O GLOBO
Daniel Aarão Reis
Quando Nicolás Maduro começou a sonhar com Hugo Chávez, e a
vê-lo sob a forma de passarinhos, tornou-se claro que derrotar Maduro era
derrotar Chávez, um líder popular morto de véspera. Muito difícil. As pesquisas
de opinião pública e as avaliações de especialistas o atestavam: Maduro na
cabeça, e com folga.
Mas não foi assim que aconteceu.
A vitória, apertada e questionada pelas oposições, relançou
o debate sobre a situação e os rumos do país.
A “revolução bolivariana”, como outras experiências,
insere-se nas tradições do nacional-estatismo, cultura política arraigada nas
Américas ao sul do Rio Grande. Pegando fôlego no enfraquecimento da capacidade
de controle das grandes potências, têm no lombo conhecidas marcas identitárias:
Estado intervencionista, amplas alianças de classes,
incluindo-se os trabalhadores urbanos e rurais, apoio nas forças armadas,
lideranças carismáticas e credo nacionalista.
Tais aspectos encontram-se no chavismo, destacando-se,
em particular, até pela condição de militar de Hugo Chávez, uma aparentemente
sólida aliança entre os militares e os movimentos sociais de trabalhadores.
A aliança foi potencializada por características
específicas: a primeira é que o chavismo construiu-se de acordo
com a lei. Logo após a primeira eleição de Chávez, em 1998, convocou-se uma
Assembleia Constituinte para remodelar as instituições.
Graças à
cegueira das oposições, que se abstiveram, aprovou-se uma Carta,
ratificada depois pelo voto direto, que assegurou, daí em diante, um quadro
legal à “revolução bolivariana” e à ocupação, pelos chavistas, das alturas do
Estado, em todas as instâncias decisivas — executivas, legislativas e
judiciárias.
Quando as
oposições acordaram, já era tarde.
Ao contrário de outras experiências nacional-estatistas, que
quebraram os dentes frente à resistência do Legislativo e do Judiciário (Jango,
em 1964; Allende, em 1973), os antichavistas é que teriam,
agora, de lutar contra obstáculos institucionais e a lei.
A tentativa frustrada de golpe, em 2002, evidenciou o
desespero de oposições automarginalizadas. O último bastião oposicionista — a estatal petrolífera — foi também
neutralizado depois de prolongada greve corporativista.
Outra inovação de Chávez foram as frequentes invocações a
Deus e a Jesus Cristo, acionando-se o catolicismo animista que, para desgosto
dos bem-pensantes, sempre dominou o panorama religioso de Nuestra América.
Getúlio, Jango e Perón, entre outros, eram, ou fingiam ser, religiosos, mas
nunca exploraram este filão com tamanha devoção.
Com a ajuda de Deus e da lei, e das políticas
sociais redistributivas de renda e de poder, os chavistas puderam legitimar-se
democraticamente.





0 comments:
Postar um comentário