por Paulo Moura.
A intensidade dos acontecimentos que levaram o país à crise atual,
notadamente na área política, econômica e moral, puxa o foco da mídia
para as entranhas do governo Dilma e para a operação Lava Jato. E,
quando o povo é protagonista dos fatos, para as manifestações de rua
que, simbólicas pelo impacto que causam na opinião pública, ou
expressivas pela grande participação da cidadania, empurram para a
frente a agenda das mudanças.
Em política usa-se a expressão “o
governo joga com as brancas” em alusão às regras do xadrez segundo as
quais o primeiro movimento no tabuleiro é de quem joga com as peças
brancas. Sob circunstâncias normais o padrão do jogo é o de que o
governo paute a agenda e provoque reações da oposição ou de agentes
sociais e grupos de interesse.
Essa relação de forças somente se
inverte em situações de crise nas quais os fatos oferecem à oposição a
possibilidade de tomar as iniciativas e forçar o governo a reagir. A
situação do Brasil no momento é dessas. Seria de se esperar, então, que o
principal protagonista da oposição fosse o PSDB. Afinal, os tucanos
governaram o país por dois mandatos consecutivos, tendo o PT como
principal opositor, e, quando o PT passou ao governo, foram os
candidatos do PSDB os principais adversários de Lula e Dilma nas
eleições que se sucederam.
Mas, ao olhar-se para os principais
acontecimentos políticos nacionais, quem vemos como os principais
criadores de problemas para o governo do PT?
Em primeiro lugar o
povo nas ruas, mobilizado pela insatisfação com a crise econômica,
política e moral que assola o país sob o patrocínio de Lula. Em segundo
lugar, as centenas, talvez milhares, de cidadãos autônomos que se
organizam (ou não) em grupos de ação política nas mídias sociais e nas
ruas, gerando fatos que forçam os partidos e lideranças políticas
tradicionais a terem esse elemento em conta ao fazerem suas escolhas.
Em terceiro lugar, o PMDB que, não obstante fazer parte do governo
petista, dá verdadeiras aulas de esperteza, dribles, rasteiras e bailes
de política em todos os demais players, inclusive, e especialmente, em
Lula.
Em quarto lugar, o próprio PT. Isto é, suas lutas internas
que trazem à luz as guerras de poder pelo controle do governo moribundo
de Dilma e pelo espólio do petismo. Nesse ambiente, Lula movimenta-se
erraticamente, ora criticando Dilma para salvar sua imagem do desastre
que criou, ora tentando salvar seu acesso às instrumentalidades que o
poder disponibiliza para quem precisa salvar-se da cadeia, melar a Lava
Jato, influenciar julgamentos no STF e comprar difíceis apoios na bacia
das almas, a um preço cada vez mais impagável.
Sim, não nos
iludamos como fizeram os editoriais do Estadão, acreditando que Lula
está louco para largar o osso e voltar à oposição, deixando ao sucessor
de Dilma à responsabilidade por consertar seus estragos. Lula pode até
sonhar com isso. Mas, não pode se dar a esse luxo. Se o PT perder o
governo, seu poder de compra no mercado de pixulecos se esvairá de forma
mais intensa e rápida do que o preço das ações da Petrobrás.
Ao
observador atento não terá passado desapercebido que, nas duas últimas
oportunidades em que Dilma ganhou algum fôlego para protelar seu fim
inevitável, foi por obra de Lula, que foi às compras para consertar os
estragos de Mercadante na articulação política do governo. O primeiro
movimento foi o acordo com Renan Calheiros, chefe da Casa onde o
impeachment será votado. O segundo, mais recente, foi a tentativa de dar
ao PMDB (e ao PDT) mais ministérios, de forma a barrar a formação do
quórum pró-impeachment da Câmara dos Deputados.
