NÃO SÃO SEGURAS
O professor Diego Aranha, que violou a urna em teste: “As falhas existem. As urnas não são 100% seguras como dizem”
O professor Diego Aranha, que violou a urna em teste: “As falhas existem. As urnas não são 100% seguras como dizem”
As urnas são seguras mesmo?
Especialistas em informática driblam sistema de segurança da votação eletrônica e dizem que a eleição não está imune a violações
Há 16 anos, os brasileiros depositam suas expectativas políticas em urnas eletrônicas. O sistema se notabilizou principalmente pela agilidade na apuração e pela garantia, por parte do Tribunal Superior Eleitoral, de que é imune a violações. Se a velocidade do trabalho de contagem dos votos é indiscutível, a segurança das urnas nunca foi uma unanimidade. Neste ano, a preocupação ganhou força depois que um grupo de especialistas em informática descobriu falhas graves na proteção do software utilizado nas urnas. A ação desses “hackers” fez parte de um teste público realizado no TSE. Em vez de ajudar a aperfeiçoar a votação eletrônica, a iniciativa acabou reforçando a impressão de que o processo eleitoral precisa evoluir e se tornar mais transparente. Em entrevista à ISTOÉ, o responsável pela equipe que conseguiu violar a urna eletrônica de teste, o professor Diego Aranha, da Universidade de Brasília, disse que foi pressionado para não divulgar a íntegra do relatório em que apontou as falhas de segurança do programa desenvolvido pelo TSE. “Apenas a versão aprovada pelo Tribunal foi publicada”, diz Aranha. “As informações sensíveis foram suprimidas.” ...
SIM, SÃO SEGURAS
O secretário de Tecnologia da Informação do TSE, Giuseppe Janino: “Nos 16 anos de uso do sistema, não houve sequer um caso de fraude”
O secretário de Tecnologia da Informação do TSE, Giuseppe Janino: “Nos 16 anos de uso do sistema, não houve sequer um caso de fraude”
Doutor em ciências da computação pela Unicamp e especializado em
criptografia, Aranha decidiu arriscar sua reputação, convicto das
vulnerabilidades da urna eletrônica. “Elas existem e nós demonstramos
isso”, afirma. “As urnas não são 100% seguras como dizem.” Quase seis
meses depois do início dos testes, em março, o pesquisador resolveu
publicar um relatório independente no qual aponta uma série de
fragilidades do processo eleitoral. “O software utilizado no sistema de
votação eletrônica brasileiro não satisfaz requisitos mínimos de
segurança e transparência”, afirma Aranha. Entre as principais falhas,
estariam a proteção inadequada do sigilo do voto, que permitiria saber
em qual candidato determinado eleitor votou, o uso de apenas uma única
chave criptográfica para cifrar as mídias de todas as urnas eletrônicas
do País e a aplicação de algoritmos obsoletos cujo uso para segurança em
computação já não é recomendado há pelo menos seis anos. “Seria o mesmo
que proteger milhares de urnas que serão usadas na eleição com cadeados
que podem ser abertos pela mesma chave e ainda esconder essa chave
debaixo do tapete, o lugar mais óbvio.”
A equipe de informática do TSE é formada
por cerca de 150 servidores públicos da área de tecnologia da
informação e metade desse quadro é responsável pelo desenvolvimento do
sistema eleitoral. “Nossa democracia está sob controle absoluto de 70
pessoas e o TSE parte do princípio de que esses funcionários são
absolutamente incorruptíveis”, afirma o professor. O secretário de
Tecnologia da Informação do Tribunal Giuseppe Janino, rebate as
críticas. “Nos 16 anos de uso do sistema automatizado, não houve sequer
um caso de fraude ou tentativa registrada”, afirma Janino. Sobre
suspeitas já levantadas em outros pleitos, ele diz que todas foram
“devidamente apuradas”. Uma delas se deu na disputa pelo governo do
Maranhão, em 2010. Roseana Sarney decidiu a eleição no primeiro turno
por uma margem de 0,08% (ela obteve 50,08% dos votos). Candidato pelo
PCdoB, Flávio Dino questionou a vitória no Tribunal Regional Eleitoral
maranhense. Em relatório, ele indicou falhas nos arquivos de auditoria
das urnas e a ocorrência incomum de votos “rápidos e tardios”, conforme
descrito na denúncia. O caso, porém, foi arquivado pelo TRE. Professor
da Universidade Federal de Pernambuco e um dos criadores do polo
tecnológico Porto Digital, Sílvio Meira diz que não há dúvidas quanto à
lisura do processo eleitoral, mas defende maior transparência por parte
do TSE, que planeja, executa e fiscaliza as eleições, além de julgar os
processos. “É um sistema monolítico e opaco”, diz Meira. “O eleitor
deveria poder fiscalizar o seu voto.”Fotos: Adriano Machado/ag. istoé; Ruy Baron/Folhapress
Por: Claudio Dantas Sequeira
Fonte: Revista ISTOÈ - Edição Nº 2239 - 06/10/2012







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