Priscila Contim
Devido às crises econômicas tanto no Brasil quanto na Argentina, o Paraguai passou a ser visto pelos investidores de toda a América Latina como uma saída para a prosperidade. E, em certa medida, de fato é. Com seus baixos impostos, mais liberdade trabalhista e condições favoráveis à transferência industrial, oferece terreno fértil para as empresas florescerem. A propaganda se espalhou de tal forma que chegou aos socialistas que, com seu historicismo, sedentos por “desmascarar a farsa liberal”, apontam os defeitos do Paraguai como símbolo máximo do fracasso do liberalismo. Dizem que o Paraguai é pobre, não possui infraestrutura, não há emprego e que a prova disso são os mais de 14% da população paraguaia que migraram para outros países. Não obstante terem razão com relação aos defeitos, não têm quanto às causas. De fato, o Paraguai padece de todos esses problemas. Diferentemente do Brasil, cuja Constituição Federal foi promulgada antes da queda do Muro de Berlim, o Paraguai formulou sua constituição posteriormente, em 1992, e, portanto, com princípios mais liberais. Mas uma assinatura estatal por si só não basta para promover um ambiente capitalista. Em meu artigo Como o estado destrói o empreendedorismo, explico detalhadamente a importância da cultura empreendedora e a incapacidade do estado de promovê-la. É exatamente esse o caso do Paraguai, que explica como um país liberal pode ser pobre.
Mas nem todos os grupos residentes no Paraguai são igualmente pobres. Os menonitas, por exemplo, apesar de representarem apenas 1% da população paraguaia, são responsáveis por 80% da produção láctea do país e contribuem com 7% do Produto Interno Bruto (PIB). Com relação à comunidade denominada “brasiguaia”, médias propriedades agrícolas de origem brasileira produzem entre 30% e 40%de todos os grãos do país. Quando considerada a totalidade das propriedades na região de fronteira com o Brasil, estima-se que sejam responsáveis por 60% a 70% da produção de soja[1]. Mas isso não acontece apenas no setor agrícola. Nas indústrias sob o Regime Maquila, responsáveis por 10 a 12% das exportações paraguaias, o capital de origem brasileira soma 70%. Quanto à contribuição dos brasileiros ao PIB paraguaio, não há dados disponíveis, nem interesse em divulgá-los.
A que se deve essa discrepância econômica brutal? Certamente não podem ser explicadas nem pelo ambiente de negócios, que é o mesmo, nem pelo capital, pois, em tese, a atividade empreendedora em seu cerne não necessita da propriedade de capital. O único elemento explicativo que nos resta e que confirma nossa teoria: que a cultura determina os limites econômicos do ser humano. O Paraguai, infelizmente, não desenvolveu uma forte cultura capitalista. Não há grandes escolas de negócios, os livros são caros e há uma cultura nacional solipsista que se recusa a absorver produções culturais de outros países e se volta somente para si mesma e sua própria história. Apesar da Lei Maquila, para atração de novos investimentos, ter sido criada em 1997, seus maiores efeitos surtiram apenas na última década em consequência de causas externas, da fuga de investidores devido às restrições de liberdade em seus países de origem.
Quanto à afirmação de que o Paraguai carece de cultura capitalista, poderiam objetar que, na verdade, a carência é de capital. Mas isso não explicaria o motivo pelo qual o país, tendo mais liberdade que seus vizinhos, não recorreu ao capital financeiro internacional. Pelo contrário, a situação confirma a hipótese de que é por falta de conhecimento e hábito com os mercados. Há também outra questão: a liberdade paraguaia é relativa aos outros países da América Latina e não avaliada em si mesma, com relação à própria qualidade. O país não é tão livre assim se analisado sob critérios libertários: o sistema financeiro é fechado, há intervenção do Banco Central nos índices macroeconômicos, medidas governamentais populistas, proibição de concorrência, burocracia, corrupção direta e fechamento imigratório. Características que serão analisadas e destrinchadas em outro artigo. O Paraguai pode ser mais livre que outros países, mas nem por isso libertário. Mesmo padecendo desses males, ainda assim oferece melhores condições que seus vizinhos, mas ainda não está economicamente melhor que eles. O que falta, repito, é a cultura capitalista.
