto. O Senador Pedro Simon lista, pela ordem, as forças que se opuseram a Jango e que propiciaram a derrocada do seu governo: a igreja, a imprensa, a classe operária e as Forças Armadas. Depois envereda com um depoimento chato sobre a possível resistência ou não, até chegar ao ponto que fez com que o atual Congresso Nacional anulasse a deposição de Jango ocorrida em 1964. Quem acaba sendo criticado é o Senador Auro de Moura Andrade, que presidia a sessão que declarou vago o cargo de presidente da república e os congressistas que o aprovaram. O depoimento da viúva, Maria Thereza, eu me recuso a comentar. A seguir houve um depoimento do piloto do Jango, que voou no bimotor de propriedade deste último, de Punta del Leste no Uruguai até uma praia no litoral riograndense para resgatar Brizolla, o que efetivamente ocorreu e, segundo ele, Brizolla trajava um uniforme de soldado da Brigada Militar. Assim, fica definitivamente registrado para a história, segundo esta versão, que ele não fugiu vestido de mulher. O depoimento de Flávio Tavares foi bem interessante. Reunia-se periodicamente com Brizolla, Neiva Moreira e outros, na praia do Uruguai na qual estavam homiziados. Recebeu a missão de preparar um campo de pouso nas proximidades de Brasília, de pelo menos 600 metros de extensão, onde pousaria um DC3 vindo da Guiana com um carregamento de armas que seriam utilizadas pelos especialistas treinados em Cuba que já estavam se infiltrando no Brasil. O campo foi aberto, mas, segundo ele, o avião jamais pousou no mesmo. Por outro lado, Brizolla e Neiva Moreira, este chefe do estado-maior da luta armada, discutiam sempre quais as pessoas no Brasil iriam para o "paredon" tão logo o movimento obtivesse êxito. Brizolla dizia que preservaria a vida de Mem de Sá, gaúcho, ministro da Justiça do governo Castello Branco, enquanto Neiva Moreira não livraria ninguém. O depoimento de Amilcar Baiardi também foi muito interessante. Ele nomeia os dois assassinos, que jamais foram julgados pelo crime que cometeram, ao matar o major alemão, aluno do Curso de Estado-Maior no Brasil, equivocadamente, posto que pretendiam matar o oficial aluno boliviano, que teria participado da operação em seu país, que redundou na morte de Guevara. Seria uma vingança. Incompetentes. Mataram o oficial errado. Após incorrer na mesmice, ao declarar que os dois assassinos foram mortos pela repressão, provavelmente não foi por bom comportamento, Amilcar encerra o programa com uma fase lapidar: a luta armada só retardou a volta do país à normalidade! Jarbas Passarinho, mesmo nos seus 90 anos, o depoimento dele foi dado em 2010, pressionado em suas posições, manteve-as todas, com dignidade e, de maneira inteligente, utilizou-se da posição do esquerdista Jacob Gorender para definir o "golpe preventivo"! Enfim, estes são os aspectos principais. Segue o link do programa para quem quiser assistir. http://globotv.globo.com/globo-news/globo-news-dossie/t/todos-os-videos/v/veja-depoimentos-sobre-os-bastidores-do-golpe-de-64/3200363/ Para finalizar só lamento que dentre as diversas atividades programadas para lembrar os 50 anos da reação democrática de 1964, pelos mais diferentes segmentos da sociedade não haja nenhuma protagonizada pelas Forças Armadas, o Exército em particular. |





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