A visão de Cuba pelo jornalista Juremir Machado da Silva
"O jornalista Juremir fez parte da comitiva do governador Tarso Genro, que foi a Cuba agora no mês de outubro 2012 oferecer máquinas agrícolas fabricadas no Rio Grande do Sul, financiadas pelo BNDES.Juremir é colunista do jornal "Correio do Povo" de Porto Alegre e escritor.Fiquei surpreso com seu diário de viagem a Cuba retratando a verdadeira situação daquele povo que vive do faz de conta.
CUBA, O INFERNO NO PARAÍSO.
JUREMIR MACHADO DA SILVA
CORREIO DO POVO, PORTO ALEGRE (RS)
Na
crônica da semana passada, tentei, pela milésima vez, aderir ao
comunismo. Usei todos os chavões que conhecia para justificar o projeto
Cubano. Não deu certo. Depois de 11 dias na ilha de Fidel Castro, entreguei de novo os pontos.
O
problema do socialismo é sempre o real. Está certo que as utopias são
virtuais, o não lugar, mas tanto problema com a realidade inviabiliza
qualquer adesão. Volto chocado: Cuba é uma favela no paraíso caribenho.
Não
fiquei trancado no mundo cinco estrelas do Hotel Habana Libre. Fui para
a rua. Vi, ouvi e me estarreci. Em 42 anos, Fidel construiu o inferno
ao alcance de todos. Em Cuba, até os médicos são miseráveis.
Ninguém
pode queixar-se de discriminação. É ainda pior. Os cubanos gostam de
uma fórmula cristalina: 'Cuba tem 11 milhões de habitantes e 5 milhões
de Policiais'. Um Policial pode ganhar até quatro vezes mais do que um médico, cujo salário anda em torno de 15 dólares mensais.
José,
professor de história, e Marcela, sua companheira, moram num cortiço,
no centro de Havana, com mais dez pessoas (em outros chega a 30). Não há
mais água encanada. Calorosos e necessitados de tudo, querem ser
ouvidos. José tem o dom da síntese: 'Cuba é uma prisão, um cárcere
especial. Aqui já se nasce prisioneiro. E a pena é perpétua. Não podemos
viajar e somos vigiados em permanência. Tenho uma vida tripla: nas
aulas, minto para os alunos. Faço a apologia da revolução. Fora sei que
vivo um pesadelo. Alívio é arranjar dólares com turistas'.
José
e Marcela, Ariel e Julia, Paco e Adelaida, entre tantos com quem
falamos, pedem tudo: sabão, roupas, livros, dinheiro, papel higiênico,
absorventes. Como não podem entrar sozinhos nos hotéis de luxo que
dominam Havana, quando convidados por turistas, não perdem tempo: enchem
os bolsos de envelopes de açúcar. O sistema de livreta, pelo qual os
Cubanos recebem do governo uma espécie de cesta básica, garante comida
para uma semana. Depois, cada um que se vire. Carne é um produto impensável.
José
e Marcela, ainda assim, quiseram mostrar a casa e servir um almoço de
domingo: arroz, feijão e alguns pedaços de fígado de boi.
Uma
festa. Culpa do embargo norte-americano? Resultado da queda do leste
Europeu? José não vacila: 'Para quem tem dólares não há embargo. A crise
do leste trouxe um agravamento da situação econômica. Mas, se Cuba é uma ditadura, isso nada tem a ver com o bloqueio'.
Cuba
tem quatro classes sociais: os altos funcionários do estado,
confortavelmente instalados em Miramar; os Militares e os Policiais; os
empregados de hotel (que recebem gorjetas em dólar); e o povo. 'Para
ter um emprego num hotel é preciso ser filho de papai, ser protegido de
um grande, ter influência', explica Ricardo, engenheiro que virou
mecânico e gostaria de ser mensageiro nos hotéis luxuosos de redes
internacionais.
Certa
noite, numa roda de novos amigos, brinco que, quando visito um país
problemático, o regime cai logo depois da minha saída. Respondem em
uníssono: 'Vamos te expulsar daqui agora mesmo'. Pergunto por que não se
rebelam, não protestam, não matam Fidel? Explicam que foram educados
para o medo, vivem num estado totalitário, não têm um líder de oposição e
não saberiam atacar com pedras, à moda palestina. Prometem,
no embalo das piadas, substituir todas as fotos de Che Guevara
espalhadas pela ilha por uma minha se eu assassinar Fidel para eles.
Quero
explicações, definições, mais luz. Resumem: 'Cuba é uma ditadura'. Peço
demonstrações: 'Aqui não existem eleições. A democracia participativa,
direta, popular, é um fachada para a manipulação. Não
temos campanhas eleitorais, só temos um partido, um jornal, dois canais
de televisão, de propaganda, e, se fizéssemos um discurso em praça
pública para criticar o governo, seríamos presos na hora'.
Ricardo
Alarcón aparece na televisão para dizer que o sistema eleitoral de Cuba
é o mais democrático do mundo. Os telespectadores riem: 'É o braço
direito da ditadura. O partido indica o candidato a delegado de um
distrito; cabe aos moradores do lugar confirmá-lo; a partir daí, o povo
não interfere em mais nada. Os delegados confirmam os deputados; estes, o
conselho de estado; que consagra Fidel'.
Mas e a educação e a saúde para todos? Ariel explica: 'Temos
alfabetização e profissionalização para todos, não educação. Somos
formados para ler a versão oficial, não para a liberdade. A
educação só existe para a consciência crítica, à qual não temos direito.
O sistema de saúde é bom e garante que vivamos mais tempo para a
submissão'. José mostra-me as
prostitutas, dá os preços e diz que ninguém as condena: 'estão ajudando
as famílias a sobreviver'. Por uma de 15 anos, estudante e bonita, 80
dólares. Quatro velhas negras olham uma televisão em preto e
branco, cuja imagem não se fixa. Tentam ver 'Força de Um Desejo'. Uma
delas justifica: 'só temos a macumba (santería) e as novelas como
alento. Fidel já nos tirou tudo. Tomara que nos deixe as novelas
brasileiras'. Antes da partida, José exige que eu me comprometa a ter
coragem de, ao chegar ao Brasil, contar a verdade que me ensinaram: em
Cuba só há 'rum voltados'.





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