Jornalista Andrade Junior

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A paranoia da 'covid zero',

  por Brendan O'Neill, da Spiked


A China mostra como o fanatismo na saĂșde pĂșblica pode se tornar perigoso


Imagine uma nação em tamanho estado de sofrimento que seus cidadĂŁos foram reduzidos a fazer escambo de alimentos. Uma nação em que as mulheres estavam tĂŁo desesperadas para ter algo para cozinhar que começaram a trocar absorventes por vegetais. Uma nação em que famĂ­lias estavam com tanta fome que trocavam cigarros por repolho. Esse paĂ­s na verdade existe. E nĂŁo Ă© uma das naçÔes pobres, Ă s vezes famintas, do sul global. É a China. Mais precisamente, a China sob a polĂ­tica da “covid zero”. Se vocĂȘ quiser ser testemunha do inferno da “covid zero”, a insanidade distĂłpica de submeter todos os aspectos da vida Ă  cruzada contra o coronavĂ­rus, basta olhar para o paĂ­s onde o vĂ­rus surgiu.

O escambo por comida e outros itens bĂĄsicos estĂĄ ocorrendo na cidade de Xi’an, noroeste da China. Houve um aumento de infecçÔes por covid-19 na comunidade de Xi’an, e as autoridades reagiram com um feroz autoritarismo. Em 23 de dezembro, 13 milhĂ”es de pessoas foram confinadas em casa. Inicialmente, elas sĂł podiam sair a cada dois dias para comprar alimentos, mas atĂ© mesmo esse vestĂ­gio mĂ­nimo de liberdade foi eliminado em 27 de dezembro. A partir de entĂŁo, a população de Xi’an ficou literalmente em prisĂŁo domiciliar. Eles nĂŁo podiam sair de seu local de residĂȘncia por nenhum motivo, nem mesmo para comprar comida. Sim, 13 milhĂ”es de pessoas confinadas em casa. Se colocassem o pĂ© para fora, corriam o risco de ser presas.

Para lidar com a questĂŁo bastante sĂ©ria de que as pessoas ficariam muito doentes se nĂŁo se alimentassem, as autoridades de Xi’an organizaram a entrega de itens essenciais na porta dos cidadĂŁos. Os residentes reclamaram de nĂŁo receber alimentos suficientes. Outros disseram que nĂŁo receberam nenhum auxĂ­lio. Eles recorreram Ă  rede social Weibo para compartilhar imagens e vĂ­deos de si mesmos trocando gĂȘneros alimentĂ­cios. Em um clipe, um homem desesperado oferece um console de Nintendo em troca de macarrĂŁo instantĂąneo e pĂŁes cozidos no vapor. Outro oferece detergente para louça em troca de maçãs. As pessoas “nĂŁo tĂȘm mais o suficiente para comer”, contou um morador de Xi’an Ă  RĂĄdio Free Asia. Outro disse que Xi’an vive um “retorno Ă  sociedade primitiva”.

NĂŁo Ă© apenas Xi’an que estĂĄ sofrendo sob a opressĂŁo da “covid zero”. O 1,2 milhĂŁo de residentes da cidade de Yuzhou, na ProvĂ­ncia de Henan, foram colocados em lockdown depois que trĂȘs infecçÔes por covid-19 foram descobertas. InfecçÔes assintomĂĄticas, aliĂĄs. As regras sĂŁo severas. Todo o transporte pĂșblico foi suspenso. Foi proibido dirigir. Todas as escolas, todos os comĂ©rcios e espaços de entretenimento foram fechados. Por sorte, diferentemente dos cidadĂŁos cativos de Xi’an, os moradores de Yuzhou puderam ir a lojas que forneçam “itens da vida cotidiana”. Isto Ă©, eles tinham permissĂŁo para comprar comida. E sĂł. Sob a “covid zero”, vocĂȘ pode comer, e nada mais. VocĂȘ pode sustentar seu corpo, mas todos os outros aspectos da vida humana — educação, socialização, lazer, trabalho, protesto — sĂŁo negados. Tudo estĂĄ implacavelmente subordinado Ă  saĂșde pĂșblica. A vida estĂĄ despida de todas as coisas que a fazem valer a pena; apenas a preservação corporal Ă© permitida.

