por Theodore Dalrymple
O heroísmo de Volodymyr Zelensky é medido pela nossa
desimportância
Oheroísmo
do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tem sido estupendo. Ainda mais
por vivermos em uma época de políticos insignificantes. Ou melhor, de pessoas
que não podem nem ser chamadas de capituladoras, porque para capitular é
preciso ter princípios prévios. E nossos líderes não têm nenhum princípio além
da busca por um mandato.
Zelensky,
que não era um homem nada admirado quando os russos invadiram seu país, tendo
sido o vulgar quase militante que uma carreira televisiva como a dele exigia
(não que qualquer um seja obrigado a ter uma carreira na televisão), passou a
ser uma fonte de heroísmo que envergonha a maioria dos líderes. Claro, se você
quer ser um herói, pode ser útil ter uma situação bem definida em que se é um
herói ou um covarde, uma vez que a maior parte das opções é consideravelmente
mais ambígua. Mas o heroísmo continua sendo heroísmo.
De novo, o
heroísmo é uma dessas virtudes que requerem uma qualidade adicional para
torná-la verdadeiramente admirável. Afinal, é possível ser heroico em uma causa
abominável. Os políticos ocidentais que chamam homens-bomba islâmicos de
covardes são idiotas: eu gostaria de vê-los explodindo! Ninguém que planeja e
executa um bombardeio suicida é covarde. Ao contrário, eles são muito
corajosos, mas essa coragem de maneira nenhuma traz brilho ao ato. Ao
contrário, esses homens desonram a própria virtude da coragem.
Agora, o
heroísmo de Zelensky está em uma boa causa: me parece uma amostra
impressionante de audácia, digna da escola de falsidade de Stálin, o senhor
Putin afirmar que, ao invadir a Ucrânia e bombardear alvos civis, ele está
“eliminando o nazismo”. Ao contrário, é totalmente óbvio que sua própria
conduta e a justificativa para essa conduta se parecem muito com as dos
nazistas.
Mas talvez
isso não devesse me surpreender tanto: a única vez que encontrei uma multidão
supostamente antifascista na Inglaterra (ela era bem pequena), foi uma forte
lembrança de um comportamento fascista. Seus membros estavam usando roupas
pretas e máscaras e promovendo violência contra pessoas e propriedades. Eles
repetiam gritos de guerra, como se a repetição garantisse a verdade, e a
veemência garantisse a retidão. A intimidação era seu argumento favorito.
Aliás, era o único.
Um pianista num campo de futebol
No entanto,
temo que a elevação de Zelensky ao status de herói mais cedo
ou mais tarde (provavelmente mais cedo) seja seguida da descoberta de um defeito
ou uma fraqueza — que todos nós temos. Parece que o desejo ou a necessidade de
trazer heróis para o nosso próprio nível é tão grande quanto o nosso desejo ou
a nossa necessidade de ter heróis.
Biografias
de figuras que costumavam ser admiradas raramente deixam de trazer revelações
de que o biografado tinha muitos vícios que prejudicam a conquista da nossa
admiração. E, apesar de sermos multiculturais, julgamos nossas figuras pelos
padrões mais absolutos e rigorosos do momento atual, sem nunca nos ocorrer que
nossos padrões atuais podem, eles mesmos, mudar um dia ou até mesmo ser
condenados por gerações posteriores. Somos multiculturais apenas na geografia,
não no tempo: nosso provincianismo no tempo é absoluto.
Ficamos envergonhados com a nossa própria mediocridade e, por
isso, tentamos reduzir o extraordinário ao nosso próprio nível mesquinho
A
necessidade de reduzir heróis ao nosso nível enfatizando seus defeitos e suas
falhas morais é interessante. O que isso nos diz sobre nós mesmos? Ficamos
envergonhados com a nossa própria mediocridade e, por isso, tentamos reduzir o
extraordinário ao nosso próprio nível mesquinho. Um cientista brilhante roubou
suas ideias de um assistente do laboratório. Um autor famoso plagiou seu melhor
livro de outro autor obscuro e injustamente menosprezado. E ficamos feliz de
descobrir tudo isso, porque sentimos alívio em relação aos nossos próprios
complexos de inferioridade.
Mas por que
sentimos vergonha da mediocridade? Afinal, é inevitável que todos nós sejamos
medíocres na maior parte das coisas. E se não temos nenhuma aptidão especial
para nada, não é nossa culpa. A pessoa mais bem dotada é medíocre na maior
parte das coisas, assim como o intelectual mais erudito é infinitamente
ignorante. Coloque um pianista de concerto em um campo de futebol ou sente um
jogador de futebol diante de um piano Steinway, e é improvável que o resultado
seja edificante, ainda que possa ser divertido por um instante.
O homem é um animal comparador
Considerando
sua predominância, a mediocridade é um tema muito negligenciado. Penso nele com
muita frequência, ainda que não de forma obsessiva, em parte porque tive de
lidar com muitas burocracias de governo. E cheguei à conclusão — timidamente,
sem dúvida — que a mediocridade mudou sua natureza; para pior, claro.
No começo da
minha carreira, os medíocres estavam felizes em ser medíocres. Eles não ficavam
preocupados em não ser especiais de nenhuma forma. E tocavam a vida, faziam seu
trabalho e não incomodavam ninguém. Eram totalmente respeitáveis e, na verdade,
todo país precisa de medíocres, aos milhões.
Alguns anos
atrás, conheci um recrutador de uma grande montadora de carros que dizia estar
sempre em busca de pessoas sem ambição nem iniciativa, que ficariam contentes
com bons salários e não desejariam nada mais. Essas pessoas, que costumavam ser
numerosas, estão cada vez mais difíceis de encontrar.
Por que a
mudança? Minha sugestão são dois fatores (mas não posso provar isso). A
primeira é o crescimento do ensino superior, o que inevitavelmente alimenta
ambição. A segunda é a difusão do entretenimento televisivo e das redes
sociais. O homem é um animal comparador, e quanto mais ele puder se comparar
com os outros, menos contente ele fica com sua situação atual.
Mas as
habilidades fundamentais que a maioria das pessoas tem não mudaram junto com
seus horizontes. No entanto, esses horizontes em expansão tornaram a busca por
distinção pessoal ainda mais desesperada (claro, a busca sempre existiu,
nenhuma novidade nisso, foi sempre uma questão de predomínio).
O exercício
de poder é a maneira como aqueles que carecem de talentos especiais, os
medíocres, tentam se destacar. E, como existem tantos medíocres em busca de
distinção, as disputas de poder mesquinhas (mais uma vez, elas sempre
existiram) estão cada vez mais comuns e amarguradas. Pelo menos, foi isso que
observei em meus hospitais, nos quais a implacabilidade e a determinação, mas
não a habilidade, se tornaram a chave para o sucesso.
Revista Oeste
PUBLICADAEMhttp://rota2014.blogspot.com/2022/04/a-grandeza-da-mediocridade-por-theodore.html





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