sugere Fábio Giambiagi Não investir em Previdência complementar por causa dos casos do Aerus, fundo de Previdência da Varig, e do Postalis, fundo dos Correios, equivale a não viajar de avião porque o Brasil teve três grandes tragédias aéreas nos últimos 30 anos
Não há como esperar no Brasil que o sistema no qual o INSS opera seja substituído por um sistema de capitalização. Não gostaria, porém, que isso fosse entendido como um desestímulo à formação de uma Previdência complementar pelas pessoas. Ao contrário, sou um entusiasta dela. Apenas é importante, como o nome indica, entender que ela é um instrumento, justamente, complementar à aposentadoria oficial.
O Brasil tem um sistema de aposentadoria, com base no regime do INSS, com um teto arredondado da ordem de R$ 6,5 mil. Alguém que ganha por mês R$ 7 mil talvez não tenha maiores incentivos para contribuir para uma previdência complementar. Porém, se a pessoa ganha R$ 13 mil, por exemplo, terá de pensar duas vezes antes de optar por não programar uma renda complementar futura, pois, ao se aposentar, na melhor das hipóteses, sua renda cairá para a metade. Ela sabe disso e está disposta a isso?
No país em que vivemos, as queixas que ouço, nas minhas palestras, associadas à desconfiança das pessoas em contribuir para a Previdência complementar, são sempre: os problemas com montepios nos anos 70 e os casos do Aerus, fundo de previdência da Varig, e do Postalis, fundo dos Correios. São casos nos quais, indiscutivelmente, o governo falhou ao não proteger os participantes e não evitar que grupos de pessoas tivessem prejuízos dramáticos, que infernizaram sua vida numa fase em que o apoio financeiro era tão importante.
Embora sensibilizado por esses casos – até porque um deles, por razões familiares, acompanhei de perto –, meu argumento em defesa da Previdência complementar se baseia em quatro pontos:
- o primeiro destes casos ocorreu há 50 anos, não guardando relação com a situação atual;
- Aerus e Postalis foram casos graves, mas foram 2 em 250 fundos. Não ter uma previdência complementar por esses problemas equivale a não viajar de avião porque o Brasil teve três grandes tragédias aéreas nos últimos 30 anos;
- o ambiente regulatório melhorou muito no Brasil nos últimos anos, com o aprimoramento dos órgãos de supervisão; e
- para quem aplica em PGBL e VGBL, esses receios não se aplicam e estas são alternativas que têm se consolidado com sucesso no mercado.
O Brasil tem um sistema de Previdência complementar sólido e esta é uma das áreas em que o País tem feito progressos nos últimos 25 anos. Quem ganha acima de R$ 6,5 mil por mês deve pensar nessas questões – preferencialmente, desde cedo.
O Estado de S.Paulo
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