Percival Puggina
As antigas folhinhas de xaropes e pĂlulas costumavam vir ilustradas com a imagem de um ano anciĂŁo que saĂa, barbas brancas, encurvado sobre sua bengala e um ano novo que chegava enrolado em fraldas. Posta na parede, ali ficava como “marco temporal” de nossos planos de rĂ©veillon.
Contudo, o Sol e a Lua nĂŁo contam seus giros nem dĂŁo bola para as promessas que fazemos a nĂłs mesmos. O tempo Ă© coisa que usamos, mas nĂŁo nos pertence; Ă© utilidade, convenção, relatividade. Meia hora na cadeira do dentista dura bem mais do que meia hora numa roda de amigos. Na infĂąncia, eternidade Ă© o tempo decorrido entre dois Natais ou duas visitas de Papai Noel. Minha mĂŁe, por seu turno, tĂŁo logo terminava um ano começava a se preocupar com o Natal vindouro “porque, meu filho, logo, logo Ă© Natal outra vez”.
A vida familiar e a vida social se fazem, entre outras coisas, do cotidiano encontro da maturidade com a juventude. Imagine um mundo onde sĂł haja jovens ou onde, pelo reverso, sĂł existam idosos. Imagine, por fim, a permanente perplexidade em que viverĂamos se a virada da folhinha nos trouxesse, com efeito, um tempo novo, flamante, que nos enrolasse nas fraldas da incontinĂȘncia urinĂĄria, com tudo para aprender.
Felizmente nĂŁo Ă© assim, nem deve ser visto assim. O importante, em cada recomeço, Ă© ali estarmos com a experiĂȘncia que o passado legou. Aprender da HistĂłria! Aprender da vida! E, principalmente, aprender da eternidade!
Quem aprende da eternidade aprende para a eternidade. Aprende liçÔes que o tempo não desgasta nem consome, liçÔes que não são superadas, liçÔes para a felicidade e para o bem. Por isso, para os cristãos, a maior e melhor novidade de cada ano serå sempre a Boa Nova, que infatigavelmente pÔe em marcha a História da Salvação, cumprindo o plano de amor do Pai.
Bem sei o quanto Ă© contraditĂłrio Ă cultura contemporĂąnea o que estou afirmando. E reconheço o quanto as pessoas se deixam cativar pela mensagem do hedonismo “revolucionĂĄrio”, supostamente coletivista e igualitĂĄrio. Mas Ă© preciso deixar claro que tal mensagem transforma o mundo num grande seio onde, a cada novo ano, se retoma a fase oral e se trocam as fraldas da imaturidade.
A quantos lerem estas linhas desejo um 2024 de afetos vividos, aconchego familiar, realizaçÔes, vitĂłrias, saĂșde e paz.
PUBLICADAEMhttps://puggina.org/artigo/um-ano-envolto-em-fraldas__17942





0 comments:
Postar um comentĂĄrio