Truculência do governo contra entidades médicas cresce de acordo com as pesquisas de opinião
A
truculência do governo em defesa do “Mais Médicos” cresce na proporção
em que as pesquisas indicam o apoio, real ou suposto (já digo por que a
dúvida), da população à medida. Aliás, essa é uma característica de
estados, como direi?, “democraticamente” autoritários. Ditaduras se
impõem pela força e pronto!, goste o povo ou não. As democracias
bolivarianas ou, como a brasileira, com rompantes autoritários costumam
usar as maiorias para intimidar quem diverge, quem resiste, quem se
opõe. O Caetano Veloso acha que é tudo uma questão de ser “de esquerda”
ou “de direita”. Não! A intolerância pode ter qualquer sinal. Ocorre que
os intolerantes de esquerda se querem apenas humanistas. Mas volto ao
ponto. Como os levantamentos de opinião pública estão a indicar que o
programa é aprovado pelo povo, então o governo acha que, agora como
antes, não tem nada a negociar: basta ameaçar com punições, e está tudo
resolvido.
Por que
falo em “suposto” apoio? Porque é preciso ver a que a população está
dizendo “sim”. Se me perguntarem, por exemplo, se sou favorável a que
médicos estrangeiros atuem em locais onde não há médicos brasileiros,
também direi “sim”; poderei integrar aquela esmagadora maioria. Se, no
entanto, me indagarem se apoio o “Mais Médicos”, a resposta, obviamente,
é “não”. O viés não é ideológico ou político-partidário. Parte dos que
respondem, é evidente, concorda com o programa porque defende o governo.
Mas parte considerável dá uma de Caetano Veloso: opinar sem saber
direito do que se trata.
Para o
governo, no entanto, pouco importa. Até que não se possa dizer que o
programa está efetivamente funcionando, podendo-se avaliar seus
resultados e o impacto na saúde pública, a ordem é superfaturar o
aspecto, vamos dizer, moral do programa. Luis Inácio Adams, como se nota
(ver post abaixo), quer que tudo se resuma a dizer “sim” ou
“não” a “médicos para pobres”. É claro que tal escolha é uma farsa, mas é
o que está em curso.
Responsabilização legal e ilegal
Pela nova disposição legal (?), fica claro
que cada médico do programa é responsável pelas decisões que vier a
tomar. Muito bem: no caso de algum erro importante ou omissão, vai
acontecer o quê? As associações médicas nada terão a fazer. Os
profissionais estrangeiros estarão no Brasil com visto provisório,
podendo ser enviados de volta a Cuba a qualquer momento — e o Brasil nem
terá controle a respeito.
A ameaça
de acusar representantes de entidades médicas de improbidade
administrativa é pura truculência. Preciso avaliar direito o caso e
conversar com especialistas da área, mas duvido que seja assim tão
fácil. Cuba e Venezuela são ditaduras em que se pode apelar a leis
criminais ou de improbidade para ameaçar opositores. O Brasil ainda não
desceu a tanto.
Sozinhas
As entidades médicas precisam ter claro
que a máquina de propaganda do governo — por intermédio do subjornalismo
financiado com dinheiro público — e do PT foi mobilizada para
demonizá-las. A depender de como reajam, estão apenas facilitando esse
trabalho. É claro que o debate também é de natureza política, mas de uma
outra espécie de política, bem mais ampla, que diz respeito à forma
como se trata saúde pública. O debate deveria ser bem mais amplo do que
aquele feito só por entidades profissionais. Mas este, hoje, se reduz a
setores da imprensa que ainda acreditam que uma democracia se constrói
também com valores. Até a novela das nove faz “merchandising social” em
favor do programa.
Talvez as
entidades médicas colaborem mais com o Brasil e os brasileiros, nesta
quadra, se passarem a avaliar a efetividade do programa e a qualidade do
atendimento que será prestado à população. Quanto a Luis Inacio Adams,
dizer o quê? Mais uma vez, ele demonstra que, numa democracia realmente
bolivariana, seus préstimos seriam mesmo inestimáveis.





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