O helicóptero ricocheteava sobre o sul do Pará e dentro dele, sentados no chão ou talvez em algum objeto que servia de encosto, não me lembro, estávamos o ex-guerrilheiro José Genoíno, um ou dois parentes de combatentes do Araguaia e eu.
Ainda estudante de jornalismo, como repórter do jornal Tribuna
Operária, órgão do PCdoB, acompanhava a primeira comissão de familiares
que visitava a região da guerrilha em busca de informações. ...
Tremia o queixo, as pernas, as mãos e tentava aparentar razoável
normalidade. O nervosismo devia-se menos ao voo turbulento e muito mais à
proximidade com Genoíno, um dos caras que tinham pegado em armas para
combater a ditadura.
Alguns anos depois, não mais que três ou quatro, participei da primeira
direção da CUT de Goiás. Delúbio Soares era o presidente. Goiano
bonito, sempre sorridente, brincalhão, de forte sotaque interiorano.
Dessa vez, me senti uma verdadeira sindicalista, embora não fosse nem
nunca conseguisse vir a sê-lo. Não sabia me expressar em assembleias e
reuniões. Não entendia muito bem o fio condutor do pensamento dos meus
companheiros — nunca entendi muito bem, nem no sindicato, nem na
militância estudantil, nem nos primeiros anos do PT. Era um raciocínio
que eu não conseguia acompanhar — me sentia uma idiota me fingindo de
líder estudantil/sindical.
Presos os líderes petistas, preso o começo da minha curta história de
militância sindical e política. Como se alguém roubasse meu álbum de
recordações e grifasse traços quadriculados em cada uma das fotos,
caricaturando uma cadeia. Pena que meu precioso amigo Wilmar Alves e meu
querido chefe Antônio Carlos Moura estejam mortos. Queria ligar para
eles e ouvi-los a respeito desse dia. Aguerrido comunista, Wilmar foi um
dos humanos mais grandiosos que tive a chance de conhecer. De Mourão, o
católico progressista e intrépido, a lembrança mais forte que guardo é
de ele publicando uma matéria (de interesse das causas que defendia),
mas que o dono do jornal, em Goiânia, proibira a publicação. Publicou,
mesmo sabendo que no dia seguinte seria demitido. E foi.
Não saberia dizer se a Justiça foi feita e se essas prisões de algum
modo vão melhorar o Brasil, vão intimidar os corruptos e os corruptores
em todas as instâncias da vida republicana ou irão se transformar num
padrão de julgamento de agora em diante. Do que li ontem a respeito das
prisões, me chamou a atenção um comentário de um articulista considerado
de direita, Demétrio Magnoli. “Dirceu et caterva aparentemente não
desviaram dinheiro público para formar patrimônios privados próprios,
mas para estabilizar e reproduzir um sistema de poder. Eles fizeram o
que fizeram em nome dessa ideia: a Verdade do Partido.”
Ressalvando a deslavada prepotência — et caterva quer dizer bando de
vadios —, esse talvez tenha sido o maior erro petista, o de autorizar-se
a prática do crime em nome dos legítimos ideais partidários.
Arrogantes, como Magnoli.
No helicóptero, na CUT nos anos 1980, havia um Brasil que eu começava a
conhecer e queria ajudar a mudar. Passadas três décadas, perdi a
ingenuidade, desativei a militância e acordei ontem num Brasil que me
parece muito mais complexo do que já pude imaginar.
Fonte: Conceição Freitas-Correio Braziliense





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