por Paulo Delgado
Quem quiser chegar ao fim da eleição sem se desmoralizar totalmente é
melhor tratar de ser sincero. Não procure dar implicação moral ou
ideológica ao que for mera ambição. Falso escrúpulo, dissimulação, pode
fazer um honesto detestável e um desonesto tolerável. Procure ter uma
fé, um ponto no futuro e busque atingir a imaginação do eleitor sem
querer manipulá-lo pela mentira ou o medo. A maior fatalidade do Brasil
atual é o sucesso do excesso. Não pode ser presidente da República quem
consegue se convencer de qualquer coisa; pior ainda se for incapaz de
deixar de estar certo de muita coisa.
Se fosse um campeonato de futebol antigo, poderíamos dizer que Geraldo, o
tranquilo, venceu o torneio no início ao atuar como um jóquei
cuidadoso: só bem montado que se deve galopar. Mais do que conseguir
tempo de TV, dividiu com o eleitor a responsabilidade de escolher sua
base de apoio congressual desde o 1.º turno. Sem nuance indefinível,
claro e aberto, organizou seu time diferente de governos que fizeram sua
maioria depois de eleitos. Sua decisão muda a tradição de aderir ao
vencedor quando a vitória, no oba-oba, abre o armazém alfandegário da
fisiologia parlamentar.
Jair, o incoerente, montou uma equação inverossímil ao mostrar como é
falso defender hierarquia e ordem e fazer o cardeal ser vice do vigário.
Luta num ringue fictício, pois seu perfil é igual ao esquerdista que
combate. Seu adversário real é o tucano, de quem sequestrou os
eleitores, mas poderão sair do cativeiro libertados por Ana, a vice
certa. Quando ficar claro que sempre foi governista, com o mesmo padrão
de voto da esquerda no Parlamento, o galo de briga perderá a espora.
Está se salvando até agora porque seus críticos se esquecem de que até
para insultar é preciso ter alguma classe. O sentimento de violência que
o fez candidato não se combate com destempero.
Luiz, o mesmo, “nada aprendeu e tudo repete”. Imagina curar com eleitor a
ferida que deve ser tratada com advogado. Vê triunfo em ter levado com
ele o guarda-roupa do partido, deixando seus amigos nus, sem os deixar
usar as próprias roupas. Quer deixar peladas as instituições, acusadas
de serem incapazes de vestir com dignidade algum argumento em relação a
ele. Deseja recuperar para si os bens do poder sem perceber a
consequência que foi obtê-lo a qualquer preço. Faz do seu candidato um
homem sem vontade à espera do maná que é o voto dos alcançados pela
bolsa-tudo, a majestosa mendicância administrativa que mudou o papel das
instituições públicas e produziu a crise. Tranca a rua para aliados,
dando um ar de ninharia à responsabilidade da esquerda para com o País.
Ciro, o traído, provou o fel do desleal. Deve se sentir como o velho
político inglês George Canning: “Dê-me o inimigo declarado, ereto,
valoroso. Posso enfrentá-lo com bravura, talvez responder ao golpe. Mas,
Deus meu, de todas as pragas que tua cólera pode enviar, salva-me, oh
Deus, salva-me do amigo perigoso”.
Marina, a mística, se movimentou no bosque de suas preferências e colheu
um homem cordato e experiente para vice. Não está fechado seu caminho
para crescer, pois sabe como ninguém expressar uma imagem, embora não
saibamos bem o que fará com o Graal quando o encontrar. É popular sem
ser demagógica, e já revelou, quando foi atacada por mentiras divulgadas
por Dilma na eleição passada, que não sacrifica seus ideais à
brutalidade das intrigas políticas.
O eleitor, o personagem central da eleição, parece satisfeito com sua
insatisfação vendo as coisas ocorrerem totalmente desprovidas de medida.
Desconfiado, não deixa nenhuma virtude se impor dominado por um
amorfismo moral sem precedentes. Vivemos o tempo de uma geração fraca e
indolente incentivada pela adulação da política e da internet. Todos
acham que alguém lhes deve algo. Ninguém tem vergonha de pedir tanta
atenção, exigir tanto. Não há necessidade de querer dar nomenclatura ou
elaboração conceitual à sociedade da intriga, da superficialidade.
Resuma sem solenidade, como me disse um amigo: “WhatsApp, Facebook,
bicho mais fuxiqueiro que existe”.
Há uma disfunção afetiva, psicológica, relacional no ar. Não basta
indignação, opinião ou raiva, é preciso ter domínio técnico da questão,
conhecimento cronológico do encadeamento dos fatos para compor uma
lógica sustentável, coisa impossível após a internet e as redes sociais,
que impuseram ao mundo uma insatisfação com a presença humana que se
torna cansativa por ser verdadeira. O meigo virtual pode ser um monstro
presencial, e vice-versa. O que colocará dentro da urna, se decidir ir
até lá? Enfim, até agora é um país de cidadãos bebês, transferidores de
culpa, que escolherá o presidente.
Uma eleição sob o império e a aflição do distraído, pulverizado, do
cansado, da ação rude, que só aceita o caminho da violência,
imprecaução, imprudência. Seu objetivo não é a consequência nem a
persistência, são a pressa e o improviso. Cabeça de celular. A
facilidade de carregar tudo na palma da mão reduziu o assunto à
superficialidade da palma da mão. Seu ego é um aplicativo, seu desejo,
um chip do vale do suplício. A fofoca interessa mais que o declínio da
pátria. E, sem paciência para o entendimento, prefere a grosseria, mais
compreensível para ele. Nem a Bíblia anda lendo: “Quanto fardo enfadonho
Deus impôs aos filhos do homem”. Andar, suar e chorar enquanto semeia e
prospera. Assim sempre foi a vida.
Se o cidadão não refizer seus vínculos emocionais, seu padrão de decisão
é o estado de desespero. Esta é uma eleição de temperamentos. De um
lado, a algazarra, a barulheira do impróprio. Do outro, a calma, a
reflexão. A luz do exorcista contra a sedução do feiticeiro. O que falta
ao Brasil não é ousadia, é sobriedade. Enérgico sim, farsesco não. Nem
todos podem alcançar o poder. O que sai da urna é uma elite. Qual deve
ser a sua cara refletida nela, nobre eleitor?
*SOCIÓLOGO, COPRESIDENTE DO CONSELHO DE ECONOMIA, SOCIOLOGIA E POLÍTICA DA FECORMECIO
O Estado de São Paulo
extraídaderota2014blogspot





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