Jornalista Andrade Junior

domingo, 9 de outubro de 2022

'Nem Lula nem Bolsonaro?',

 por Deonísio da Silva Os dois não conseguiram galvanizar mais de 37 milhões de leitores

São eleitores que não votaram em ninguém para presidente da República e representam um dado assustador: nas urnas, somam 500% acima da diferença entre os dois candidatos.

Galvanizar tem o sentido de infundir alguma coisa na alma das pessoas e movê-las a tomar uma atitude, a deixar de se omitir: a ler textos avulsos ou livros; a assistir a filmes, a vídeos e a peças de teatro; a ouvir determinadas músicas; a ajudar o próximo e a praticar a misericórdia, enfim.

E a evitar e a eleger algum candidato. O verbo eleger é do mesmo étimo de ler e tem significados semelhantes a colher e a escolher.

A viagem de galvão e de outras palavras deste étimo é fascinante. Quando os antigos romanos invadiram a Europa, deram com novos vocábulos, é claro, às vezes para designar as mesmas coisas, outras vezes para identificar coisas desconhecidas no Lácio. Foi o caso da palavra do galês “Gwalchmei”, designando um tipo de gavião que aparecia no mês de maio. No alemão, a ave predadora era conhecida por “Gawin”, e no francês por “gauwain”.

Os escritores romanos, alguns dos quais eram militares, como o foi Júlio César com o clássico De Bello Gallico, adaptaram este vocábulo para o latim “galganus”, que depois virou também nome e passou ao português como sobrenome, já alterado para Galvão.

Como alguns dos primeiros nobres portugueses fossem analfabetos, usavam figuras de identificação na heráldica familiar e alguns mandaram ilustrar seus escudos com a imagem de um gavião para designar a família Galvão. Temos o santo brasileiro Frei Galvão, de Guaratinguetá, lembrado por suas pílulas miraculosas, e há várias ruas e logradouros com o nome Galvão pelo Brasil afora, uma delas na Barra Funda, em São Paulo.

No Século XVIII, o italiano Luigi Galvani, também apresentando no sobrenome a derivação do latim, pois o italiano é, como o português, uma língua vinda do latim, usou eletricidade para cobrir um metal com fina porção de outro material. O método passou a ser identificado pelo sobrenome de seu inventor.

No Século XIX, José Martins Fontes, filho de Isabel e do médico Silvério Martins Fontes,  já usava o verbo galvanizar num poema: “O luar as cousas galvaniza”. Ele deixou Santos (SP) para seguir a profissão do pai e para isso foi estudar Medicina no Rio de Janeiro. Frequentava a Confeitaria Colombo e se encantou com o poeta Olavo Bilac.

Esses saberes tão saborosos são trazidos a eventuais leitores para que sintam deleite semelhante ao que sentiram os autores que os descobriram e procederam de modo semelhante ao do italiano Galvani, só que para galvanizar as palavras.

Entre esses autores, estão dois escritores do Brasil Meridional que arrebataram o Prêmio Internacional Casa de las Américas, concedido em Havana todos os anos: Walter Galvani, com Nau Capitânia, e o autor destas linhas com Avante, soldados: para trás.

Com orgulho e honra, mas sem vaidade, “há braços” aos eventuais leitores. Tenho mais alegria pelo que leio do que pelo que escrevo.

Deonísio da Silva é professor, escritor, doutor em Letras pela USP e autor também de De onde vêm as palavras (18ª edição, editora Almedina).

Revista Oeste






















PUBLICADAEMhttp://rota2014.blogspot.com/2022/10/nem-lula-nem-bolsonaro-por-deonisio-da.html


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