Jornalista Andrade Junior

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Triste sábado



O helicóptero ricocheteava sobre o sul do Pará e dentro dele, sentados no chão ou talvez em algum objeto que servia de encosto, não me lembro, estávamos o ex-guerrilheiro José Genoíno, um ou dois parentes de combatentes do Araguaia e eu.

Ainda estudante de jornalismo, como repórter do jornal Tribuna Operária, órgão do PCdoB, acompanhava a primeira comissão de familiares que visitava a região da guerrilha em busca de informações. ...

Tremia o queixo, as pernas, as mãos e tentava aparentar razoável normalidade. O nervosismo devia-se menos ao voo turbulento e muito mais à proximidade com Genoíno, um dos caras que tinham pegado em armas para combater a ditadura.

Alguns anos depois, não mais que três ou quatro, participei da primeira direção da CUT de Goiás. Delúbio Soares era o presidente. Goiano bonito, sempre sorridente, brincalhão, de forte sotaque interiorano. Dessa vez, me senti uma verdadeira sindicalista, embora não fosse nem nunca conseguisse vir a sê-lo. Não sabia me expressar em assembleias e reuniões. Não entendia muito bem o fio condutor do pensamento dos meus companheiros — nunca entendi muito bem, nem no sindicato, nem na militância estudantil, nem nos primeiros anos do PT. Era um raciocínio que eu não conseguia acompanhar — me sentia uma idiota me fingindo de líder estudantil/sindical. 

Presos os líderes petistas, preso o começo da minha curta história de militância sindical e política. Como se alguém roubasse meu álbum de recordações e grifasse traços quadriculados em cada uma das fotos, caricaturando uma cadeia. Pena que meu precioso amigo Wilmar Alves e meu querido chefe Antônio Carlos Moura estejam mortos. Queria ligar para eles e ouvi-los a respeito desse dia. Aguerrido comunista, Wilmar foi um dos humanos mais grandiosos que tive a chance de conhecer. De Mourão, o católico progressista e intrépido, a lembrança mais forte que guardo é de ele publicando uma matéria (de interesse das causas que defendia), mas que o dono do jornal, em Goiânia, proibira a publicação. Publicou, mesmo sabendo que no dia seguinte seria demitido. E foi.

Não saberia dizer se a Justiça foi feita e se essas prisões de algum modo vão melhorar o Brasil, vão intimidar os corruptos e os corruptores em todas as instâncias da vida republicana ou irão se transformar num padrão de julgamento de agora em diante. Do que li ontem a respeito das prisões, me chamou a atenção um comentário de um articulista considerado de direita, Demétrio Magnoli. “Dirceu et caterva aparentemente não desviaram dinheiro público para formar patrimônios privados próprios, mas para estabilizar e reproduzir um sistema de poder. Eles fizeram o que fizeram em nome dessa ideia: a Verdade do Partido.”

Ressalvando a deslavada prepotência — et caterva quer dizer bando de vadios —, esse talvez tenha sido o maior erro petista, o de autorizar-se a prática do crime em nome dos legítimos ideais partidários. Arrogantes, como Magnoli. 

No helicóptero, na CUT nos anos 1980, havia um Brasil que eu começava a conhecer e queria ajudar a mudar. Passadas três décadas, perdi a ingenuidade, desativei a militância e acordei ontem num Brasil que me parece muito mais complexo do que já pude imaginar.
Fonte: Conceição Freitas-Correio Braziliense

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