Escrito por Luiz Fernando Vaz
Um
dos grandes males da minha geração é algo que chamo, assim de
brincadeira, de "Síndrome de Raul Gil". Essa geração cresceu com uma
expectativa exageradíssima sobre sua capacidade e sobre o seu destino.
Foi marcada com um senso desproporcional de protagonismo e dotada de um
senso de realização pessoal irracional muitas vezes delirante. Ninguém
consegue convencer as pessoas dessa geração, quando é o caso, de que não
sabem cantar, nem atuar, nem dançar, que são feios, suas vozes são
horríveis, não tem nenhum carisma nem talento e que, muitas vezes, são
ignorantes e/ou burros demais para o que pretendem fazer. Nada consegue
tirá-las da sua ilusão de 'gracinha da mamãe' - tudo as machuca,
desrespeita, ofende suas heroicas escaladas rumo ao Olimpo.
Consideram-se
prontos e acabados desde o nascimento, celebridades ainda não
descobertas apenas pela inveja que imaginam receber de todos ao seu
redor. Cada uma dessas pessoas uma revelação 'urbi et orbi' para o
mundo. Às vezes até tem algum talento, mas não conseguem desenvolvê-lo
por causa da incapacidade total de avaliar seus potenciais com
honestidade.A frustração da não-realização dos seus sonhos de infância
causa então um sofrimento enorme nestas pessoas. Elas, muitas vezes,
acabam caindo na promiscuidade e nas drogas para fugir de uma realidade
que avoluma-se cada vez diante dos seus olhos: a de que provavelmente
são medíocres. E mutilam-se: tomam esteroides, tentam afirmar a
personalidade tatuando o corpo inteiro com símbolos que desconhecem,
implantam silicone, fazem plásticas agressivas, ficam anoréxicas, são
vitimizadas pela moda e pelo consumismo voraz.Talvez até nem sejam mesmo
medíocres; mas como convencê-las de que elas precisam se aperfeiçoar?
Jamais conseguem se desenvolver em nada por pura incapacidade de exercer
alguma humildade sobre si mesmos. São imunes a qualquer 'anamnese'
possível. Em busca de ser estrelas comportam-se como buracos negros.
Talvez
por isso a minha geração seja tão ressentida e magoada. As ideologias
enxergam, com muita esperteza, esse mar cheio de peixes e atiram a rede
que volta farta. Eu sei que
'tudo-pode-ser-só-basta-acreditar-tudo-que-quiser-você-será', mas
talento é algo raro. E fama é algo inexplicável; está aí o You Tube para
comprovar. A celebridade não é um direito, mas sim uma graça efêmera
que vai e volta como o vento. Ainda existe uma coisa chamada 'sorte'. É
claro que muitos conseguem se libertar dessa síndrome e encontrar alguma
consolação na vida. E muitas vezes ela é encontrada em uma inesperada
habilidade de cultivar jardins, no prazer da contemplação de um mistério
religioso ou no amor de uma mulher e filhos. Muitos infelizmente não
conseguem e perecem pelo caminho na tristeza infinita de uma sarjeta, no
fundo de uma espiritual garrafa de desalentos eternos. A nossa geração
precisa retornar urgentemente ao empreendimento mais essencial da
jornada humana sobre a Terra, empreendimento mesmo do qual os poetas,
profetas e filósofos perseguiram com tanta obsessão e esperança: a busca
do 'Eu' e a conquista definitiva de uma verdadeira personalidade.
*Cena do filme "Inland Empire", de David Lynch
Luiz Fernando Vaz, ator, edita o blog O Anticamarada.
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