Petista reclama com Alberto Youssef que 'consultores' não estavam recebendo. 'Calma, vai ser pago. Falei para você que iria cuidar disso', responde doleiro.
Exemplo de entrosamento e cumplicidade, a parceria nascida da amizade
de vinte anos entre o vice-presidente da Câmara, André Vargas, e o
doleiro paranaense Alberto Youssef era marcada por muitos momentos
felizes. Como revela reportagem de VEJA desta semana, para além das
viagens de jatinho nas férias, a dupla tinha planos bem ambiciosos. O
deputado petista e o doleiro trabalhavam para enriquecer juntos e
conquistar a 'independência financeira' a partir de contratos
fraudulentos com o governo federal. Mas, como acontece nas relações em
que há muito dinheiro envolvido, desentendimentos e cobranças também
eram comuns. Um novo conjunto de mensagens de celular interceptadas pela
Polícia Federal na Operação Lava Jato mostra que André Vargas não
passava apenas informações do governo ao doleiro. Ele também exercia seu
poder para cobrar compromissos de Youssef.
No dia 19 de setembro de 2013, o vice-presidente da Câmara reclama com o
doleiro por causa da falta de pagamentos a certos 'consultores'. 'Sabe
por que não pagam o Milton?', questiona André Vargas. Yossef tenta
tranquilizar o parceiro: 'Calma, vai ser pago. Falei para você que iria
cuidar disso.' Mas o vice-presidente da Câmara está impaciente.
'Consultores que trabalham com ele há meses e não receberam', diz
Vargas. 'Deixa que já vai receber', garante Youssef. O hábito da dupla
de trocar mensagens de celular cifradas não permite que seja
identificada a origem desses 'consultores' defendidos por Vargas. Mas a
conversa é mais um poderoso indício colhido pela Polícia Federal para
reforçar a existência de uma sociedade secreta entre o doleiro e
vice-presidente da Câmara.
Segundo VEJA revelou na semana passada, a PF já descobriu que Vargas
usava sua influência no governo em benefício do parceiro. Nas primeiras
mensagens obtidas pela polícia, Vargas e Youssef tratavam de interesses
do laboratório Labogen Química Fina e Biotecnologia no Ministério da
Saúde. A Labogen é uma das empresas do esquema do doleiro. De acordo com
as investigações da PF, a empresa, que está no nome de um laranja de
Youssef - e é tudo menos um laboratório farmacêutico -, já havia
conseguido fechar uma parceria com o Ministério da Saúde pela qual
poderia receber até 150 milhões de reais em vendas de medicamentos.
Na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo revelou que o deputado
petista voou de férias com a família em um jato particular pago pelo
doleiro. O presente custou 100.000 reais. Por causa dessa revelação,
André Vargas usou a tribuna da Câmara para pedir desculpas aos colegas e
à família. Ele também negou qualquer envolvimento na operação do
Ministério da Saúde, mas foi prontamente desmentido pelo ex-ministro
Alexandre Padilha, que admitiu ter sido procurado por Vargas para tratar
dos interesses do laboratório do doleiro. Diante das novas revelações
feitas por VEJA, os partidos de oposição na Câmara já anunciaram que
irão pedir a abertura de processo contra André Vargas.
'Agora não basta mais discurso, tem que ter um gesto. E esse gesto
principal é de se licenciar do cargo para dar condições plenas de a Mesa
Diretora avaliar com isenção essas denúncias que o colocam em uma
situação muito difícil', afirmou o líder do PPS, deputado Rubens Bueno
(PR), referindo-se ao fato de que Vargas, por ser o vice-presidente da
Câmara, integra a diretoria da Casa. 'É óbvia essa relação promíscua e
que o doleiro é operador de um dinheiro público desviado para o partido e
para o deputado. O André Vargas é de confiança de Dilma e de Lula.
Tomara que ele não siga essa cartilha do PT de dizer que não sabe de
nada e que não cometeu nenhum crime. A primeira atitude que ele tem de
tomar é se afastar da vice-presidência. Depois, renunciar', completa o
vice-líder do PSDB, deputado Nilson Leitão (MT).
Com as novas denúncias contra o petista, a oposição vai ampliar os
argumentos para solicitar que a Câmara o investigue. Embora a
Secretaria-Geral tenha rejeitado o pedido do PSOL para que a
Corregedoria avaliasse o caso do jatinho, o partido planeja incluir as
novas revelações no parecer para insistir no pedido de investigação.
'Quero uma posição definitiva da Mesa. Justamente porque ele é
vice-presidente a diretoria tem de se pronunciar formalmente. É um
constrangimento, neste momento, dizer que não há nada', afirmou o líder
Ivan Valente (PSOL-SP). Em uma segunda investida para que o caso seja
apurado, o DEM e o PSDB vão acionar o Conselho de Ética no início da
próxima semana. 'Nós já tínhamos indicações claras de quebra de decoro
com a viagem no jatinho. Agora, a situação assume uma nova dimensão e a
gravidade das ocorrências vai ser incluída na representação', disse o
líder do PSDB, Antônio Imbassahy (BA). 'As versão foram sendo mudadas no
curso das notícias e o deputado está em uma situação cada vez mais
complicada', continuou o líder do DEM, Mendonça Filho (PE)
Fonte: ROBSON BONIN revista Veja -





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