UM ARTIGO QUE MERECE SER LIDO, RELIDO E DEPOIS REPASSADO AOS AMIGOS. RECEBI DE UM AMIGO LEITOR E O RETRANSMITO NA INTEGRA. DE AUTORIA DE REINALDO AZEVEDO
Dilma relembra sua natureza, faz propaganda eleitoral com dinheiro público, mistifica sobre o passado e ainda tenta sequestrar a estabilidade para o petismo! Foi o seu pior momento em dois anos!
Já
deveria, claro!, ter escrito a respeito do discurso que a presidente
Dilma Rousseff fez na quinta-feira, mas o sistema 3G do País Potência da
governanta não permitiu. Basta que a gente se distancie da cidade 180
quilômetros rumo ao litoral, lá onde o Brasil começou, e o sistema “não
pega”. Lembro-me de um rádio velho que havia em casa, de válvula. Quando
esquentava muito, rescendia ao verniz que cobria a caixa de madeira… De
vez em quando, ficava mudo. A gente dava uma porrada, voltava a
funcionar. Pensei em fazer o mesmo com o laptop, mas fui contido a
tempo… Voltemos a Dilma. Eis a presidente retornando à sua natureza.
Não! Falemos de outro modo. Lá estava a presidente em sua real natureza.
O PT não
reconhece a diferença entre estado, partido e governo. Não é uma
disfunção particular, uma invenção sua, um traço distintivo. É herança
de um pensamento. O partido é herdeiro dos dois grandes totalitarismos
do século passado, o fascismo e o socialismo. Como já escrevi aqui
tantas vezes, o primeiro, seguindo a fórmula de Giovanni Gentile,
preconizava “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”.
Os socialistas trocaram o “estado” pelo partido, mas a essência é a
mesma.
Dilma já
havia atravessado o sinal quando emitiu uma nota, com chancela da
Presidência da República, para responder a um artigo de FHC, que, de
resto, em essência, lhe era injustamente elogioso, fazendo dela uma
espécie de vítima de alguns destrambelhamentos do antecessor. Critiquei
seu texto. Dilma ajudou a fabricar a “herança”; é uma das principais
responsáveis por algumas dificuldades que o país enfrenta na área de
infraestrutura. Adiante. Aquela nota, com algumas grosserias
desnecessárias desferidas contra o tucano, já era uma evidência de uso
de uma instituição do Estado — o Poder Executivo — e de uma repartição
do governo — a Presidência da República — para fazer um desagravo de
natureza partidária (ao PT) e política (a Lula). Ora, o partido dispõe
de medalhões em penca para responder. Mas a cúpula dos companheiros
praticamente exigiu uma resposta. A imprensa áulica chegou a noticiar
que os petistas “aprovaram” a reação de Dilma… Não me digam! Só não
fiquei de queixo caído com a notícia porque já aprendi a não me
surpreender com essa gente.
Muito bem!
Achando que aquela nota havia sido pouca coisa, que não havia se
despido o suficiente do necessário manto do decoro que o cargo lhe impõe
— chefe do governo e representante maior da esfera executiva do estado
—, Dilma resolveu entrar no ar no intervalo da novela “Avenida Brasil”
(ela queria Ibope alto!) para fazer seu suposto pronunciamento oficial
sobre os 190 anos da independência do país.
O que se
viu ali — íntegra do pronunciamento aqui — foi a presidente da República
a usar a estrutura do estado e do governo para fazer proselitismo de
natureza partidária e, é inescapável apontar, dado o período, também
eleitoral.
Sim, sim,
como de hábito, a fala oficial veio recheada com aquelas mentiras de tom
grandiloquente, que nos enchem o peito de orgulho cívico. Todos
gostaríamos de morar no país dos presidentes, nos estados dos
governadores, nas cidades dos prefeitos, não é? Eles têm sempre um olhar
bastante direcionado para tudo o que há — e sobretudo para o “a haver” —
de bom. Dou de barato que políticos tenham de usar, de vez em quando,
essa linguagem miserável para se comunicar. Assim, a presidente foi à TV
para declarar que estávamos, pasmem!, vivendo uma “nova arrancada”. O
país cresceu 2,7% em 2011. Neste ano, deve ficar pouco acima de 1,5% —
Guido Mantega anunciava 4% não faz seis meses… Nova arrancada!
