Jornalista Andrade Junior

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Entre passarinhos e elefantes

O GLOBO
Daniel Aarão Reis
Quando Nicolás Maduro começou a sonhar com Hugo Chávez, e a vê-lo sob a forma de passarinhos, tornou-se claro que derrotar Maduro era derrotar Chávez, um líder popular morto de véspera. Muito difícil. As pesquisas de opinião pública e as avaliações de especialistas o atestavam: Maduro na cabeça, e com folga.
Mas não foi assim que aconteceu.
A vitória, apertada e questionada pelas oposições, relançou o debate sobre a situação e os rumos do país.
A “revolução bolivariana”, como outras experiências, insere-se nas tradições do nacional-estatismo, cultura política arraigada nas Américas ao sul do Rio Grande. Pegando fôlego no enfraquecimento da capacidade de controle das grandes potências, têm no lombo conhecidas marcas identitárias: Estado intervencionista, amplas alianças de classes, incluindo-se os trabalhadores urbanos e rurais, apoio nas forças armadas, lideranças carismáticas e credo nacionalista.
 Tais aspectos encontram-se no chavismo, destacando-se, em particular, até pela condição de militar de Hugo Chávez, uma aparentemente sólida aliança entre os militares e os movimentos sociais de trabalhadores.
A aliança foi potencializada por características específicas: a primeira é que o chavismo construiu-se de acordo com a lei. Logo após a primeira eleição de Chávez, em 1998, convocou-se uma Assembleia Constituinte para remodelar as instituições.
Graças à cegueira das oposições, que se abstiveram, aprovou-se uma Carta, ratificada depois pelo voto direto, que assegurou, daí em diante, um quadro legal à “revolução bolivariana” e à ocupação, pelos chavistas, das alturas do Estado, em todas as instâncias decisivas — executivas, legislativas e judiciárias.
Quando as oposições acordaram, já era tarde.
Ao contrário de outras experiências nacional-estatistas, que quebraram os dentes frente à resistência do Legislativo e do Judiciário (Jango, em 1964; Allende, em 1973), os antichavistas é que teriam, agora, de lutar contra obstáculos institucionais e a lei.
A tentativa frustrada de golpe, em 2002, evidenciou o desespero de oposições automarginalizadas. O último bastião oposicionista — a estatal petrolífera — foi também neutralizado depois de prolongada greve corporativista.
Outra inovação de Chávez foram as frequentes invocações a Deus e a Jesus Cristo, acionando-se o catolicismo animista que, para desgosto dos bem-pensantes, sempre dominou o panorama religioso de Nuestra América. Getúlio, Jango e Perón, entre outros, eram, ou fingiam ser, religiosos, mas nunca exploraram este filão com tamanha devoção.
Com a ajuda de Deus e da lei, e das políticas sociais redistributivas de renda e de poder, os chavistas puderam legitimar-se democraticamente.

 Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense. Mais detalhes do pedigree do articulista pode ser lido nas páginas299, 399, 400, 518, 519, 561, 699, 730 do Orvil ,disponível para compra na editora Schoba

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