Marcos H. Giansante
A ruptura entre a razão clássica e o racionalismo moderno – Rousseau e Mises
“Nada é tão dócil quanto o homem em seu estado primitivo… é a sociedade que o deprava e o corrompe.”
— Jean-Jacques Rousseau, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens
Durante séculos, o Ocidente acreditou estar falando sempre da mesma coisa ao pronunciar a palavra “razão”. O termo atravessou épocas, escolas e disputas como se fosse uma lâmpada imóvel, iluminando igualmente todos os caminhos. No entanto, sob essa aparência de continuidade, algo decisivo se transformava em silêncio.
Desde os gregos, a palavra “razão” parecia designar sempre a mesma luz, o mesmo instrumento natural pelo qual o homem reconhecia o real e ordenava a vida. Ao longo dos séculos, porém, esse termo aparentemente estável sofreu uma mutação profunda. Poucos percebem que, quando se afirma que Aristóteles é racional, que Tomás de Aquino é racional, que Rousseau é racional, que Keynes é racional e que Mises também o é, não se está falando da mesma racionalidade. O estudante moderno, ao ouvir tais afirmações, é lançado em um labirinto conceitual, no qual autores radicalmente distintos são apresentados como se compartilhassem um único conceito de razão. Essa ambiguidade corrói a formação intelectual contemporânea e torna opaca a história do pensamento econômico, político e filosófico. Este capítulo existe para restaurar essa nitidez perdida.
A razão clássica, que nasce em Sócrates, ganha forma em Aristóteles, aprofunda-se na síntese agostiniana e é sistematizada por Tomás de Aquino, é antes de tudo uma virtude. Ela não cria o mundo, mas o lê. É uma disciplina interior, um hábito cultivado no tempo, fundada no reconhecimento de que o homem é limitado, imperfeito e moralmente condicionado. Em Aristóteles, a razão orienta a ação possível dentro da imperfeição humana. Em Tomás, a natureza encontra sua finalidade e o ser encontra seu dever não por ruptura, mas pela ordem inteligível que a razão humana reconhece na criação. Na Escolástica tardia, essa razão se transforma em método de análise da ordem espontânea, oferecendo as primeiras reflexões sistemáticas sobre moeda, preço justo, formação de valores, juros e ética das trocas, antecipando elementos que séculos depois reapareceriam com maior rigor na tradição austríaca. A razão clássica é humilde. Não pretende reconstruir a realidade, mas compreendê-la. Não desconfia do tempo; sabe que é nele que o erro se revela e que a prudência se aperfeiçoa.
Esse edifício sofre inflexão decisiva com Rousseau. Ao inverter o eixo da tradição, ele inaugura uma racionalidade de natureza inteiramente distinta, embora preserve o mesmo nome. Para Rousseau, o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. O mal não reside na natureza humana, mas nas instituições, nas convenções e nos costumes. Se a sociedade deforma o homem, cabe então ao legislador iluminado, figura rara e supostamente dotada de uma clarividência moral superior, reconstruir o mundo social para restaurar uma pureza perdida. Aqui, a razão deixa de ser leitura da ordem espontânea e passa a ser instrumento de engenharia social. O tempo já não é aliado da prudência, mas suspeito de corrupção. O ideal não está na experiência acumulada, mas na origem mítica. Não é preciso aprender com o passado, mas retornar a um estado anterior ao erro. Essa mudança inaugura o racionalismo moderno, que germinará no jacobinismo, no positivismo, no estatismo centralizador, nas escolas neoclássicas de modelagem social e, mais tarde, nas teorias de gerenciamento macroeconômico.
Aqui está o divisor de águas. Para a tradição clássica, a razão opera dentro das imperfeições do mundo. Para o racionalismo moderno, ela pretende superá-las por decreto. Para os clássicos, a sociedade emerge das ações humanas, dos costumes, das práticas e dos equilíbrios construídos historicamente. Para os racionalistas modernos, ela deve ser desenhada por especialistas, conduzida por planejadores e moldada por teorias que supostamente sabem mais do que a própria vida. Para os clássicos, o tempo educa. Para Rousseau, o tempo deforma e precisa ser corrigido. A diferença não é apenas conceitual; é civilizacional.
Nesse ponto, a ruptura se torna inequívoca. A razão dos gregos, aprofundada por Agostinho e sistematizada por Tomás, reconhece que cada ser humano carrega limites estruturais, que o conhecimento cresce por camadas, que nenhuma mente abarca o todo e que o mundo é complexo demais para ser dominado por um único modelo. A razão moderna, inaugurada por Rousseau, afirma o oposto: que a sociedade é matéria moldável, que alguns sabem moldá-la, que o indivíduo pode ser sacrificado à vontade geral e que a imperfeição não precisa ser contida, mas eliminada por meio de um desenho institucional imposto de cima para baixo.
A Escola Austríaca não surge como uma terceira razão, mas como o retorno da primeira. Menger demonstra que instituições como a moeda, o direito e o mercado não são criações legislativas, mas produtos emergentes da ação humana ao longo do tempo. Mises devolve à razão sua dignidade moral: toda ação humana é racional porque toda escolha envolve fins e meios, e porque todo fim e todo meio se inscrevem no tempo. Trata-se da recuperação do logos clássico aplicado à economia. Hayek, por sua vez, expõe a ilusão fatal do racionalismo construtivista: nenhum planejador possui acesso ao conhecimento disperso, tácito e localizado que coordena a sociedade. A crença de que modelos matemáticos ou teorias estatais podem substituir o aprendizado espontâneo é apenas a versão moderna da utopia rousseauniana.
Nesse sentido, Mises não responde apenas a Rousseau como autor, mas a todo o projeto racionalista que nasce com ele: a pretensão de substituir o aprendizado temporal da ação humana por esquemas concebidos fora da experiência, da responsabilidade individual e da própria historicidade.
Autores como Sowell, Popper e Ayn Rand ajudam a iluminar aspectos dessa retomada, embora não sejam protagonistas desta cronologia. Sowell descreve o contraste entre a visão restrita, que reconhece os limites humanos e confia na experiência histórica, e a visão irrestrita, que aposta na plasticidade moral ilimitada e na engenharia social. Popper demonstra por que todo conhecimento é falível e precisa ser corrigido no tempo. Rand reafirma o indivíduo como fim em si mesmo, devolvendo à razão humana sua força criadora. Todos convergem para o mesmo ponto: a crítica à arrogância racionalista e a defesa de uma razão enraizada na realidade.
Ao final dessa travessia, a distinção deve permanecer cristalina. A razão clássica, que moldou o Ocidente, é humilde, prudente, moral e temporal. O racionalismo moderno, inaugurado por Rousseau, é voluntarista, centralizador e desconfiado da experiência acumulada. A primeira compreende o tempo; a segunda tenta superá-lo. A Escola Austríaca representa o retorno ao logos que não se impõe sobre o mundo, mas age dentro dele.
A razão reencontra o tempo, e o tempo reencontra o homem. Só age quem compreende que o instante é passagem e que toda liberdade nasce da duração.
Quando a razão se afasta do tempo vivido e se converte em projeto de reconstrução, suas consequências deixam de ser apenas filosóficas. Elas se sedimentam nas instituições, assumem forma normativa, transformam-se em código, doutrina e legislação.
É no campo jurídico que essa mutação se tornará mais visível, pois ali a abstração racional buscará substituir a experiência histórica como fonte de ordem. A travessia, portanto, desloca-se agora da razão que interpreta o mundo para a razão que pretende organizá-lo por meio de sistemas formais.
publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/22212/o-tempo-da-razao-e-a-razao-do-tempo/
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