Dilma não
teve medo do ridículo, não! Enfrentou-o com altaneira galhardia e, para
espanto do mundo — se o mundo desse bola para o que ela diz —, anunciou
um “um modelo de desenvolvimento inédito”. “Inédito”, vocês sabem, mesmo
nos tempos petistas, quer dizer “inédito”, jamais vindo à luz. E ela
explicou como foi que o petismo resolveu botar de pé esse ovo de
Colombo: esse modelo seria baseado no “crescimento com estabilidade, no
equilíbrio fiscal e na distribuição de renda”.
Parem as máquinas!
Cesse tudo o que antiga musa canta!
O planeta faça alguns minutos de silêncio.
Nunca
antes na história da humanidade — afinal, tratamos de algo “inédito” —,
um governo tinha tido a ousadia de juntar estabilidade, rigor fiscal
(quem dera fosse verdade!) e distribuição de renda. Ainda que o PT
tivesse mesmo conseguido juntar esses três ingredientes em doses
apreciáveis, será esse modelo “inédito”? A Europa — em crise, sim!, hoje
— forjou o seu estado de bem-estar social de que modo? Dilma decidiu
recorrer ao diminutivo, certa de que ninguém perdeu poder, eleição ou
dinheiro por infantilizar o povo: “O nosso bem-sucedido modelo de
desenvolvimento tem se apoiado em três palavrinhas mágicas:
estabilidade, crescimento e inclusão.”
“Palavrinhas mágicas”???
Quem tirou o coelho da cartola?
Lula? Dilma?
Ela
resolveu atribuir o casamento dessas “palavrinhas” às gestões petistas.
Segundo disse, o “novo ciclo de desenvolvimento” vai “alargar bastante o
caminho de afirmação e independência que nosso país vem construindo,
com muita garra, nos últimos dez anos”.
Entenderam?
A “afirmação e independência” vêm sendo construídas nos “últimos dez
anos”, nas gestões petistas. Antes, não! No princípio, era o caos. Mas
aí se fez a luz. Foi o pior momento da presidente em dois anos de
governo. O que vou escrever aqui não é novidade, mas não me importo. Se
eles podem ficar repetindo mentiras sem corar, eu posso ficar repetindo
verdades sem me constranger. A ESTABILIDADE BRASILEIRA — OU ISSO A QUE
SE CHAMA ASSIM — EXISTE APESAR DO PT, NÃO POR CAUSA DELE. E O PT EXISTE
NO PODER POR CAUSA DA ESTABILIDADE.
Na
oposição, o partido sabotou todas as ações — TODAS, SEM UMA MISERÁVEL
EXCEÇÃO — em favor da estabilidade. Vocês conhecem o elenco: foi contra o
Real, foi contra as privatizações, foi contra as reformas, foi contra a
Lei de Responsabilidade Fiscal. E porque algumas dessas medidas
custaram ao governo desgaste junto à opinião pública, o petismo se
construiu como alternativa. No poder, aproveitou-se das medidas cuja
implementação tentou impedir.
A Dilma
que disputava eleições, como todo candidato, podia mentir um pouquinho,
fazer promessas que jamais cumpriria — não vai entregar os três milhões
de casas até 2014 ou as mais de 6 mil creches, só para citar duas. A
presidente da República, no entanto, tem um compromisso com a verdade
que lhe é imposto pelo decoro do cargo. Afirmar que a estabilidade é
obra de seu partido é um sequestro da história, perpetrado em cena
aberta pela presidente que criou, ora vejam!, uma “Comissão da Verdade”.
Se um grupo a serviço do estado com esse nome já é um achincalhe à
inteligência, depois do discurso do dia 6, virou uma piada.
Descolada ainda do compromisso de falar a verdade, anunciou a presidente:
“Ao contrário do antigo e questionável modelo de privatização de ferrovias, que torrou patrimônio público para pagar dívida, e ainda terminou por gerar monopólios, privilégios, frete elevado e baixa eficiência, o nosso sistema de concessão vai reforçar o poder regulador do Estado para garantir qualidade, acabar com os monopólios, e assegurar o mais baixo custo de frete possível.”
