A existĂȘncia de uma oposição efetiva Ă© condição de saĂșde de uma democracia
Os parlamentares brasileiros farĂŁo jus Ă confiança depositada neles por seus eleitores? Que interesses guiarĂŁo deputados e senadores em sua atuação: os do paĂs ou os prĂłprios? Com que autonomia, independĂȘncia e consciĂȘncia de seu papel vĂŁo legislar frente a pressĂ”es dos outros poderes ou de outras instĂąncias de influĂȘncia? Essas perguntas começam a ser respondidas a partir desta quarta-feira (1Âș), quando o Congresso Nacional darĂĄ inĂcio a uma nova legislatura, com a posse dos 513 deputados federais e 27 senadores eleitos em 2022.
De pronto, a nova composição do Congresso traz um componente novo ao cenĂĄrio polĂtico brasileiro: a maioria dos parlamentares que assume pertence a partidos posicionados mais Ă direita do espectro polĂtico, o que significaria, em tese, oposição ao governo Lula. Ainda que as eleiçÔes presidenciais tenham levado um candidato de esquerda ao poder – por uma diferença mĂnima de votos, Ă© importante lembrar –, a maioria dos brasileiros optou por escolher como representantes no Congresso polĂticos mais alinhados a ideais conservadores e quer ver o Congresso Nacional defendendo esses valores.
A necessidade de um debate corajoso, mas equilibrado, sem que seja dominado por revanchismos ou mero espĂrito de contradição Ă© evidente, sobretudo pela tensĂŁo que se instalou neste Brasil fortemente polarizado.
A formação de uma oposição forte e bem articulada Ă© esperada pelos brasileiros. Ă fato que a mera adesĂŁo a partidos ou discursos conservadores durante a campanha nĂŁo Ă© garantia de que, ao assumirem seus mandatos, deputados e senadores manterĂŁo esse posicionamento – infelizmente hĂĄ muitos polĂticos que tĂȘm o fisiologismo como Ășnica bandeira e que nĂŁo hesitariam em apoiar Lula. Mas, se quiserem, deputados e senadores poderĂŁo formar uma oposição construtiva, pautada na defesa dos interesses do paĂs.
A existĂȘncia de uma oposição efetiva Ă© condição de saĂșde de uma democracia. Durante seus mandatos anteriores, Lula praticamente nĂŁo teve problemas com o Congresso. Ficou livre para articular a aprovação de projetos de seu interesse com muito pouca resistĂȘncia de quem quer que fosse. Isso definitivamente nĂŁo seria bom para o paĂs. A necessidade de um debate corajoso, mas equilibrado, sem que seja dominado por revanchismos ou mero espĂrito de contradição – algo que marcou a atuação do PT por dĂ©cadas quando nĂŁo estava no poder – Ă© evidente, sobretudo pela tensĂŁo que se instalou neste Brasil fortemente polarizado. Apenas um Congresso forte, com posicionamentos transparentes – e a existĂȘncia de uma oposição nĂŁo intimidada –, permite isso.
No fundo, o que a população deseja e quer do Congresso Nacional Ă© que os parlamentares façam o mĂnimo que se espera deles: que sejam fiĂ©is aos seus eleitores.
Somente o trabalho organizado dos parlamentares da oposição poderĂĄ levar o paĂs a discutir, por exemplo, os excessos cometidos pelo JudiciĂĄrio. Sem isso, hĂĄ o risco de, mais uma vez, açÔes como a do deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) – que no final do ano passado protocolou pedido para abertura de uma ComissĂŁo Parlamentar de InquĂ©rito (CPI) com o objetivo de investigar abusos cometidos por ministros do STF e TSE –, serem “engavetadas”. A instalação de uma CPI sobre esse tema Ă© hoje, talvez, a decisĂŁo mais relevante que o Congresso pode tomar para assegurar a integridade e a normalidade da vida democrĂĄtica brasileira.
O trabalho dos congressistas tambĂ©m serĂĄ importante para evitar retrocessos ou revogaços de medidas benĂ©ficas ao paĂs. Lembremos que jĂĄ na primeira semana apĂłs a posse, o governo Lula revogou diversas portarias do MinistĂ©rio da SaĂșde que regulamentavam a prĂĄtica do aborto do paĂs, retirando o Brasil do Consenso de Genebra e abolindo a orientação para que os serviços de saĂșde comunicassem casos de aborto decorrentes de estupro Ă s forças de segurança.
Outras ĂĄreas tambĂ©m devem sofrer açÔes semelhantes, como a trabalhista, onde o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, jĂĄ anunciou que vai rever a Reforma Trabalhista aprovada no governo de Michel Temer; ou o controle fiscal, que o governo quer simplesmente abolir, deixando Lula livre para promover um modelo de despesas pĂșblicas descontroladas e arrastar o Brasil – e toda a população – para a recessĂŁo, como, aliĂĄs, vimos no governo de petista Dilma Rousseff. O Pacote da Democracia de Lula igualmente sĂł poderĂĄ ser analisado com o apuro necessĂĄrio – e, como jĂĄ pontuamos, diversas propostas do pacote sĂŁo completamente opostas aos princĂpios democrĂĄticos – se a oposição estiver empenhada em se colocar como um real contraponto ao Executivo.
No fundo, o que a população deseja e quer do Congresso Nacional Ă© que os parlamentares façam o mĂnimo que se espera deles: que sejam fiĂ©is aos seus eleitores, que escolheram senadores e deputados para agirem em favor do paĂs e nĂŁo para se dobrarem ao sabor do vento ditado pelo presidente da RepĂșblica ou pelo JudiciĂĄrio.
Gazeta do Povo
publicadaemhttp://rota2014.blogspot.com/2023/02/o-congresso-de-que-o-brasil-precisa.html





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