foto de minha autoria, feita com um aparelho celular. quadra de tênis do clube do exército.
Monteiro Lobato no Supremo Tribunal Federal
Passei boa parte da minha infância e adolescência lendo Monteiro
Lobato. Primeiro, As reinações de narizinho, Viagem ao céu, O pica-pau
amarelo, O Saci, O marquês de rabicó. Mais tarde, encantei-me com os
contos de Urupês e Cidades mortas. Conheci um pouco da mitologia grega
com o Minotauro e com Os doze trabalhos de Hércules; aprendi história no
inesquecível História do mundo para crianças. ...
Do autor, além da grandiosa obra, ressalta-se o homem idealista e
sonhador, à frente do seu tempo. Nacionalista, afrontou o Estado Novo ao
lutar pelo petróleo brasileiro, causa que lhe custou a perda dos seus
bens e a prisão. Intelectual, não só defendeu a produção e impressão de
livros no Brasil, como trouxe para a literatura infantil toda a riqueza
do nosso folclore, com as suas cucas, curupiras, mulas sem cabeça e o
Saci-Pererê.
As crianças de hoje sonham em viajar para a Disneyworld ou para o mundo
encantado e estrangeiro de Nárnia e Harry Potter. As crianças de ontem
sonhavam em ir ao mágico Sítio do Picapau amarelo para ouvir as estórias
de Dona Benta, brincar com a boneca Emília e saborear os quitutes da
tia Anastásia.
Por isso causou-me certo desconforto a notícia sobre a interposição de
mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal, no qual o Instituto de
Advocacia Racial e Ambiental (Iara) pede a anulação de um parecer do
Conselho Nacional de Educação que liberou a adoção, nas escolas
públicas, do livro Caçadas de Pedrinho. Para o Iara, a estória contém
trechos racistas envolvendo a personagem Tia Anastácia, cuja cor negra é
mencionada de forma pejorativa pelo autor. Num trecho, a personagem
Emília refere-se ao iminente ataque de onças e animais ferozes ao sítio:
Não vai escapar ninguém até 2014 nem Tia Nastácia, que tem carne preta.
Em outro trecho, Anastácia sobe num mastro para fugir das onças. A cena
é descrita assim por Monteiro Lobato: Tia Nastácia, esquecida dos seus
numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão.
De fato, a leitura do trecho, escrito há quase 80 anos (o livro foi
publicado em 1933) é mesmo chocante. Como também o é ler em Memórias
Póstumas de Brás Cubas, clássico da literatura brasileira pela pena de
ninguém menos que Machado de Assis, que o personagem, quando criança,
quebrara a cabeça de uma escrava, por que lhe negara uma colher do doce
de coco que estava fazendo. Ou então quando ele se refere a Prudêncio,
moleque de casa: era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no
chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao
dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e
outro lado, e ele obedecia - algumas vezes gemendo, mas obedecia sem
dizer palavra, ou, quando muito, um "ai, nhonhô!" ao que eu retorquia: -
"Cala a boca, besta!"
Procurei, no fundo da minha memória, que impressão me ficara, da
leitura de Lobato e Machado, de Tia Anastácia ou de Brás Cubas. Da
primeira, restou-me a imagem de uma senhora de cor negra, bonachona, que
fazia doces e bolos deliciosos, amorosa com as crianças e adorada por
elas. De Brás Cubas ficou o retrato de um jovem fútil, cheio de
caprichos, com ares da Europa, cujo comportamento é a face caricata da
sociedade brasileira burguesa do século 19.
As expressões inadequadas contidas em ambas as obras, como em várias
outras, não sei se por conta de uma peculiar sabedoria das crianças, que
absorve apenas o melhor das estórias, não fazem parte das minhas
lembranças. Certamente porque tenha entendido, no decorrer do processo
de aprendizagem, a necessidade de se exercer juízo crítico sobre todas
as nossas leituras. Não fosse assim, como superar a crueldade absurda
contida nas estórias infantis que se tornaram clássicos da literatura
universal, como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e o Pequeno
Polegar?
Oxalá a audiência pública, tão sabiamente convocada pelo ministro Luiz
Fux para que as partes envolvidas nessa celeuma cheguem a um consenso,
possa dar frutos outros, que não a proibição de leitura das deleitosas
aventuras de Pedrinho, Narizinho e Emília no Sítio do Picapau Amarelo.
Todo artista, assim como todo escritor, é fruto do seu tempo e os seus
escritos não podem ser lidos fora do contexto. Censurar Monteiro Lobato,
cuja obra literária infantil ainda não foi superada por nenhum outro
escritor de língua portuguesa, implica o dever de também passar um pente
fino em toda a literatura brasileira do século 19 e até pelo menos a
metade do século 20. Em outras palavras, uma tremenda burrice.
Por: Mônica Sifuentes - Desembargadora do TRF 1ª Região
Fonte: Jornal Correio Braziliense -




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