Jornalista Andrade Junior

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Acção no IV Regimento de Infantaria

Contribuindo com a Comissão da Verdade IV
  " Acção no IV Regimento de Infantaria - segundo Darcy Rodrigues
 Pesquisado pela editoria do site  
www.averdadesufocada.com

Depoimento no livro "A Esquerda Armada no Brasil" -  Antônio Caso - Prêmio Testemunho 1973 da Casa de las Américas - Moraes editores - Portugal
Testemunho  do ex- sargento Darcy Rodrigues*
"De Outubro a Dezembro de 1968 ultimaram-se as discussões e os preparativos para a acção no IV Regimento de Infantaria . A acção foi marcada para o dia 26 de Janeiro de 1969.
 O plano original do capitão Carlos Lamarca consistia na expropriação de todos os fuzis, metralhadoras e armas curtas da companhia sob seu comando, que passariam a engrossar o arsenal da VPR.
A minha opinião era a de que existiam  condições para ampliar o plano, e montar ainda outra acção, que seria levada a efeito no dia seguinte, e que
consistiria na expropriação de material bélico do depósito geral do quartel e do paiol. Neste depósito geral guardavam-se as chamadas reservas de guerra, armamento novo a ser  utilizado somente em caso de mobilização dos efectivos da reserva do regimento.

