Li esta semana em um jornal que um corrupto se chateou porque seu filho
foi admoestado numa escola onde estudava na Zona Sul do Rio. De fato,
não é fácil ser filho de corrupto, mesmo sabendo que a neurociência
ainda não chegou a conclusão da pesquisa para provar que nem sempre
“filho de peixe peixinho é” . O máximo a que os estudos alcançaram de
verdade até agora é a comprovação da mudança de comportamento do filho
do corrupto. Normalmente, ele leva uma vida acanhada, envergonhada e se
torna uma pessoa isolada, introvertida. Nas reuniões, na escola e nas
festinhas, por exemplo, é o último a chegar e o primeiro a desaparecer
para não ser notado. ...
Discute-se no meio acadêmico no momento se não seria melhor isolar o
filho do corrupto da garotada, digamos, normal, aquela que preserva os
princípios da honestidade. Assim se evitaria que as crianças
traumatizadas pelos antecedentes dos pais passem por constrangimentos
nas escolas. A outra proposta é de que o governo deveria criar escolas
de amparo aos filhos dos corruptos. Ali, em um ambiente isolado, aqueles
que nasceram com o gênese dos pais, seriam acolhidos em horário
integral para aprender como fraudar e roubar no Brasil.
O currículo seria discutido nos presídios pelos Ph.D.s na matéria ou
mesmo dentro dos ministérios onde muitos desses corruptos continuam na
prática ensinando aos seus subordinados novas técnicas de roubar o
dinheiro público já que de mil flagrados apenas um ou dois ficam mais de
uma semana na cadeia, sinal de que há uma evolução no modus operandi da
gatunagem de não deixar pistas. Do Ministério do Trabalho, por exemplo,
onde a Polícia Federal prendeu dezenas deles acusados do desvio de 200
milhões de reais, poderiam ser convocados alguns para falar sobre “como
roubar e não ser condenado: métodos do bem-viver”, como uma disciplina
extracurricular.
Encontrar locais especializados para os neocorruptos evitaria que os
pais passassem pelo vexame de ver seus filhos discriminados pelos
colegas nas escolas comuns. À esses garotos, acostumados à polícia na
porta de casa, estariam reservados currículos específicos e aulas
teóricas e práticas do desvio de recursos. Juntariam-se a eles também os
filhos de banqueiros e de empreiteiros flagrados no comércio da propina
e do suborno. Uma das disciplinas indispensáveis ao currículo seria
licitação pública: “Como adulterar e viciar as licitações públicas em
conluio com funcionários públicos”. Essas aulas seriam ministradas nas
escolas e dentro dos próprios ministérios, onde os estudantes
assistiriam ao vivo e a cores a conversa entre empreiteiros e
burocratas, sobre os métodos de suborno e os truques para o dinheiro
roubado chegar ao paraíso fiscal.
Outra matéria importantíssima: “Como desviar dinheiro destinado às
calamidades”. As aulas também seriam práticas e rápidas. Consistiriam em
ver como a grana sai do ministério para os flagelados e, como, num
passe de mágica, desaparece no meio do caminho. O que chega ao destino
normalmente é dividido entre os prefeitos e seus assessores, como
ocorreu no Rio. Para os miseráveis apenas os donativos que depois da
tragédia normalmente é jogado fora por falta da logística de
distribuição.
Para que o aluno ingresse na Universidade da Corrupção não precisa de
vestibular. Exige-se apenas a apresentação da folha corrida do pai com
os antecedentes criminais. Quanto mais suja melhor. O mestrado e o
doutorado inevitavelmente serão feitos dentro dos próprios ministérios
que garantem inclusive o estágio já no primeiro ano do curso. Afinal de
contas, o Brasil não pode desperdiçar a experiências e a prática diária
de seus corruptos para não desativar a Polícia Federal que trabalha hoje
exclusivamente para prender os comissionados do governo.
Sem essas escolas, corre-se o risco de um Brasil vazio, sem grandes emoções.
Fonte: Diário do Poder -





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