Meta fiscal ficha limpa - JOSÉ PAULO KUPFER
ESTADÃO -
Nada que diga respeito à
ação do governo, na administração das contas públicas, tem, hoje,
credibilidade. Este é, no momento, o maior problema da política fiscal -
e um dos maiores da política econômica. A presidente Dilma e sua equipe
econômica têm perdido cruciais batalhas das expectativas e as manobras
fiscais - um extenso rol de ações exóticas para inflar receitas, que
tipificam uma ampla "contabilidade criativa" -, com consequências
deletérias para o desempenho da economia, estão entre as principais
raízes dessas derrotas.
O forte encolhimento na
arrecadação, consequência combinada do esfriamento da economia com
desonerações descoordenadas, que deu mais impulso à criatividade
contábil, ainda não registra indícios de reversão. Mas a tática de
recorrer a manobras capazes de "produzir" receitas temporárias ou
extraordinárias, sem afetar o endividamento público líquido, passou dos
limites e se tornou tanto tecnicamente imprudente quanto politicamente
inviável. Ficou, assim, muito mais exposta a necessidade de cortar
gastos para manter um superávit primário dentro de algum parâmetro
minimamente suficiente para assegurar bom comportamento à relação dívida
pública/PIB.
Há pouco menos de dois
meses, o governo abandonou a meta de superávit primário cheia de 3,1% do
PIB e assumiu que entregaria um primário de 2,3% do PIB. Mas mesmo essa
meta mais modesta está cercada de dúvidas.
Analistas avaliam que,
diante das dificuldades em elevar a arrecadação corrente e do dilema
entre aprofundar os cortes e incentivar a economia, o superávit
primário, em 2013, tende a ficar abaixo de 2% do PIB. O governo reforçou
essa especulação ao divulgar ontem, depois de intenso vaivém de
números, um corte adicional de R$ 10 bilhões nas despesas orçamentárias
deste ano. O valor é menos da metade dos primeiros exercícios de
contenção de gastos na reprogramação do bimestre e, somado ao bloqueio
anunciado anteriormente, não chega ao total contingenciado no ano
passado.
Ao acentuar o recurso às
manobras fiscais, o governo bagunçou a avaliação do comportamento das
finanças públicas e atropelou a transparência na administração de suas
contas. Embora só forçando a barra se possa falar em descontrole fiscal,
a "sensação térmica" é de que, com os truques utilizados, uma crise da
dívida pública estaria sendo contratada.
Quando o déficit nominal
(incluindo as despesas com juros) não chega a 3% do PIB - um porcentual
confortável em qualquer padrão internacional -é difícil sustentar que
as contas públicas estejam por um fio. Ao mesmo tempo, se é certo que a
dívida pública bruta tem avançado, incorporando os recorrentes truques
fiscais que não se revelam na dívida líquida, a sua trajetória registra
mais uma ideia de estabilidade do que de uma escalada ao precipício.
Sim, hoje a dívida pública bruta se encontra em 59,6% do PIB, no conceito do Banco Central,
ou em 69% do PIB, no conceito do FMI, quando mal passava de 60%, em
2010. Mas, há pouco mais de dez anos, estava em 80% do PIB. Sim, a
relação dívida bruta/PIB é agora a mais alta dos emergentes, mas, como
sugerem técnicos independentes e do mercado, descontado o impacto da
acumulação de reservas internacionais - um seguro contra crises
cambiais, cujo volume ótimo é muito complicado de determinar -,
acomoda-se pouco acima da linha de 40% do PIB, ponto médio e confortável
do grupo.
O que parece claro é
que, se existe uma distância entre a realidade fiscal e a sua percepção,
atuar na reversão dessa percepção é uma providência indispensável. Se
tinha esse objetivo, o pacto de responsabilidade fiscal proposto por
Dilma, em meio ao tumulto das manifestações de junho, passou longe do
alvo. É urgente, por todos os motivos, assumir um compromisso solene com
uma meta fiscal realmente ficha limpa.





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