 Eu tinha acesso a essas dependências porque todos os depósitos de material bélico estavam sob controlo da IV Secção do Regimento , na qual eu servia . Mandei fazer então cópia das chaves, não somente das do depósito de armas como também das do paiol e de outras subsecções das quais poderíamos retirar material bélico no dia da acção.
O esquema da acção era muito complexo , e por essa razão não vou entrar em detalhes. O plano final seria o seguinte: no dia 25 de Janeiro o companheiro Lamarca, utilizando uma camioneta Kombi, retiraria da sua companhia uns sessenta fuzis automáticos ligeiros e dois morteiros de 60 milímetros, com todos os seus acessórios. No dia 26 seria levada a cabo a acção mais complexa: retirar dos depósitos do quartel uns quinhentos fuzis e respectivas balas.  Além disso, expropriaríamos qualquer outro tipo de armamento e toda a munição que pudesse ser transportada na camioneta.
 No dia 26 de Janeiro eu estaria de serviço como chefe da guarda do regimento. De sargento de dia , teríamos um companheiro, o cabo Mariani; e outro companheiro, o soldado Carlos Roberto Zanirato, encarregar-se -ia de preparar as condições para a rápida retirada das armas e das munições do depósito.
Nesse dia, como chefe da guarda, eu facilitaria a entrada na unidade de um camião, que seria  carregado com as armas e munições. O companheiro Zanirato entraria no depósito de madrugada, quatro ou cinco horas, e ali permaneceria até ás 15.30,hora em que se iniciaria a operação de carregar o camião. Durante todo esse tempo, Zanirato estaria a preparar fardos de cinco fuzis cada um para facilitar o carregamento das armas.
Além de autorizar a entrada do camião  na unidade militar, eu teria também , nesse dia, a missão de controlar as sentinelas e permitir o acesso ao quartel de um grupo de companheiros  da organização, que chegariam num Volkswagen e entrariam antes do camião. Este grupo, estacionado perto do corpo da guarda, teria a missão de dar cobertura armada à operação de carregar o camião .
Cada um dos componentes do grupo tinha uma tarefa específica a realizar. O grupo penetraria no quartel com o pretexto de falar com um soldado e contaria com meu consentimento, como chefe da guarda. Não haveria portanto dificuldades na sua entrada e permanência dentro da unidade militar. Um daqueles companheiros deixaria o automóvel e ficaria perto do cabo de guarda , com ordens para actuar com rapidez no caso de qualquer alarme, imobilizando o cabo.
Pouco antes da hora prevista para acção, eu ordenaria a retirada das munições de todos os postos de guarda, alegando uma inspecção geral. Dessa maneira deixaria toda a guarda com as armas  descarregadas e sem condições de reagir. Imediatamente depois reuniria a tropa que não estava nos postos de guarda, isto é, os que descansavam, a pretexto de transmitir-lhes uma orientação de serviço. Isso também seria viável, porque existia uma instrução a respeito da Secção do Pessoal do regimento, que recomendava ao chefe da guarda a utilizaçãao das horas livres do pessoal da guarda para transmitir-lhes conhecimentos sobre vigilância e outros aspectos gerais do serviço.
Outro dos companheiros a chegar no volkswagen deveria permanecer no interior do automóvel. Em caso de alarme, esse correria até o local onde eu estaria reunido com a tropa e, os dois, nos encarregaríamos de prender o oficial da guarda e destruir todos os meios de comunicação do Regimento com o exterior. Isto serai relativamente fácil, porque o oficial de guarda estaria próximo do centro telefônico e no mesmo edifício funcionavam também o posto de rádio e um sistema VHP de transmissão de alta frequência , de grande eficiência em distãncias curtas. De modo que, numa rápida operação, os dois poderíamos imobilizar o oficial e destruir os meios de comunicação.
Outro dos companheiros do grupo ajudaria o capitão Lamarca, que ordenaria a abertura dos depósitos e o carregamento das armas e munições na camioneta Kombi
Nesse mesmo momento, os demais companheiros do camião estariam carregando os fuzis e as munições do depósito geral do regimento.
Fora do quartel, na rua, estariam outros três grupos armados. Um deles com a missão de aniquilar as sentinelas da guarda em caso de resistência e , se fosse necessário, levantar uma linha de defesa contra qualquer reforço que pudesse vir do II Grupo de Canhões antiaéreos de 90 milímetros, cujo quartel fica perto do IV Regimento de Infantaria de Quitaúna.
Os outros dois grupos, na rua, actuariam na contenção de outros possíveis reforços que tentassem aproximar-se do quartel de Quitaúna. Um desses grupos permaneceria nas proximidades da Vila Militar, zona residencial onde vivem os oficiais e sargentos do Regimento , e o outro obstruiria a via de acesso da cidade ao quartel.
Em linhas gerais, este era o nosso plano. Mas no dia 23 de janeiro ocorreu algo inesperado. Nesse dia registrou-se um incidente em Itaparica da Serra de que resultou a prisão de quatro companheiros da acção. Juntamente com eles, caiu em poder da repressão parte da infra-estrutura, inclusive o camião que seria utilizado no transporte do armamento expropriado.
 No dia seguinte, 24 de Janeiro, todos nós, companheiros do IV Regimento de Infantaria comprometidos na acção, saímos do quartel de Quitaúna à hora do almoço com o pretexto de irmos a um banco de Osasco receber nossos soldos. Em vez disso, fomos ao encontro de um companheiro da VPR.
Este companheiro informou-nos que em Itaparica da Serra havia sido descoberto o local onde o camião estava a ser pintado com as cores do Exército e que quatro companheiros foram capturados.
 A partir daquele episódio inesperado, os acontecimentos precipitaram-se. A nossa permanência no quartel, isto é, na legalidade, significava correr um risco muito grande. Era preciso actuar com rapidez, pois existia a possibilidade de que algum dos companheiros presos não resistisse às torturas e desse alguma informação à repressão sobre a existência de uma célula revolucionária dentro do IV Regimento de Infantaria.
Naquela época a polícia da ditadura não dispunha ainda de muita informação a respeito das organizações revolucionárias armadas já em actividade, principalmente em São Paulo. As acções de guerrilha urbana, entre as quais algumas importantes como o justiçamento do capitão norte-americano Charles Chandler, a expropriação de armas no hospital militar de Cambuci, a explosão de um carro-bomba em frente do quartel general do II Exército, em São Paulo, expropriações de armas e explosivos no armeiro " Diana" e em várias pedreiras  - levaram a repressão a prever dias tempestuosos e, por isso, qualquer elemento revolucionário que lhe caísse nas mãos seria submetido às mais ferozes torturas para fornecer informações sobre as organizações armadas.
Era muito arrriscado, portanto, contar naquele momento só com a coragem e a valentia dos companheiros presos. E decidimos regressar imediatamente ao quartel de Quitaúna e executar rapidamente a primeira parte do plano, ou seja a parte da acção prevista para o dia 25.
Resolvemos executar a expropriação de armas na Companhia do capitão Lamarca nessa mesma tarde de 24 de Janeiro de 1969. Em virtude da sua condição de chefe da subunidade, Lamarca teria facilidade em ordenar aos subordinados que carregassem a camioneta com as armas da companhia sem despertar grandes suspeitas. O Capitão Lamarca  gozava então da confiança total dos altos chefes militares, não apenas do IV Regimento de Infantaria, mas também do II Exército. Ele fora inclusive designado, um mês antes, para ministrar instrução militar a um grupo de assalariados que seriam empregados no sistema de segurança dos bancos do grupo financeiro BRADESCO, inicialmentede capital brasileiro, mas que, após o golpe passou às mãos do grupo norte-americano Rockfeller.
Quando Lamarca iniciou a operação de carregar a camioneta com as armas da Companhia, deu-se um facto curioso. Dois sargentos alheios à acção aproximaram-se e perguntaram-lhe em tom amigável: " Vamos  a ver, o que está a acontecer aqui?" Houve um instante de tensão. Mas Lamarca reagiu rapidamente e respondeu-lhes tranquilamente: "É o armamento que vai ser utilizado numa inspeção do Tiro de Guerra", e os dois sargentos satisfeitos com a resposta, seguiram o seu caminho.
 O chamado Tiro de Guerra era uma unidade militar próxima do quartel de Quitaúna, centro de formação de reservistas de segunda categoria, e a operação de levar armas para lá era normal. Por isso os sargentos de nada suspeitaram.
Apesar do imprevisto a acção foi executada com êxito sob o comando do companheiro Lamarca, que retirou do quartel sessenta e três fuzis automáticos ligeiros e, se não me equivoco, cinco pistolas-metralhadoras INA, revólveres e munições. Todo este material foi destinado à VPR.
A partir desse momento, os quatro companheiros que constituíamos a célula revolucionária, passámos imediatamente à mais rigorosa clandestinidade.
O destino dos quatro veio a ser bem diferente. O companheiro Zanirato foi o primeiro a cair. Preso em Junho de 1969, preferiu suicidar-se, temeroso de ceder informações à polícia a meio das torturas a que foi submetido. O companheiro Mariana (sic) ainda continua na prisão e Carlos Lamarca continua lutando contra a ditadura no Brasil. Eu fui preso a 27 de Abril de 1970, no Vale da Ribeira, e posteriormente trocado, com mais trinta e nove companheiros presos, pelo embaixador da República Federal da Alemanha, sequestrado no Rio de Janeiro. Saí da prisão para a Argélia no dia 15 de Junho de 1970."


