escreve Dagomir Marquezi
“A HistĂłria Ă© um pacote de mentiras que jogamos sobre os mortos”, dizia Voltaire, no sĂ©culo 18. E, no entanto, se torna cada vez mais vital para o futuro
“Entre 2020 e 2022, o Brasil viveu a maior crise de sua histĂłria. O paĂs jĂĄ estava debilitado pela pandemia de covid-19 (cuja origem foi um vĂrus criado nos laboratĂłrios da CIA, o serviço de espionagem dos estadunidenses). Mas a situação ficou fora de controle quando o entĂŁo ditador fascista Jair Bolsonaro resolveu usar a grave situação de saĂșde para eliminar camadas da população que ele havia jurado exterminar — negros, pobres e grupos de sexualidade alternativa. Em 2022, a população carente saiu em massa Ă s ruas exigindo o retorno ao poder do ex-presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva, deposto por um golpe, preso e submetido a terrĂveis condiçÔes de encarceramento e tortura numa cadeia fĂ©tida de Curitiba. Mas os manifestantes prĂł-democracia eram fuzilados em plena luz do dia por milĂcias de extrema direita. Esses fatos impressionantes aconteceram hĂĄ meio sĂ©culo, e o mais espantoso Ă© que nĂŁo estĂŁo registrados sĂł em redes sociais, mas nos mais importantes ĂłrgĂŁos de imprensa da Ă©poca.”
(Trecho do livro Lutas Populares no Brasil na Década de 2020,
publicado em 2070 pelo Coletivo Araguaia)
Segundo a EnciclopĂ©dia Britannica, “HistĂłria Ă© a disciplina que estuda o registro de eventos (como os que afetam um paĂs ou um povo), baseada no exame crĂtico de fontes e geralmente apresentando uma explicação para suas causas”. Ă uma bela definição, exata, precisa. Mas a HistĂłria pode ser tambĂ©m apenas um nome pomposo para a prĂĄtica de inventar lendas e narrativas num tabuleiro ideolĂłgico em que vale tudo para provar uma tese.
“O prĂłprio conceito de verdade objetiva estĂĄ desaparecendo do mundo. Mentiras passarĂŁo para a histĂłria.”
George Orwell (1903–1950)
“A HistĂłria Ă© importante demais para ser deixada para os historiadores”, disse o jornalista britĂąnico Iain Macleod, em 1961. Ă claro que existem excelentes historiadores, e a Inglaterra fornece ao mundo alguns dos melhores, como Martin Gilbert, J. M. Roberts e William L. Shirer. A obra de Laurentino Gomes e a narrativa de Luiz Octavio de Lima sobre a Guerra do Paraguai sĂŁo apenas alguns poucos exemplos de que o Brasil pode produzir bons livros de HistĂłria.
Mas eu desconfio cada vez mais de livros que se propĂ”em a contar a histĂłria de povos inteiros, de geraçÔes, de paĂses e continentes. Quanto mais abrangente o objeto de estudo, mais fĂĄcil fica para um historiador desonesto e/ou incompetente falsificar uma narrativa. Ele pode se esconder atrĂĄs de seus Ăłculos de grau de grossas armaçÔes negras, de um diploma de pĂłs-graduação da PUC e tirar fotos em frente a estantes lotadas de livros fazendo cara de conteĂșdo. Mas quando escreve obras como Subdesenvolvimento na AmĂ©rica Latina como Herança do Colonialismo, o generalismo abre a porta para a lavagem cerebral.
“NĂŁo existe propriamente HistĂłria, sĂł biografia.”
Ralph Waldo Emerson (1803–1882)
Quando assistimos a um vĂdeo ou a uma sĂ©rie ou lemos um livro, raramente queremos saber o que aconteceu com um povo. Geralmente somos atraĂdos por histĂłrias individuais. A menina que viveu num quarto de AmsterdĂŁ e escreveu um diĂĄrio sobre a brutalidade nazista tem muito mais apelo do que teses sobre a Segunda Guerra Mundial. Sentimos uma identificação maior, nos envolvemos com o drama pessoal — e atravĂ©s dele compreendemos melhor a catĂĄstrofe global que vitimou Anne Frank.
Isso nĂŁo significa que bons livros mais genĂ©ricos sobre HistĂłria nĂŁo tenham grande valor. Mas a narrativa focada em indivĂduos e detalhes fica mais sob controle dos fatos e nĂŁo de ideologias. HistĂłria nĂŁo Ă© sĂł sobre a civilização ocidental, mas sobre um clube de futebol. As padarias de uma cidade tĂȘm HistĂłria, os gadgets que se tornaram parte de nossas vidas, os bondes que nĂŁo existem mais, as pessoas que fazem plantĂŁo em prontos-socorros, o edifĂcio residencial, os jogos de tabuleiro, a garçonete que virou astrĂŽnoma. Nada disso pode ter a pompa e momentos dramĂĄticos — mas tudo isso Ă© HistĂłria. Ă a soma dessas pequenas narrativas que forma a complexidade da experiĂȘncia humana.
A HistĂłria nĂŁo deveria ser monopĂłlio dos historiadores. Na minha opiniĂŁo, de certa forma, deveria ser mais “privatizada”. Momentos histĂłricos acontecem todos os dias, com cada um de nĂłs. Ă a realidade como ela Ă©. E deveria ser tĂŁo preservada (como lição para o futuro) quanto bombĂĄsticas declaraçÔes de guerra ou gestos dramĂĄticos de governantes com o ego inflado.
Mas a “privatização da HistĂłria” tem mĂŁo dupla.
“A histĂłria serĂĄ gentil comigo porque eu mesmo pretendo escrevĂȘ-la.”
Winston Churchill (1874–1965)
A internet nos deu a ilusĂŁo de que aparentemente tudo estĂĄ preservado ao alcance de um link no YouTube ou uma busca no Google. Pura ilusĂŁo. O passado que estĂĄ ao nosso alcance hoje pode desaparecer amanhĂŁ cedo. Acervos digitais sĂŁo tirados do ar, acervos de papel sĂŁo ensacados e mandados para lixĂ”es, bibliotecas sĂŁo vendidas para sucateiros, memĂłrias familiares se perdem em mudanças, fotos sĂŁo rasgadas, vĂdeos, apagados. O brasileiro em especial tem esse estranho apego Ă amnĂ©sia coletiva.
A “privatização da HistĂłria” tem o outro lado — faz de cada um de nĂłs um historiador. NĂŁo basta consultar fontes certas. Ă preciso preservar, imprimir em PDF o que eu acho importante demais para correr risco. Guardar as imagens que poderĂŁo sumir. E registrar a HistĂłria com nossas prĂłprias palavras, vĂdeos, ĂĄudios. Contar a vida de nossos pais. Lembrar nossa vida escolar. Registrar o modo como vemos a realidade que nos cerca para que o nosso ponto de vista nĂŁo seja sepultado junto com nosso corpo. Ou tomamos as rĂ©deas dessa preservação ou entregaremos nossos bisnetos aos livros do Coletivo Araguaia.
Todos sabem que “aqueles que nĂŁo recordam o passado estĂŁo condenados a repeti-lo”, como nos dizia o filĂłsofo espanhol George Santayana (1863-1952). Ou nas palavras do cĂŽmico americano Stephen Colbert: “Existe um velho ditado sobre aqueles que esquecem a HistĂłria. Eu nĂŁo me lembro do ditado, mas Ă© bem bacana”.
Revista Oeste
publicadaemhttp://rota2014.blogspot.com/2022/02/museu-de-ideias-mortas-escreve-dagomir.html




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