E pobres dos cidadĂŁos chineses que se manifestarem contra a tirania da “covid zero”. Em uma assustadora repetição da era maoĂ­sta, a humilhação pĂșblica voltou. Surgiram imagens da polĂ­cia na cidade de Jingxi, no sul da China, desfilando com supostos criminosos da covid pelas ruas. Quatro pessoas em trajes de proteção e mĂĄscaras foram conduzidas em marcha por policiais por uma ĂĄrea da cidade, enquanto os demais observavam. Todos os quatro tinham cartazes pendurados no pescoço com seu nome e uma foto de seu rosto. Sua suposta infração foi ajudar pessoas a atravessar a fronteira da China — o crime mais grave no paĂ­s da “covid zero”. O objetivo dessa humilhação, nas palavras da CNN, era conscientizar sobre “crimes ligados Ă  fronteira” e encorajar “a conformidade da população com a prevenção Ă  epidemia e as medidas de controle”. Talvez sair de casa para participar em sessĂ”es de “Dois Minutos de Ódio” contra criminosos da covid logo seja permitido em Xi’an? Qualquer espĂ©cie de alĂ­vio para os nove dias sombrios em que a população local ficou confinada com certeza serĂĄ bem-vinda.

De alguma forma, essas restriçÔes implacĂĄveis e misantropas sĂŁo exclusividade da China. Claro, trata-se de um paĂ­s autoritĂĄrio — a maioria de seus governantes tem poucos escrĂșpulos de privar as pessoas de suas liberdades mais bĂĄsicas. AlĂ©m disso, o Partido Comunista ChinĂȘs tem sua reputação a zelar. Como o jornal britĂąnico The Guardian relata, pelos Ășltimos 20 e tantos meses, a mĂ­dia estatal chinesa tem impulsionado a mensagem de que a disseminação da covid-19 em outros paĂ­ses se deve a uma “liderança fraca e Ă s mĂĄs decisĂ”es”. Abandonar a “covid zero” agora, e permitir a infecção da comunidade, ameaçaria a posição do presidente Xi e de sua administração. O mais preocupante de tudo, exatamente como resultado das polĂ­ticas da “covid zero” — e tambĂ©m do fato de que suas vacinas nĂŁo sĂŁo tĂŁo eficazes quanto as produzidas no Ocidente —, a população da China tem baixo nĂ­vel de imunidade contra a covid-19. Essa Ă© a armadilha da “covid zero”, como a AustrĂĄlia e a Nova ZelĂąndia descobriram: no processo de proteger seus cidadĂŁos contra a infecção, que Ă© a justificativa dessas polĂ­ticas de intolerĂąncia, vocĂȘ prejudica a capacidade biolĂłgica das pessoas de lidar com a covid quando ela inevitavelmente aparecer.

Mas, em outro sentido muito importante, a “covid zero” nĂŁo Ă© sĂł uma “coisa chinesa”. NĂŁo, aqui no mundo ocidental supostamente livre, diversos especialistas e observadores fizeram lobby abertamente por polĂ­ticas de “covid zero”, pela submissĂŁo da liberdade e das alegrias da vida a um programa para garantir que a covid-19 nunca mais se instale na nossa sociedade. No Ășltimo ano, a “covid zero” se tornou um pouco como o slogan do movimento “Defund the Police” (ou “Cortem o Orçamento da PolĂ­cia”, em tradução livre), em que as pessoas que fizeram essa reivindicação agora negam que de fato fosse isso que estivessem pedindo. Assim como os apoiadores do “Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”), na mĂ­dia dizem que “NĂŁo querĂ­amos acabar com os recursos da polĂ­cia de verdade, vocĂȘ sĂł nĂŁo entendeu as nuances do nosso posicionamento”, os lobistas da “covid zero” no Reino Unido e em outros locais insistem que, na realidade, nĂŁo queriam impor restriçÔes tĂŁo severas para que os casos de covid fossem reduzidos a zero. Mas o fato Ă© que queriam, sim.