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Observação do site www.averdadesufocada.com :
* Darcy Rodrigues recentemente conseguiu obter na Justiça a patente de capitão, mesmo tendo desertado do Exército. Junto com o posto de capitão, ganhou uma polpuda indenização, retroativa ao tempo em que desertou do Exército,  e o pagamento mensal dos rendimentos advindos da patente atual.
"Lembranças desse período existem muitas, talvez a mais significativa e dolorosa seja a envolvendo Carlos Roberto Zanirato, um companheiro, que preso e torturado, foi encaminhado a um fictício ponto onde supostamente se encontraria com ele. Quando se viu só, num ponto de ônibus, atirou-se debaixo das rodas: “Ele inventou o ponto para se suicidar. Carregarei comigo essa morte até o fim, pois fui eu quem o trouxe para a luta e sua morte foi das mais dignas”.
Estas são  afirmações dada  em uma matéria publicada no site http://zequinhabarreto.org.br/?p=715  Uma delas vai de encontro ao que afirma no depoimento acima ao livro "A esquerda armada no Brasil," quando estava banido e morando em Cuba. Agora, capitão, anistiado  e indenizado, livra-se da pecha de ladrão das armas que o Exército lhe confiou. Afirma que não se encontrava mais no quartel quando as armas foram roubadas. Leiam abaixo suas declarações:
"Com o AI-5, por mais discretos que tentassem ser, a prisão era eminente, questão de dias.Uma data foi marcada para a deserção e teve que ser antecipada para 24/01/1969. Aqui Darcy esclarece algo controverso. Ele não estava no quartel quando Lamarca saiu com as armas: “Muitos ainda citam por aí, que estava nessa ação, mas já estava fora”.
E omite que a data não era apenas para desertar do quartel, mas sim para roubar todas as armas e munições do paiol do Regimento, o que, felizmente, foi em parte evitado. Apenas as armas e municões  da Companhia de Lamarca foram retiradas do IV Regimento. de Infantaria

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