por Roberto DaMatta
Só um desvairado pode pretender juntar cerveja, orgasmo e eleição. Mas
se os poetas rimam amor com dor, por que não juntar a cervejinha que
alivia com um processo eleitoral singular e repleto de surpresas como um
orgasmo?
Um processo revelador do nosso viés aristocrático-legal, que iguala no
papel mas produz diferenças imorais entre eleitos e eleitores? Hoje,
sabemos que roubar patologicamente no (e do) governo é a nossa marca
registrada.
A disputa eleitoral livre é análoga ao orgasmo. Em ambos, há competição aberta até o arremate a ser comemorado com cerveja.
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A conjunção fica ainda mais expressiva quando se vive um processo
eleitoral expressivo de uma República sem princípios, como dizia Joaquim
Nabuco, em 1890, no “Jornal do Commercio”. Veja o paradoxo: Lula, o
político mais popular do país, e o que o presidiu por dois mandatos e
fez de Dilma a nossa primeira presidenta; Lula, o que pregava uma
igualdade radical, não resistiu à matriz aristocrática do papel de
presidente e fez o que Nabuco previu: um regime autossuficiente, o qual
reproduz a monarquia, fazendo “reis com o título de presidentes”. A
manipulação do sistema agenciou uma era de corrupção e pobreza. O
político mais amado tornou-se o mais criminalizado e está preso. E o
seus partidários reacionariamente rejeitam o cerne do republicanismo,
asseverando que ele está acima da lei. A cadeia, porém, deflagra outro
contratempo: ela neutraliza as polaridades tradicionais do palco
político, pondo no trono um potente “centrão” — esse primo do
“esquerdão” e do “direitão” —, zonas nas quais a ideologia política é
englobada pela jamais denunciada ética dos relacionamentos. Dos favores e
compadrios que, sem limites, estão em toda parte.
Há nisso tudo uma ironia. O partido do povo enricou-se; o presidente
operário criou uma corte; a promessa de governar com o povo foi
desmascarada: governou-se realizando um leilão do Brasil. No poder, a
esquerda subverteu o bom senso. Enterramos tanto Joaquim Nabuco quanto
Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda e, no lugar deles, surge em
sua malandra pequenez o extremo formalismo que “soluciona” problemas
sociais com leis.
Sem querer, a elite nacional desmascarou a dissimulação e começou a ouvir verdades.
Essas verdades que a “ideologia” (branca, bem paga e acadêmica) sempre escondeu.
Pode vir a ser um orgasmo nacional.
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Se, para muitos, o universo se resume em direita e esquerda, a
transformação da esquerda num dos “donos do poder” mostra o lado formal
da divisão. Se ser de esquerda é estar aberto ao igualitarismo; é lutar
pela igualdade de gêneros e etnias e pela igualdade econômica; ser
contra a república dos banqueiros; demonizar o mercado e pensar que tudo
se resolve com políticas públicas sem engajamento social concreto e
penoso, minha avó é bicicleta...
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Se Tocqueville, estudioso da primeira experiência democrática do
planeta, fosse lido, se veria que esquerda e direita são atravessadas
por um eixo transversal que está no centro da crise brasileira.
Refiro-me à oposição entre universalismo e particularismo, base do
igualitarismo meritocrático e da mobilidade democrática.
O universalismo regula, sem banir, leis particulares (os privilégios). É
justamente a dialética entre o universal e o particular que viabiliza o
igualitarismo como um valor, obrigando o individualismo a se entender
com suas obrigações coletivas.
O axioma da lei para todos aterroriza as elites brasileiras justamente
porque ele é o construtor do cidadão comum. Nos regimes populares, mas
particularistas, uma nomenclatura subsistiu o baronato, e o populismo
disfarça o jogo particularista de compadrios, amizades e parentescos
ladravazes. Onde ainda não se aquilatou o peso do eixo
universalismo/particularismo para a construção da ordem democrática, a
dissimulação é moeda corrente. É ela quem faculta os orgasmos da
corrupção.
O Globo
extraídaderota2014blogspot





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