“Ao contrário do antigo e questionável modelo de privatização de ferrovias, que torrou patrimônio público para pagar dívida, e ainda terminou por gerar monopólios, privilégios, frete elevado e baixa eficiência, o nosso sistema de concessão vai reforçar o poder regulador do Estado para garantir qualidade, acabar com os monopólios, e assegurar o mais baixo custo de frete possível.”
Os fatos
Poucos se lembram, mas eu me lembro, que Dilma anunciou justamente para as estradas federais o seu revolucionário método de concessão. Deu-se em 2007. Elio Gaspari até chegou a ficar encantado, como sabem. Antevi a falência de sua obra no mesmo dia. Tanto é verdade que agora ela decidiu lançar um novo programa. E, como se vê, faz questão de satanizar o passado.
Poucos se lembram, mas eu me lembro, que Dilma anunciou justamente para as estradas federais o seu revolucionário método de concessão. Deu-se em 2007. Elio Gaspari até chegou a ficar encantado, como sabem. Antevi a falência de sua obra no mesmo dia. Tanto é verdade que agora ela decidiu lançar um novo programa. E, como se vê, faz questão de satanizar o passado.
Ora, ora,
ora… As ferrovias também são concessões. E estão submetidas a uma
agência reguladora. O PT está no poder há dez anos. Então assistiu ao
insucesso de uma determinada prática e deixou tudo como está? Por que o
governo não usa os instrumentos legais que têm para garantir a
eficiência do sistema? Porque é incompetente!
Desde o
governo Lula, o país vive engabelado por planos mirabolantes de
aceleração dos investimentos e do crescimento que, não obstante, não
saem do papel. Como informava Fernando Dantas no Estadão de ontem, “a
taxa de investimento da economia brasileira caiu quase o tempo todo
durante o governo de Dilma Rousseff, indo na direção contrária ao
objetivo da presidente de levá-la ao nível de 22% a 23% do Produto
Interno Bruto (PIB).” Ou ainda: “Dilma
iniciou seu mandato com uma taxa de investimento acumulada em quatro
trimestres de 19,46% do PIB, que caiu para 18,83% em junho de 2012,
tornando cada vez mais difícil alcançar o objetivo.”
Essa é a verdade dos fatos.
Não! Eu
não espero que um governante vá à TV dizer verdades incômodas sobre o
país ou sobre a sua gestão. Mas é o fim da picada que ocupe a máquina do
estado para o simples proselitismo, como fez a presidente —
esquecendo-se, entre outras coisas, de que exerce seu cargo para todos
os brasileiros, inclusive e muito especialmente para quem não votou nela
ou em seu partido. O que distingue a democracia da ditadura não é
necessariamente haver um governo que conte com o apoio da maioria —
todos os facínoras, num dado momento, gozaram de prestígio popular. O
que distingue a democracia da ditadura é o fato de que se respeitam as
vozes da minoria, dos que divergem, dos que dissentem, dos que
discordam. Ao tentar sequestrar, mais uma vez, a história, Dilma se
esqueceu de que também é presidente dos adversários que tiveram sua obra
pisoteada.
Dilma
errou no conteúdo, errou no tom, errou até no tempo. Amanhã, anunciou
ela naquele discurso, divulga o pacote para baratear a energia doméstica
e das empresas. Que tenha, nesse ato, o decoro que não teve no
pronunciamento do dia 6. E que tome o cuidado ético — será? — de não
associar esse anúncio à sua entrada no horário eleitoral do PT.
Os
petistas, especialmente a ala sindical ligada aos servidores, estão
bravos com a presidente. Ela resolveu acenar para o petismo lulista com
aquela nota atacando FHC e com o pronunciamento desta quinta. Lembrava,
afinal, o que alguns tentam — até o ex-presidente tucano — esquecer de
vez em quando: afinal de contas, ela é um deles, ainda que não seja a
preferida da turma.





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