Marcelo de Paiva Abreu*
O Estado de São Paulo,
Em um
mundo de sonhos, programas eleitorais deveriam refletir as reais intenções dos
candidatos quanto às políticas que implementariam caso fossem eleitos. Na
prática, preocupações com os interesses de curto prazo dos eleitores tendem a
complicar esse quadro. Não é surpreendente que políticos em campanha omitam ou
mesmo deformem a verdade, de olho no impacto eleitoral de suas promessas. Isso
é agravado quando a disputa se refere a um país que enfrenta situação crítica.
No Brasil
de 2014 observa-se um caso extremo dessa situação. No terreno econômico, o
cenário é de inflação alta e crescimento medíocre, contas públicas
deterioradas, carga tributária excessiva e investimento reduzido. Isso à beira
da crise energética que pode revelar-se desastrosa e em meio à mais grave que a
Petrobrás já enfrentou. Na política, a queda da popularidade da presidente
reflete-se na fragmentação da "Armata Brancaleone" que caracterizava
o rolo compressor governista desde 2003. Há um clima de intensa insatisfação
popular.
A
candidata da situação optou por estratégia que combina a distribuição de
benesses eleitoreiras com, no melhor dos casos, postura de avestruz. Recusa-se
a ver a gravidade da situação que o País enfrenta. Os candidatos da oposição
têm consciência das dificuldades a enfrentar, mas têm sido comedidos quanto ao
que seria necessário para colocar o País de volta aos trilhos da viabilidade.
Isso se aplica especialmente à área econômica. A explicitação em detalhe das
políticas necessárias, por exemplo, para que a inflação volte ao centro da meta
ou para que, sem aumento da carga tributária, se melhore o desempenho do
governo conflita com os objetivos eleitorais.
Há,
entretanto, temas que são menos marcados pelo realismo dos cálculos eleitorais.
Um deles é a política externa. É difícil de imaginar que diferentes propostas
sobre o que será a futura política externa possam fazer a diferença na votação
dos diferentes candidatos, embora sejam importantes para avaliar a sua
adequação para ocupar a Presidência.
A
política externa brasileira entre 2003 e 2014, alegada projeção externa da
preponderância interna do PT, é considerada competente por Dilma Rousseff, ao
alinhar o Brasil ao "Terceiro Mundo", em especial aos regimes
populistas de esquerda na Venezuela e na Argentina, e distanciar-se dos países
desenvolvidos. Pode-se, portanto, esperar que a política externa continue sendo
formulada no Itamaraty do B, dentro do Palácio do Planalto, e sem grandes
reorientações. Medíocre está, medíocre continuará.
A
candidatura Eduardo Campos enfrenta problemas quanto ao tema. Há uma ala do PSB
que endossa a política externa do atual governo e outra que percebe a sua
mediocridade. Haveria o risco de Roberto Amaral passar a ocupar o lugar de
Marco Aurélio Garcia? Marina Silva seguramente terá aí um papel.
Aécio Neves
foi o candidato que mais claramente explicitou suas ideias sobre o tema: o
Itamaraty deveria recuperar a sua posição central no processo decisório
relativo à política externa, abandonando o viés ideológico. Deveria defender os
efetivos interesses nacionais e buscar celebrar acordos comerciais com países
desenvolvidos.
Será tão
simples? O que explica a captura do Itamaraty - a despeito da sua tradição de
"esprit de corps" - por um reduzido grupo de funcionários que
colaboraram com a estratégia definida no Palácio do Planalto? O que é mesmo
interesse nacional? Qual poderia ser o papel de um conselho com representação
independente do governo para a definição da política externa? Será que o
Itamaraty deveria ser o principal responsável pela política comercial? Ou o
tema seria mais bem tratado no Ministério da Fazenda? Ou em uma versão
brasileira do United States Trade Representative? São perguntas cujas respostas
vão bem além de declarações de boas intenções.
*Marcelo
de Paiva Abreu é doutor em Economia pela Universidade de Cambridge e é
professor titular no departamento de Economia da PUC-Rio.





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