GeraçÔes futuras vĂŁo olhar para trĂĄs e se perguntar por que nĂłs, no Ocidente supostamente liberal, copiamos as polĂ­ticas do Partido Comunista ChinĂȘs

AliĂĄs, vale lembrar que diversos especialistas britĂąnicos elogiaram a reação assustadora da China Ă  covid-19. O professor Neil Ferguson, do Imperial College London, afirmou que seus colegas e ele nunca acharam que poderiam “chegar tĂŁo longe” quanto Ă s implacĂĄveis polĂ­ticas que a China impĂŽs no inĂ­cio de 2020. “E entĂŁo a ItĂĄlia o fez. E nĂłs nos demos conta de que podĂ­amos fazer tambĂ©m”, disse Ferguson. A professora Christina Pagel, a onipresente fatalista, murmurou que a China estĂĄ “levando sua abordagem para a covid muito a sĂ©rio”, quando foi revelado que os chineses tinham construĂ­do um centro de quarentena de 5 mil quartos para aqueles que chegavam do exterior. “A China tem um sistema coletivo e socialista… nĂŁo uma sociedade individualista, voltada para o consumo e movida pelo lucro muito prejudicada pelos Ășltimos 20 anos de polĂ­ticas econĂŽmicas neoliberais”, a professora Susan Michie tuitou em março de 2020. Para reforçar sua mensagem, ela incluiu a hashtag #LearnLessons (#AprendamAsLiçÔes, em tradução livre). Ou seja, o Reino Unido deveria aprender com a China. Michie Ă© uma das conselheiras do Sage — o grupo de cientistas que estĂĄ prestando consultoria para o governo britĂąnico durante a crise da covid-19. Qualquer um que duvide de que a liberdade estĂĄ em situação precĂĄria sĂł precisa considerar o fato de que uma fĂŁ do “sistema” chinĂȘs tem aconselhado o governo inglĂȘs no decorrer dessa terrĂ­vel pandemia.

A verdade Ă©: se tivĂ©ssemos seguido as recomendaçÔes dos fanĂĄticos britĂąnicos da “covid zero”, estarĂ­amos em uma situação semelhante Ă  da China agora. TerĂ­amos aceitado que nada Ă© mais importante que evitar a infecção do novo coronavĂ­rus. TerĂ­amos reorganizado a sociedade de tal forma que a saĂșde fosse preservada em detrimento da vida — em detrimento da educação, da interação humana, do direito de andar do lado de fora da sua porta. Fizemos isso por alguns perĂ­odos, claro, durante diversos lockdowns. E geraçÔes futuras com certeza vĂŁo olhar para trĂĄs e se perguntar por que nĂłs, no Ocidente supostamente liberal, copiamos, por franca admissĂŁo de Ferguson, as polĂ­ticas do Partido Comunista ChinĂȘs. Mas, por ora, enquanto lemos sobre os apuros desesperadores em que as boas pessoas de Xi’an se encontram, vamos lembrar que temos nossos prĂłprios fanĂĄticos da “covid zero”, e que suas polĂ­ticas tresloucadas teriam nos colocado em uma situação similarmente distĂłpica. Isso me assusta mais do que a covid-19 em si. Devolver a liberdade a seu devido lugar — como a caracterĂ­stica mais importante da nossa sociedade — serĂĄ a principal tarefa de 2022.

Brendan O’Neill Ă© o repĂłrter-chefe de polĂ­tica da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show. Seu Instagram Ă©: @burntoakboy

Revista Oeste
















publicadaemhttp://rota2014.blogspot.com/2022/01/a-paranoia-da-covid-zero-por-brendan.html

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