O esquartejamento
da Lava Jato e o anúncio desse acordo causaram comoção nos grupos
autônomos que debatem, trocam informações e organizam as ações políticas
que impulsionaram as três últimas grandes manifestações de rua contra o
PT. Sem conhecimento teórico, sem malícia e nem experiência os mais
precipitados anunciaram estar jogando a toalha e desistindo da luta.
Em menos de 24 horas o cenário mudou da água para o vinho. Eduardo
Cunha (PMDB/RJ), que muitos imaginavam comprado, pautou o impeachment na
Câmara dos Deputados. Logo após Fernando Collor de Mello (PTB/AL), o
maior especialista vivo em impeachment no país, concede entrevista a
Fernando Rodrigues (UOL), afirmando que, depois de instaurado o processo
torna-se irreversível devido à impossibilidade de controlarem-se as
pressões das ruas.
Em seguida o PMDB leva ao ar um programa em
rede nacional de TV, no qual se apresenta como alternativa de poder em
condições de substituir o estrelismo reinante. Movimento seguinte,
líderes do baixo clero peemedebista recuam do acordo supostamente
firmado com Lula, anunciando que não abririam mão dos ministérios da
Saúde e Infraestrutura que lhes teriam sido oferecidos, ante anunciadas
reações do petismo diante da possibilidade de perderem as tetas da
Saúde, até o momento, muito sugadas, mas pouco alcançadas pela Lava
Jato.
Coincidência ou não, o presidente do TCU anuncia que as
pedaladas fiscais deverão ser rejeitadas na segunda quinzena de outubro,
num movimento que exala cheiro de sincronismo com a agenda de Eduardo
Cunha (PMDB/RJ) para a tramitação do impeachment na Câmara e com a
Convenção Nacional do PMDB, agendada pera 15 de novembro, data em que se
comemora a proclamação da República. Evento que, como se sabe, terminou
com o Império na história do Brasil.
O leitor atento terá
percebido que acabo de escrever onze parágrafos sobre os principais
acontecimentos da cena política nacional recente e, em nenhum deles o
PSDB e seus líderes foram citados como protagonistas. Pelo contrário, o
que se vê, é o ex-presidente FHC resistindo ao impeachment sob alegação
de trauma nacional (para quem?), e falando frases de efeito para as
manchetes como quem imagina que não sabemos que em política valem as
atitudes e não a retórica.
Falando em atitudes, o ex-candidato
Aécio Neves, anda providencialmente calado e submerso, não sem antes
protagonizar solenes ambiguidades retóricas e notadas ausências nas
manifestações de rua em que 100% dos seus ex-eleitores pediam sua adesão
militante.
O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, tido como
líder conservador do PSDB, e, portanto, capaz de angariar simpatias, é
flagrado protagonizando cenas de personalismo explícito em favor de seu
interesse em derrubar Aécio da posição de presidenciável; ao contestar o
impeachment contra a absoluta e majoritária vontade das ruas.
O
senador Álvaro Dias (PSDB/PR), por seu turno, foi flagrado apoiando
explícita e veementemente a nomeação de um advogado do MST para o STF, e
o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB/SP), sendo arrastado para dentro
da Lava Jato.
A cúpula do PSDB não deve saber, mas em vários
desses grupos que mobilizam a cidadania nas mídias sociais e nas ruas
formando as redes de influência que levaram milhões às três grandes
manifestações de março, abril e agosto, há membros da base do PSDB e
outros partidos, que são natural e democraticamente aceitos como
parceiros pelos milhares de indivíduos sem partido que saíram da zona do
conforto para mudar o país e varrer o petismo do poder.
Os
tucanos de alta plumagem não percebem, mas a corrosão da imagem do PSDB
junto a esse público líder das opiniões mobilizadas é enorme. Como
participante de vários desses grupos, testemunhei as cobranças e
constrangimentos que os tucanos sofrem dos demais; li cartas de
desfiliação do PSDB endereçadas à direção partidária e publicadas nos
grupos virtuais e perfis pessoais dessas pessoas; testemunhei militantes
tucanos ativos nas ruas questionando-se: “Porque FHC não cala a
boca???” “Porque Aécio não fala e não age?” “Será que estão com o rabo
preso?”
