Cida Damasco, O Estado de São Paulo
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O argumento, mais do
que simplório, nunca foi tão invocado como agora. E também nunca pareceu
tão inadequado como agora, para dizer o mínimo. A maioria dos
candidatos à Presidência da República faz malabarismos verbais para
admitir que terá de impor cortes no Orçamento para impedir o colapso das
contas públicas — a expressão fazer um “pente fino” nos gastos está na
boca de praticamente todos eles, mesmo que não combine nem um pouco com
promessas de campanha eleitoral. A equipe econômica de Temer tenta
segurar o aumento do funcionalismo público em 2019 — providência que
traria um alívio de cerca de R$ 11 bilhões para os cofres públicos, no
primeiro ano do novo governo, caso inclua servidores civis e militares,
mas que sacrificaria um contingente razoável de trabalhadores, nem todos
na categoria de “marajás” como se dizia antigamente.
Enquanto isso, lá no Supremo Tribunal Federal (STF), os ministros dão um
jeito de pôr de pé um reajuste de 16,38% nos seus próprios salários,
previsto em um projeto de lei já aprovado na Câmara e atualmente
estacionado no Senado. Com isso, os salários dos ministros podem passar
de R$ 33,7 mil para R$ 39,3 mil, puxando os salários de várias carreiras
jurídicas — que continuam inflados pelos chamados penduricalhos, apesar
da indignação que provocam no conjunto da sociedade.
O caminho para garantir esse aumento foi incluí-lo no projeto de
Orçamento para 2019 a ser enviado ao Congresso até o fim do mês — o que,
segundo o ministro Ricardo Lewandowski, um dos 7 que votaram a favor do
reajuste (contra 4), tem a vantagem adicional de atender às regras da
boa execução orçamentária.
Os defensores do aumento lembram que os salários do setor estão com uma
defasagem de quase 40%, na comparação com a inflação. Também recorrem ao
argumento de que incluir a possibilidade de reajuste no Orçamento não
significa que ele será aplicado — a palavra final é do Congresso. E, por
fim, há a justificativa de que o aumento de salários poderá ser
compensado com o corte de outros gastos, o que é duvidoso.
A tentativa de frear esse reajuste leva em conta principalmente o efeito
cascata, já que os salários dos ministros do Supremo representam o teto
salarial dos servidores. Calcula-se que, se o reajuste for concedido,
terá um impacto superior a R$ 700 milhões no caixa do governo, com base
apenas nas contas do Judiciário. Sem contar o fato de que não faz nenhum
sentido dar passagem ao reajuste para o Judiciário e adiar o aumento
para o restante dos servidores.
Fora isso, o sinal que o Judiciário passa para o conjunto da população é
dos piores. Especialmente porque se trata de uma categoria acomodada no
topo da pirâmide de renda do País, tão marcado pelas desigualdades. A
justificativa da defasagem salarial ignora a realidade do mercado de
trabalho em geral, numa economia ainda fragilizada pelos efeitos da
recessão, onde o risco de desemprego torna secundária a questão de
reposição de perdas e/ou ganhos reais na hora da negociação salarial.
Aliás, não é o único sinal negativo que vem do Judiciário nos últimos
tempos. Só para esclarecer: está nesse caso, por exemplo, a defesa do
indefensável auxílio-moradia para juízes que têm imóveis nas cidades
onde atuam, expediente que vem servindo para engordar a remuneração dos
servidores e burlar o mecanismo do teto salarial. Tudo indica que, no
Judiciário assim como em outros Poderes, a lei em vigor é a da “farinha
pouca, meu pirão primeiro”. Mesmo com o risco de a farinha acabar e não
sobrar pirão para ninguém.
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