Jornalista Andrade Junior

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Um clube chamado Brasil

 Gustavo Lopes 


 O ano que terminou trouxe de volta velhas prĂĄticas ao cenĂĄrio nacional. No entanto, diferentefmente de outras Ă©pocas, quando havia uma tentativa de esconder esse modus operandi, agora a certeza da impunidade permite que os sĂłcios do clube falem abertamente sobre as vantagens de ser associado.

É claro que hĂĄ diferentes nĂ­veis de associados neste clube, e isso depende de algumas questĂ”es como cargo que exerce, poder decisĂłrio e, claro, a amizade com a diretoria. HĂĄ o associado premium, que tem um programa de milhagens infinitas e pode viajar pelo mundo hospedando-se nos hotĂ©is mais luxuosos, comendo nos restaurantes mais badalados, mobiliando a sede campestre do clube com os mĂłveis mais sofisticados. Essa categoria Ă© reservada ao presidente honorĂĄrio do clube e sua dignĂ­ssima esposa.

HĂĄ os associados VIPs, que exercem cargos no clube, porĂ©m sem a vantagem de morar na sede. É formado por uma catrefa deslumbrada, que tambĂ©m tem um programa de milhagens quase infinito, alĂ©m de outras vantagens, como fazer parte de conselhos em estatais, que lhes permitem multiplicar enormemente seus salĂĄrios, aos quais sequer fazem jus, uma vez que muitos dos cargos que ocupam sequer precisariam existir. Mas estĂŁo ali para alegria de um outro grupo: o trans-sĂłcio, que se identifica como sĂłcio, mas nĂŁo Ă©. PorĂ©m, Ă© preciso mantĂȘ-lo com a ilusĂŁo de que o clube Ă© para todos.

HĂĄ, claro, os membros da diretoria. Esses sĂŁo os que mandam, de fato. A eles, alĂ©m das demais vantagens, Ă© facultado decidir as regras do clube. Sobretudo silenciar e perseguir os que acham que o clube Ă© um abuso. Gente chata, cobrando coerĂȘncia e vergonha na cara. Uns estraga prazeres. Melhor silenciĂĄ-los ou prendĂȘ-los. Mas, claro, em nome da “defesa da democracia”. AlĂ©m disso, Ă  diretoria Ă© permitido, por exemplo, cancelar multas de sĂłcios antigos e trazĂȘ-los de volta, garantindo com isso algumas mega senas da virada aos seus familiares, jĂĄ que nĂŁo hĂĄ mais problema que estes trabalhem em causas julgadas por aqueles. Uma decisĂŁo muito inteligente da diretoria para manter tudo dentro da lei.

Tem um grupo de sócios que garantem que tudo pareça estar dentro da normalidade. São os legitimadores, formados por veículos de comunicação sedentos por verbas publicitårias, jornalistas militantes e/ou simples puxa sacos. A função deles é afirmar diariamente que tudo estå perfeitamente correto. E acusar de radical, antidemocråtico e coisa pior quem ousa apontar o dedo para essa suruba institucional.

Mas quem paga toda essa farra? Os mensalistas, pobres mensalistas. Eles sustentam o clube e todas as suas vantagens. Alguns até pagam alegremente a diversão dos sócios, na ilusão de que fazem parte dela. Mas não fazem. Ninguém faz. A maioria dos mensalistas sabe que estå, mais do que sustentando, enriquecendo uma corja desavergonhada. Mas só pode olhar pela cerca do clube e torcer para que a farra tenha fim.

A boa notícia? A cada dia o fim se aproxima. Porque toda soberba precede a ruína. Os mensalistas, que sempre foram a maioria, estão cada vez mais despertos e conscientes de que o clube precisa acabar. Ainda que leve tempo, suas atividades serão encerradas e serão apenas uma triste lembrança de nossa história.

*       O autor, Gustavo Lopes, Ă© escritor, documentarista e ex-SecretĂĄrio Nacional do Audiovisual. @gustavochlopes









PUBLICADAEMhttps://puggina.org/outros-autores-artigo/um-clube-chamado-brasil__18199

0 comments:

Postar um comentĂĄrio

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More