As placas tectônicas da política brasileira estão se
movendo. A estrutura da polarização PSDB versus PT está em vias de
desaparecer devido à perda de poder, força e tamanho do PT. E ao
desgaste da imagem do PSDB, em função dos fatos aqui referidos. A
esquerda levará tempo para se reagrupar sob outras lideranças e se
constituir em polo de poder após a falência do PT. A estratégia do PMDB é
de nítida tomada do poder e a agenda que o os peemedebistas têm acenado
é conservadora nos valores morais e liberal na condução da economia.
O PSDB, que protagonizou a criação do Plano Real e poderia articular
alguns dos melhores economistas do país em torno da agenda da mudança,
está perdendo uma oportunidade que não se oferecerá novamente. Esse
Congresso já deu sobrados sinais de que não vai entregar saídas para
esse governo. O PMDB vai tomar o poder. Não há saídas com Dilma. Só há
saídas com o PT fora do poder.
Quando o impeachment de Collor
emergiu, a geração de líderes caras pintadas que assumiu o poder no país
nos anos seguintes, e se corrompeu, já estava dentro dos partidos
tradicionais. Naquela oportunidade não houve nenhum trauma, pelo
contrário, foi o impeachment de Collor que possibilitou o Plano Real e a
eleição de FHC. O momento e as circunstâncias são outros. Mas, o PSDB
vai seguir enfiando a o bico no chão e deixando a bunda de fora como
avestruz?
As lideranças que mobilizam os grupos e as ruas no
movimento pelo impeachment de Dilma e a faxina das instituições, está
fora dos partidos tradicionais, cuja credibilidade perante esses
segmentos mobilizados da opinião pública é baixíssima.
Das ruas
emergirá uma nova direita, moderna, liberal/conservadora e democrática,
avessa ao estatismo e ao patrimonialismo. Ao contrário do que dizia
Marx, a vanguarda das mudanças é a classe média e não o proletariado. É
por isso que Marilena Chauí e o PT nos odeiam. Nós representamos a
sepultura do lulopetismo.
As lideranças dos grupos virtuais e
reais que mobilizam as ruas se compõem de empresário médios e pequenos;
de profissionais liberais, gente com noções de administração e
estratégia que estão sendo aplicadas no planejamento de suas ações.
Gente que tira dinheiro do próprio bolso para as vaquinhas que financiam
ações nas mídias sociais e nas ruas. Gente que vai levar esse know-how
para dentro da política partidária em estratégias sofisticadas para
eleger líderes identificados com a causa da liberdade e da democracia,
por vários partidos. Poucos, muito poucos, talvez alguns poucos tucanos
venham a merecer os votos e o apoio dessas pessoas.
Essas pessoas
começarão a invadir a política formal já nas próximas eleições
municipais. Muitas delas pelo Partido NOVO. A maioria, em outros
partidos de centro e centro-direita, mas, todas, ostentado selos de
certificação conferidos pelos grupos a que pertencem, por sua identidade
e compromisso com a agenda das ruas; com a defesa das liberdades; da
democracia; da economia de mercado; da boa qualidade dos serviços
públicos e da redução do Estado e da carga tributária.
E o PSDB
de FHC e Aécio Neves, que, por falta de opção à direita, foi o estuário
recebedor dos votos, das esperanças e expectativas desses milhões de
brasileiros, está perdendo o bonde da história; jogando no lixo a
oportunidade de corresponder aos sonhos que outrora representou. Talvez
haja tempo para o PSDB mudar seu destino. Mas, estaria o PSDB
interessado nisso?
(Membro do grupo Pensar+)
extraídadepuggina.org