A cultura determina os limites da imaginação. É através da capacidade imaginativa que um agente consegue criar um negócio ou produto que ainda não existe, pensar possibilidades ainda não realizadas. A imaginação limita também a posição social que o sujeito ocupará na sociedade, pois as classes sociais não se diferenciam apenas em termos financeiros, mas de aprendizado e comportamento. Para alcançar um status superior, é necessário primeiro conseguir imaginá-lo e posteriormente aplicar os meios para atingi-lo. É onde entra a técnica: o conhecimento da melhor utilização dos meios para atingir um determinado fim. A imaginação e a técnica limitam, portanto, a maneira como os negócios serão realizados e expandidos. E a maneira como os negócios são realizados e expandidos determina o nível de prosperidade do país. A cultura capitalista foi desenvolvida durante séculos, não só por teóricos como por homens práticos através de suas tentativas e erros. Todo esse aporte civilizacional é necessário para o avanço econômico. A liberdade de mercado não causa por si só e de maneira automática uma expansão da capacidade imaginativa, apenas oferece as condições essenciais para que essa expansão ocorra. Fornece inclusive o ambiente necessário para o intercâmbio cultural através do comércio.
Israel M. Kirzner, em seu livro Competição e a Atividade Empresarial, demonstra com uma construção hipotética o que aconteceria numa economia se os agentes não tivessem capacidade perceptiva e operassem apenas com base em dados do passado e surgisse um grupo de forasteiros trazendo novas informações e percepções, essa economia se desenvolveria, no primeiro momento, com base na imitação[2]. Mesmo se as novas capacidades não fossem plenamente desenvolvidas, mas apenas imitativas, haveria um ganho geral. Com o passar do tempo, os agentes locais também desenvolveriam a capacidade de perceber as oportunidades por si mesmos. Embora seja um exercício hipotético, comum à Economia, guarda verdades quanto ao processo de difusão de informações e aprendizado que é confirmado pela sociologia.
Os estrangeiros, no Paraguai, não estão trazendo apenas capital financeiro, mas também técnico e cultural. Os menonitas, além da cultura de eficiência alemã, trazem consigo a resiliência para ambientes desfavoráveis, por isso estão dominando a região mais inóspita do país, o Chaco. Os brasileiros, com sua cultura de miscigenação e incorporação de elementos diversos de outros povos, são capazes de mudar e se adaptar facilmente. Eficiência e adaptação são alguns dos motivos pelos quais certos grupos enriquecem mais que outros no mesmo ambiente de negócios. O mercado, sendo um processo dinâmico, exige a abertura ao aprendizado e, portanto, um espírito receptivo. A cultura nacional paraguaia tende, historicamente, ao isolacionismo, fator responsável pela homogeneização de seu povo que, justamente por isso, permanece encerrado em seus limites culturais, naquilo que já conhecem e que já foi feito. Entretanto, isto está gradativamente mudando numa nova forma econômica muito mais sólida, como tudo que não é feito na canetada pelo estado. A baixa carga tributária, a baixa inflação, portanto menor preferência temporal, somadas a uma cultura que privilegia as relações humanas, o tempo de lazer com a família e amigos, influem sobre os estrangeiros positivamente, tirando-lhes a vida econômica do centro da existência e criando um capitalismo muito mais equilibrado.
Que nada nesse artigo seja mal compreendido como uma espécie de polilogismo, ideia segundo a qual cada povo possui sua lógica e, portanto, alguns seriam naturalmente superiores aos outros e dotados de mais capacidade. Essa ideia esdrúxula já foi superada há pelo menos um século. A Cultura é um produto humano dinâmico, que pode ser aprendido, adaptado e até mesmo perdido. Esse dinamismo é justamente o que estamos assistindo acontecer em tempo real, no Paraguai: a absorção de novas culturas, técnicas e capital num país que, se não se fechar, poderá alcançar sua tão almejada prosperidade. Não será uma Suíça, como muitos profetizam, mas tão somente um Paraguai rico, diverso e livre.
[1] Esses dados podem ser obtidos somente por meio do cruzamento de inúmeras fontes devido a problemas metodológicos e institucionais. Primeiro, as propriedades são registradas no cômputo nacional sem considerar a nacionalidade de origem; segundo, a produção científica nacional é incipiente, o que dificulta a obtenção de dados. Existe ainda um fator político e cultural: devido aos conflitos históricos entre brasileiros e paraguaios, a nacionalidade da produção não é divulgada para evitar novos atritos. Nada impede, entretanto, que órgãos privados façam seus levantamentos. Os dados sobre os menonitas citados neste artigo foram divulgados por um instituto privado, grupo em relação ao qual aparentemente não há problema em trabalhar com os dados discriminando a origem, diferentemente do que ocorre com os brasileiros. Não adentraremos nessas questões, pois não são o enfoque deste artigo.
[2] Ver Capítulo 1: “Processo de mercado versus equilíbrio de mercado” em: KIRZNER, Israel M. Competição e atividade empresarial. São Paulo: Instituto Mises, 2012, p. 23.
publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/22209/se-o-paraguai-e-capitalista-por-que-e-pobre/
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