Por Ana Clara Costa, na VEJA.com:
Se controlar os gastos em sua operação
brasileira parece não ser o forte da Petrobras, fazê-lo em subsidiárias
no exterior é tarefa ainda mais improvável. Exemplo disso é o rombo no
balanço da refinaria de Pasadena nos anos de 2007 e 2008. Os números
nunca foram discriminados no resultado financeiro da estatal, mas foram
obtidos com exclusividade pelo site de VEJA na Justiça do Texas — e
assustam. Em dois anos, as perdas acumuladas chegaram a 300 milhões de
dólares, quase 700 milhões de reais. A conta torna-se ainda mais
espantosa porque se trata de um levantamento parcial. De 2009 para cá,
levando-se conta que a refinaria jamais deu lucro, o saldo negativo pode
ter se ampliado de forma exponencial. Pasadena foi adquirida pela
Petrobras por 1,18 bilhão de dólares após um litígio de dois anos com a
Astra Oil, que terminou em 2011.
Relatório
confidencial da KPMG feito em 2009 apontava que a refinaria acumulava
prejuízos subsequentes e que seu fluxo de caixa dependia essencialmente
dos aportes de seus sócios, Petrobras e Astra Oil. Ainda de acordo com o
documento, a capacidade da empresa de cumprir suas obrigações
financeiras era “historicamente e amplamente” relegada aos
controladores. Diante das baixas expectativas de entradas futuras de
dinheiro, a KPMG afirmou que não esperava que a dependência “fosse
revertida no médio prazo”. O relatório mostra que, em 2007, as perdas
foram de 6,5 milhões de dólares — e avançaram para 289,9 milhões de
dólares no ano seguinte.
Os
salários de funcionários de uma refinaria obsoleta eram parte relevante
dos gastos. No balanço mostrado pela KPMG consta que 12 milhões de
dólares foram usados para pagar funcionários em ambos os anos, sem que
uma gota de gasolina saísse dos tonéis. Contudo, tais despesas se tornam
secundárias se comparadas a supostos bônus que os funcionários da
refinaria receberam sem que ela desse um dólar de lucro. Depoimento do
supervisor tributário de Pasadena, Dong-Joon, ao qual o site de VEJA
teve acesso, dado em 2009, afirmava que o Fisco americano havia
questionado a refinaria pelos bônus de 52 milhões de dólares pagos a
funcionários naquele período. Joon afirmava que os fiscais queriam um
maior detalhamento sobre o pagamento dos prêmios, mas a refinaria
afirmou, em correspondência oficial, que não poderia explicar o que quer
que fosse. Joon também exercia a função de supervisor tributário na
Petrobras América, subsidiária da estatal brasileira.
A gastança
desenfreada foi um dos maiores pontos de discórdia entre a Astra e a
Petrobras na gestão de Pasadena. Executivos da empresa belga já
afirmavam, em troca de e-mails datados de dezembro de 2006, que os
gastos eram o último item da lista de preocupações da estatal. “Como
Alberto (Feilhaber) disse tantas vezes, a Petrobras não tem nenhum
problema em gastar dinheiro”, afirmou o diretor Terry Hammer em mensagem
ao presidente da Astra, Mike Winget, e ao próprio Feilhaber —
ex-funcionário de carreira da Petrobras e então diretor da área de
trading da empresa belga.
A estatal
tinha a intenção de dobrar a capacidade de produção de Pasadena, o que
exigiria investimentos da ordem de 2 bilhões de dólares. Os belgas,
segundo os documentos da Justiça americana, não estavam dispostos a
dividir tal aporte pelo simples fato de não acreditarem no retorno de
seus investimentos após a modernização e ampliação da refinaria. Foi
justamente o ímpeto de dispêndios que impôs uma barreira intransponível
entre a Petrobras e os sócios belgas logo no início da joint venture, e
sepultou qualquer chance de acordo entre ambas.
A
Petrobras não informa o quanto teve de aportar na refinaria deficitária e
tampouco os investimentos feitos no projeto. Contudo, no testemunho de
Mike Winget na Câmara de Arbitragem, o executivo afirmou que a estatal
injetou mais de 200 milhões de dólares na operação de Pasadena, sem
levar em conta os valores relativos à aquisição. Winget reconheceu que, a
partir de dezembro de 2007, quando a situação entre as duas empresas já
estava perto do insustentável, a Petrobras passou a financiar sozinha
Pasadena, sem pedir recursos à Astra.





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