DEMÉTRIO MAGNOLI
FOLHA DE SP -
O 'povo valente' de Maduro não são os venezuelanos, mas apenas os chavistas. O ministro-fantasma ouviu
Temos dois ministros das
Relações Exteriores. O ministro oficial, Luiz Alberto Figueiredo, não
tem jurisdição na América do Sul, esfera de operação do
ministro-fantasma, Marco Aurélio Garcia, que opera como plenipotenciário
do presidente fantasma, Lula da Silva. Garcia assistiu, na Venezuela,
às cerimônias governamentais que marcaram o primeiro aniversário da
morte de Hugo Chávez. Ele viu, mas não falará.
Ele viu o desfile no
Paseo de Los Próceres, a esplanada de Caracas delimitada por postes de
iluminação situada no perímetro do Forte Tiuna e adornada por objetos
esculturais de inspiração helenística que se abre para o monumento aos
heróis da independência. Não foi exatamente um evento em memória ao
caudilho "bolivariano", mas uma exibição do equipamento militar
importado da Rússia e da China: caças Sukhoi, mísseis terra-ar,
blindados T72. Nos discursos, entremeados por torrentes de palavras de
ordem, Chávez foi mencionado como "comandante eterno", "nosso pai" e
"líder supremo", enquanto a Venezuela ganhou a qualificação de "pátria
socialista, revolucionária e majoritariamente chavista".
A nação, Garcia viu, é
um movimento, um partido, um ponto de vista político, uma ideologia.
Isso, porém, não passa de déjà vu. O novo é outra coisa, que Garcia
também viu. O presidente Nicolás Maduro alertou que "somos um povo
valente na defesa de nossos direitos" e --mensagem direta!-- insistiu em
esclarecer o sentido de conjunto da performance em curso. Maduro disse
que as tropas equipadas, as milícias armadas e os franco-atiradores
treinados cumprem uma função política: estão ali para enfrentar "quem
ouse se contrapor ao projeto cívico-militar". O "povo valente" de Maduro
não são os venezuelanos, mas apenas os chavistas. Garcia viu e ouviu.
O conceito de "inimigo
interno" tem história na América do Sul. À sua sombra, deflagraram-se os
golpes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Em
nome do combate ao "inimigo interno", a Junta Militar promulgou o AI-5
e, entre tantos outros, Dilma Rousseff foi presa e torturada. A
linguagem da "revolução bolivariana", expressa tanto em discursos
oficiais como nos palanques dos comícios, estrutura-se em torno do mesmo
conceito que sustentou as "ditaduras de segurança nacional". Garcia
permaneceu calado. O governo brasileiro afunda-se na cumplicidade com um
regime que, imitando Cuba, qualifica a divergência política como
traição à pátria.
A Venezuela não é, ainda, uma ditadura: ditaduras não promovem eleições em cenários





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